Ayana
O dia está claro, com aquele sol que parece trazer junto uma paz que eu nem sabia que precisava tanto. Sempre imaginei que um lugar assim, longe do trabalho e das tensões, me ajudaria a desligar, mas a verdade é que minha cabeça parece cheia. Talvez seja a presença de algumas pessoas que surgiram por aqui, ou talvez só o peso do que carrego de ontem — de ontem mesmo, como o ex que acabou de fazer questão de aparecer.
Julian Lopes, o “ex arrependido”, que anda me rodeando há semanas com aquele olhar meio vago e a sensação irritante de que ele acha que tem uma porta aberta de volta na minha vida. Mas o que eu mais sinto é que eu não preciso de portas para o passado. Já me basta tudo o que carrego, e ele? Ele é só uma lembrança de um tempo que ficou para trás, lá junto com algumas feridas que já tratei de fechar.
Quando ele se aproxima, tento respirar fundo e ignorá-lo. Ele para do meu lado, um sorriso disfarçado, como se não estivesse interrompendo nada. Sinto meu corpo se enrijecer, e percebo que o que deveria ser um momento de paz vai, mais uma vez, ser testado.
— "Ayana, aAchei que fôssemos amigos…” — ele diz, tentando soar casual.
Olho para ele, forçando um sorriso de quem tá com a paciência bem curta. Amigos? Como se isso fosse fácil de acontecer, como se ele não tivesse sido alguém que me fez acreditar numa história que no fim das contas só foi um monte de promessas vazias.
— “Julian, a gente tem um passado, mas não vejo sentido em ficar repisando isso. O que você realmente precisa?” — corto, tentando manter a calma.
Ele parece se abalar um pouco, e então solta um suspiro exagerado.
— “Olha, sei que você acha que foi tudo… complicado. Mas não podemos, pelo menos, ter uma conversa civilizada? Algo que não seja um... corte?”
Dou uma risada curta e forçada. “Civilizada”? Eu passei tanto tempo tentando ser civilizada com ele, tentando terminar as coisas de uma maneira que fosse madura, sensata. Mas a verdade é que ele nunca quis entender isso. Ele sempre achou que teria outra chance, que poderia voltar quando quisesse.
— “Julian, você é adulto. Vai e vive sua vida, constrói o que precisar. Mas não espere que eu vá parar minha vida para olhar para trás.”
Julian desvia o olhar, com um sorriso que não sei se é de compreensão ou de frustração. Por um momento, sinto que ele vai responder, mas um movimento me chama a atenção: Joseph está se aproximando.
Ele para ao meu lado, e por um segundo, olho para ele como quem vê uma saída. Ele lança um olhar rápido para Julian, com uma sobrancelha levemente arqueada, como se perguntasse se tudo está bem.
Julian, claro, sente a tensão e aproveita para dar uma alfinetada.
— “Stive, sempre por perto da Ayana, hein? É bom saber que ela tem um amigo confiável.”
Joseph me lança um sorriso, mas o olhar dele é firme, direto para Julian.
— “Pois é, Julian, e não precisa se preocupar com isso. A confiança aqui nunca foi um problema.”
Contenho um sorriso que ameaça escapar. Julian faz um leve aceno para mim, e finalmente se afasta. Enquanto ele caminha para longe, sinto um alívio que quase me faz suspirar.
Joseph
Vejo Julian sair e não perco a chance de soltar uma piada.
— “Você tem uma sorte com ex, Montenegro. Ele é tipo aqueles filmes ruins que a gente assiste e nunca entende por que resolveram fazer sequência.”
Ela dá uma risada espontânea, e o peso da situação se dissolve um pouco. Gosto de vê-la assim, solta, com o riso fácil e sem aquela postura formal que ela tanto cultiva. Hoje ela parece mais leve, quase outra pessoa. Mas, claro, eu não resisto e provoco um pouco mais.
— “Tem gente que prefere complicar, mas seu gosto por exes estranhos me intriga. Você passa o dia inteiro lidando com advogados chatos, e, quando decide arranjar um namorado, escolhe alguém... ainda mais complicado?”
Ela me dá uma cotovelada leve, rindo.
— “Porque você é o modelo de simplicidade, né, Stive?” — diz, revirando os olhos. — “Mas já que gosta tanto de dar palpite, me diz, o que você faria no meu lugar?”
Não espero que ela realmente queira saber, mas decido ser direto. Ela merece isso.
— “Se fosse comigo? Acho que eu cortaria contato. Tem gente que acha que o passado pode sempre voltar, mas algumas coisas merecem um ponto final.”
Ela me olha, surpresa. É engraçado como, por mais que provoque, ela nunca espera que eu seja direto. Parece que ela sempre aguarda uma nova ironia.
Ficamos em silêncio por um instante. Ela sorri para mim, um sorriso sincero, mais leve do que eu esperava. Sinto meu coração bater mais rápido por um segundo, e a sensação me pega desprevenido. Queria dizer que é só o efeito do sol e do clima de piscina, mas parte de mim sabe que não é bem isso.
Ayana
Aquelas palavras ficam na minha cabeça, ecoando de um jeito que não consigo controlar. “Um ponto final…” Talvez seja exatamente o que eu precisava ouvir. Tenho essa mania de querer resolver tudo, entender tudo, dar mais chances — talvez para os outros, talvez para mim mesma. Mas a verdade é que a vida nem sempre precisa de revisitas, e eu já cansei de tentar entender tudo. Olho para Joseph, e ele está me observando com um sorriso contido, como se realmente quisesse que eu encontrasse essa resposta.
Eu me viro, tentando afastar o pensamento de que talvez Joseph saiba mais de mim do que eu gostaria. Sinto uma leve vergonha de que ele esteja percebendo o quanto essas palavras mexem comigo, então resolvo brincar.
— “Vamos, Stive, antes que você resolva bancar o psicólogo.”
Ele ri, e seguimos até a beira da piscina, mergulhando na água. A sensação da água fria me desperta de novo, me trazendo para o presente. Fico ali, flutuando um pouco, tentando limpar a mente. Mas quando olho para o lado, vejo Joseph me observando, com uma expressão suave, quase curiosa.
Joseph
Ela flutua na água, e por um instante, vejo Ayana como nunca antes: vulnerável, aberta, mas ao mesmo tempo com aquele ar desafiador que a torna tão única. Me aproximo dela, não planejando muita coisa — apenas me deixando levar pelo momento. No reflexo do sol na água, seu rosto parece mais suave, mais próximo, e eu não consigo desviar o olhar.
Então, sem querer, acabamos nos esbarrando. A proximidade inesperada me pega de surpresa, e por um segundo, ficamos ali, a centímetros de distância um do outro. É como se o mundo ao redor desaparecesse, e tudo que existe fosse aquele olhar dela, aquele momento suspenso no tempo. Posso sentir o calor dela, e meu coração acelera, como se estivesse esperando por algo.
Nossos olhares se encontram, e por um instante penso em quebrar essa barreira invisível entre nós. Algo na forma como ela me olha também parece dizer que não seria uma má ideia. Ela respira fundo, como se sentisse o mesmo turbilhão. Mas, antes que eu me atreva a fazer algo, ela desvia o olhar, um leve rubor no rosto.
— “É melhor… eu sair da água,” ela murmura, com um sorriso nervoso.
Ayana
O ar entre nós ficou tão denso que chega a ser palpável. O jeito como Joseph me olhou, aquele quase toque, me fez sentir coisas que eu não deveria sentir. Não com ele. Mas é difícil ignorar. Subo da água e respiro fundo, tentando acalmar o coração que insiste em correr.
Quando chego à espreguiçadeira, percebo que estou tremendo um pouco. Não pelo frio, mas por uma mistura de emoções que ainda não compreendo bem. Joseph se aproxima, e me lanço em um sorriso, tentando manter o controle, tentando fingir que não senti nada demais.
— “Acho que esse foi o mergulho mais emocionante que já fiz,” ele comenta, com um sorriso de canto, aquela típica ironia que me faz revirar os olhos, mas que, hoje, soa como um eco do que quase aconteceu.
Zau, que tinha estado alheia a tudo, percebe algo na nossa interação. Ela olha para mim, depois para Joseph, com um sorriso malicioso.
— “Então… parece que essa piscina trouxe mais agitação que o escritório, hein?”
Rio, tentando disfarçar, mas não posso negar: há algo entre Joseph e eu, algo que se esconde na ironia, no desafio constante, mas que vai muito além do que aparentamos.
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Atualizado até capítulo 67
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