Ansel ofereceu um refrigerante e alguns biscoitos a Evan, enquanto ambos se sentavam no jardim lateral. Mal tinham trocado palavras desde que se encontraram, mergulhados num silêncio que não parecia constrangedor, mas também não prometia ser quebrado tão cedo.
—Acho que cometi um erro —disse Evan repentinamente, sua voz grave quebrando o silêncio. Ansel franziu a testa, sem entender a que ele se referia—. Quando mencionei que ambos tínhamos o coração partido.
Ansel assentiu, mastigando um dos biscoitos.
—Por que seria um erro? —perguntou, virando-se para Evan, esperando alguma explicação. Evan também voltou seu olhar para Ansel, mas logo seus olhos desviaram para o pescoço exposto de seu companheiro.
—A marca —murmurou Evan, apontando com um gesto para seu próprio pescoço. O rosto de Ansel corou imediatamente e ele tentou cobrir, inutilmente, a marca avermelhada em sua pele—. E não diga que foi um mosquito, porque eu sei muito bem como elas são.
Ansel soltou uma risadinha nervosa, resignado.
—Digamos que as coisas vão melhor do que eu esperava —admitiu finalmente. Embora só tivessem se visto algumas vezes, Ansel sentia uma estranha confiança em Evan, uma sensação de que podia falar com ele sem medo de ser julgado—. Segui seu conselho e me atrevi a seguir em frente. Mas, ainda não estamos em um relacionamento… continuamos sendo apenas amigos.
Evan assentiu em silêncio, observando como o olhar de Ansel se escurecia ligeiramente. Sem pensar muito, ergueu a mão e deu tapinhas suaves na cabeça dele, tentando confortá-lo. Era um gesto que costumava fazer com Leo quando ele estava triste ou irritado, e sempre conseguia acalmá-lo.
Ansel ergueu o olhar, surpreso com o carinho repentino. Seus olhos encontraram os de Evan, que ainda mantinha a mão sobre sua cabeça, acariciando com uma delicadeza que o fez sentir-se estranhamente tranquilo. "Se ao menos ele fosse Emmett", pensou Ansel, mas logo descartou essa ideia, arrependido de tê-la tido. O sorriso de Evan, caloroso e reconfortante, o enchia de uma paz que jamais havia experimentado, o que começava a confundi-lo.
—Posso te garantir que ele gosta de você —disse Evan, tirando-o de seu devaneio—. Deixar marcas no seu corpo é um sinal bastante claro disso.
—Também pensei nisso, mas Emmett não é de compartilhar nada. —Ansel baixou o olhar, seu tom se tornando mais pensativo—. Nunca o vi ser generoso com ninguém, a não ser comigo. É como se eu fosse… seu brinquedo pessoal.
Essa ideia rondava a mente de Ansel há semanas. Conhecia Emmett desde criança, e ele sempre fora egoísta. Não compartilhava suas coisas, não importava o que fosse; tudo o que lhe pertencia era só seu até que ele se cansasse. E, embora Ansel odiasse pensar que pudesse ser apenas mais um objeto para Emmett, não conseguia evitar. Esse medo de ser descartado lhe havia roubado mais de uma noite de sono.
—Você não deveria ser tão duro consigo mesmo —respondeu Evan, com um sorriso gentil—. Talvez ele só precise de um empurrãozinho para perceber o que sente por você.
Ansel soltou uma risadinha incrédula. Nem mesmo ele conseguia ser tão otimista em relação a Emmett.
—E se esse empurrão o afastar para sempre? —perguntou em voz baixa, recostando-se no encosto do banco e olhando para o céu. As copas das árvores pareciam esconder as respostas para suas dúvidas—. E se eu encontrar um muro? Tenho medo de pressioná-lo e ele me rejeitar. E se ele nunca mais falar comigo? E se ele me odiar por amá-lo?
A voz de Ansel foi se quebrando enquanto falava. Havia imaginado sua confissão dezenas de vezes, e em cada uma delas, o medo o consumia. Ele o via, indiferente, pedindo-lhe que desaparecesse de sua vida para sempre. Ou pior ainda, seu melhor amigo o espancaria e exigiria que jamais se aproximasse novamente.
—Mas, e se não for assim? —replicou Evan com calma—. E se ele te quiser para sempre? E se ele te amar?
Ansel franziu a testa, sem dizer nada. Evan imitou sua postura, também erguendo o olhar para o céu com uma expressão completamente serena.
—Você está imaginando o pior cenário possível, mas pelo que você me contou, tem mais chances de ser aceito do que rejeitado —disse Evan, virando a cabeça para ele. A luz do sol realçava o cabelo loiro de Evan, fazendo-o brilhar como se ele fosse um anjo caído do céu. Por um momento, Ansel realmente pensou que ele fosse.
—Você realmente acha isso? —perguntou Ansel em um sussurro, voltando o olhar para o céu, suspirando.
—Deixe-me conhecê-lo e te direi —respondeu Evan, se levantando e se colocando à sua frente—. Se ele estiver apaixonado, vou te provar que você é muito mais do que um simples brinquedo, como você pensa.
Ansel riu suavemente diante da segurança de seu novo amigo, mas a verdade era que ele mesmo havia considerado algo semelhante.
—E se não funcionar? —perguntou, mais sério—. E se ele ficar com raiva e acabar com o pouco que temos?
Evan sorriu de novo, como se já tivesse passado pelo mesmo dilema antes.
—Quando Leo e eu começamos a sair, eu tinha os mesmos medos que você. Tinha pavor de que ele me rejeitasse, porque ele é bonito e popular, e eu sou um pouco mais velho que ele. —Evan baixou o olhar, esfregando o pescoço, nervoso ao se lembrar—. Mas um dia, quando o vi perto demais de um dos meus amigos, o ciúme me consumiu. Tomei coragem, confessei tudo na frente de todo mundo, cheguei até a gritar com meu amigo. Não me importei se isso arruinasse nossa amizade.
Evan sorriu amplamente, como se lembrar daquela anedota lhe devolvesse a coragem daquele momento. Mas o sorriso se desvaneceu ligeiramente ao acrescentar:
—No entanto, toda aquela coragem desapareceu quando soube que Leo ia para o exterior...
Evan deixou que suas palavras pairassem no ar, enquanto a sombra da árvore parecia envolvê-los em uma bolha de silêncio.
Ansel não sabia como consolá-lo, porque nem mesmo ele se sentia bem. Levantou-se e olhou para o relógio; já havia passado da metade do intervalo e eles ainda estavam lá, mergulhados em seus pensamentos e preocupações.
—Vamos, está na hora de voltar para a aula —disse Ansel, quebrando o silêncio constrangedor que havia se instalado entre eles. Evan ergueu o olhar, um pouco perdido. Então, após uma breve olhada em seu próprio relógio, assentiu com um leve gesto.
—Sim, vamos. A propósito, se você se animar a colocar meu plano em prática, me avise. —Evan disse com um sorriso leve, mas em seu tom havia uma mistura de seriedade e entusiasmo.
Ansel assentiu, embora sua mente já estivesse em outro lugar. Na verdade, ele já havia mencionado algo sobre ele para Emmett, e a forma como ele reagiu não lhe pareceu totalmente normal naquele momento. Decidiu ignorar a situação, convencendo-se de que eram apenas ciúmes entre amigos. No entanto, agora que Evan havia colocado a ideia em sua cabeça, ele não conseguia parar de se sentir intrigado. Havia algo na maneira como Emmett agia que o fazia pensar que talvez houvesse algo mais do que uma simples amizade possessiva.
Enquanto caminhavam em direção às salas de aula, Ansel parou abruptamente. O impulso de tomar uma decisão o atingiu de repente, e ele estendeu a mão e segurou Evan pelo braço para impedi-lo de continuar andando.
—Vamos fazer isso —disse ele, com determinação na voz—. Me ajude a descobrir se Emmett sente algo por mim além dessa amizade possessiva que ele sempre demonstrou.
Evan sorriu, satisfeito com a resolução de seu amigo. Embora estivesse ajudando Ansel a resolver seus próprios conflitos, na realidade também estava fazendo isso por si mesmo. De alguma forma, manter sua mente ocupada o ajudava a não pensar tanto em Leo, em tudo o que não havia dito, no que havia deixado passar. Queria que Ansel conseguisse o que ele mesmo não tinha sido capaz de fazer: enfrentar seus sentimentos e descobrir a verdade, por mais dolorosa que fosse.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 44
Comments
Expedita Oliveira
Eita, agora vai ...💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘💘
2024-12-30
0
Onyxdacocada
Evan sendo um cupido de coração partido
2024-11-22
1