O dia de ingresso na universidade finalmente havia chegado. Ansel estava de pé em frente ao espelho, ajeitando o cabelo com mãos trêmulas e arrumando a roupa mais uma vez, apesar de já estar perfeitamente no lugar. Uma mistura de nervosismo e emoção o invadia, como se borboletas revoassem em seu estômago, anunciando o começo de um novo capítulo em sua vida. Respirou fundo, soltando uma grande baforada de ar que não pareceu acalmá-lo por completo, e ajeitou o colarinho da camisa, tentando ocultar uma marca. Apesar de seus esforços, a mordida vermelha que Emmett havia deixado na noite anterior ainda estava visível, contrastando com sua pele como um lembrete de sua intensa e estranha relação.
“Isso é para que ninguém se atreva a te tocar.”
Essas palavras ecoavam em sua mente repetidamente, gravando-se em seu coração com uma mistura de possessividade e desejo que o perturbava mais do que queria admitir. O sussurro de Emmett na noite anterior havia sido suave, mas o impacto que teve em Ansel estava longe de ser leve. Ele não conseguia evitar que suas bochechas ficassem vermelhas, o calor subindo rapidamente pelo seu rosto enquanto as lembranças daquela noite o envolviam. Foi obrigado a lavar o rosto mais uma vez, na esperança de acalmar o rubor que o dominava, embora no fundo soubesse que não era apenas o calor que o afetava, mas a tempestade de emoções que Emmett provocava nele.
— Ansel, desce rápido ou vai se atrasar! — A voz forte de sua mãe, chamando-o do andar de baixo, o tirou de seus pensamentos, fazendo-o dar um pequeno pulo e sacudir a cabeça, tentando clareá-la.
Com uma última olhada no espelho e um suspiro de resignação, saiu correndo do quarto. Desceu as escadas de dois em dois degraus, ansioso para evitar mais perguntas ou olhares curiosos. Ao chegar ao hall de entrada, encontrou Emmett, esperando-o com uma calma que só o deixava mais nervoso. Quis sorrir e abraçá-lo como se fossem um casal, mas se conteve, embora a sensação de vê-lo ali, como se fossem namorados prestes a ir juntos para a universidade, fizesse seu peito se aquecer de uma forma estranha.
— Vamos, rapazes. Eu levo vocês. — Benjamin, o pai de Ansel, aproximou-se com as chaves do carro na mão, pronto para sair. Após se despedirem de Olivia, sua mãe, Ansel e Emmett entraram no carro e logo estavam a caminho.
A viagem até a universidade foi surpreendentemente tranquila, repleta de conversas leves e algumas piadas que ajudavam a distrair Ansel da ansiedade que ainda estava latente em seu estômago. No entanto, cada vez que olhava para Emmett de soslaio, sentia seu coração bater mais forte. Ao chegarem, desceram do carro e encontraram Ronan e Alex na entrada do campus, que já os esperavam. Depois das saudações habituais, os quatro amigos caminharam juntos, tentando disfarçar o nervosismo, embora a expectativa pelo que estava por vir fosse palpável no ar.
— An, a gente se vê no intervalo — disse Emmett, segurando a mão de Ansel de repente, o que fez com que ele sentisse um arrepio percorrer seu braço.
O simples contato fez o coração de Ansel disparar, seus pensamentos se dispersando ao sentir o calor da mão de Emmett sobre a sua. Por um segundo, o mundo ao redor pareceu desaparecer e tudo o que restou foi a intensa conexão entre eles. Esforçou-se para não ficar muito tempo preso àquela sensação e respondeu rapidamente.
— Certo — disse ele, se soltando quase que com um puxão, como se escapar daquela proximidade física lhe permitisse voltar a respirar. Ronan e ele tinham aulas na mesma direção, então se despediu com um último olhar para Emmett e continuou caminhando com o amigo.
Ronan caminhava em silêncio, o que para Ansel sempre pareceu natural, mas algo no ar estava diferente hoje. Finalmente, Ronan quebrou o silêncio, sua voz baixa e cautelosa.
— Ansel, quero te fazer uma pergunta, mas não sei se você vai se importar — comentou, levantando uma sobrancelha.
Ansel franziu a testa, surpreso. Ronan não era do tipo que se interessava pela vida dos outros, muito menos por assuntos que ele considerava triviais ou alheios ao seu próprio mundo. Essa era mais a especialidade de Alex, não de Ronan.
— Pode perguntar — respondeu com cautela, virando na esquina com o amigo enquanto ambos procuravam por suas respectivas salas de aula.
— Você gosta do Emmett ou vocês já estão namorando?
A pergunta caiu como um raio sobre Ansel, fazendo-o parar de andar abruptamente. Seu corpo ficou tenso instantaneamente e seus pensamentos se agitaram como uma tempestade. Como Ronan poderia ter notado? Seria tão evidente assim? Ansel engoliu em seco, sentindo uma onda de nervosismo percorrê-lo enquanto procurava as palavras certas para responder, embora nenhuma lhe parecesse suficiente.
— O quê? Você está louco? Eu não gosto dele — respondeu desajeitadamente, rápido demais, o que só tornava seu desconforto mais evidente.
Enquanto as palavras saíam de sua boca, Ansel podia sentir uma camada de suor frio se formando em sua testa. Seria tão óbvio assim? Talvez nem ele mesmo tivesse se dado conta da maneira como olhava para Emmett, mas agora que pensava a respeito, o simples fato de Ronan ter notado fazia com que tudo se tornasse mais real.
Ronan levantou uma sobrancelha, sua expressão permanecia ilegível, mas havia um brilho quase zombeteiro em seus olhos.
— Tem certeza? — perguntou em um tom sugestivo, que deixava claro que não acreditava em uma única palavra.
Ansel desviou o olhar, sua garganta seca e sua mente a mil por hora. Ronan esboçou um sorriso quase imperceptível.
— Não vou contar para ninguém até que você queira — acrescentou, sua voz calma, mas firme.
Ansel forçou um sorriso, aliviado de certa forma pela discrição do amigo, embora ainda estivesse nervoso.
— Como você percebeu? — perguntou, sem ânimo para continuar escondendo o que agora era evidente. Ajeitou a alça da mochila no ombro, enquanto continuavam caminhando.
— Não faz muito tempo, mas tive certeza na praia — respondeu Ronan calmamente. — Alex esqueceu uma coisa e me pediu para ir buscar. Eu vi vocês dois, mas não dei importância, até que cheguei lá e vi... vocês se beijando.
O rosto de Ansel ficou vermelho de vergonha, sentindo um constrangimento que o oprimia por completo. Abaixou a cabeça, escondendo a expressão atrás do cabelo.
— Que vergonha... — murmurou para si mesmo, embora Ronan o tenha ouvido claramente.
— Vergonha? — repetiu Ronan. — É isso que os casais fazem, você não deveria ter vergonha.
A palavra "casal" ecoou na mente de Ansel, deixando-o com uma mistura de amargura e tristeza. Eles não eram um casal. O que havia entre ele e Emmett não tinha nome nem definição, e essa incerteza pesava sobre seu coração. Ele apertou os lábios e olhou para Ronan com um sorriso forçado.
— Sabe de uma coisa? Eu gosto mais de você quando você não fala — disse sarcasticamente, embora suas palavras carregassem uma verdade dolorosa.
Ronan olhou para ele surpreso, sem entender totalmente o que havia dito de errado, mas preferiu não perguntar. Não queria se arriscar a piorar as coisas.
— É... bem, esta é a minha sala. Te vejo depois — despediu-se rapidamente, entrando na sala enquanto Ansel seguia seu caminho, sozinho e com os pensamentos a mil.
Chegou à porta da sala de aula designada, suspirando profundamente enquanto segurava a maçaneta. Estava prestes a abri-la quando alguém a empurrou por dentro, batendo em seu nariz com força.
— Ai! — reclamou, levando as mãos ao nariz dolorido enquanto dava um passo para trás.
— Ah, me desculpa, me desculpa! — uma voz familiar preencheu o ar e Ansel ergueu os olhos, encontrando o rosto de Evan, agora com uma expressão preocupada.
"Isso só pode ser brincadeira", pensou Ansel.
— Evan? — perguntou, embora já o estivesse vendo com seus próprios olhos.
Evan o abraçou com força antes que Ansel pudesse reagir, ignorando completamente seu desconforto com o contato. Finalmente, quando Evan o soltou, Ansel se afastou ligeiramente, tentando se recompor.
— Ansel, que bom te ver! — disse ele, sorrindo com uma felicidade palpável.
— Eu adoraria que nossos encontros nem sempre começassem tão mal — disse Ansel com um sorriso sarcástico.
— Me desculpe — murmurou Evan, abaixando a cabeça como se esperasse uma repreensão. Embora fosse mais alto que Ansel, naquele momento parecia um garotinho vulnerável. Algo naquela atitude desarmou a irritação de Ansel, que não conseguiu evitar sorrir com uma ternura inesperada.
— Tudo bem, pelo menos não estou sangrando — brincou Ansel, ajeitando a mochila em um ombro enquanto tocava o nariz suavemente. A dor começava a desaparecer e a única coisa que restava era um leve incômodo. Seu olhar se suavizou ao ver o arrependimento nos olhos de Evan, que ele achou quase comovente. — Você estuda aqui?
— Sim, esta é a minha faculdade. Estou no terceiro ano — respondeu Evan, acenando com a cabeça com um pequeno sorriso. Sua expressão relaxada convidava a uma conversa mais amigável.
— Nossa, temos mais coisas em comum do que eu pensava — disse Ansel sem pensar, surpreso com a leveza de suas próprias palavras.
— Um coração partido e um cérebro incrível? — brincou Evan com um brilho divertido nos olhos. — Embora, para ser honesto, eu me contentaria apenas com o cérebro incrível. Leo sempre dizia que amava minha inteligência. Ele costumava encostar a cabeça na minha como se pudesse absorver minhas ideias brilhantes.
O riso de Evan se dissipou lentamente ao mencionar seu ex-namorado, e Ansel sentiu uma pontada inesperada no peito. Não era comum sentir inveja de relacionamentos alheios, mas de alguma forma, ao ver como os olhos de Evan brilhavam ao falar de Leo, Ansel não pôde deixar de desejar ser aquela pessoa de quem alguém como Emmett se lembraria com tanto carinho. Embora Evan e Leo não estivessem mais juntos, o simples nome ainda iluminava seu rosto.
— Ele foi embora? — perguntou Ansel em voz baixa, aproximando-se um pouco mais, como se não quisesse quebrar aquele momento frágil.
O sorriso de Evan desapareceu imediatamente, e em seu lugar surgiu uma tristeza profunda que transformou sua expressão. O brilho em seus olhos se apagou e, com ele, a energia que o havia mantido animado até aquele momento.
— Sim... — murmurou Evan, com os olhos fixos no chão. — Na semana passada. O pior de tudo é que ele nem me deixou me despedir. Fiquei sabendo pela mãe dele, que me mandou uma foto dele na fila de embarque do aeroporto.
Evan piscou rapidamente, tentando conter as lágrimas. Seus olhos estavam marejados e Ansel sentiu um nó na garganta. Ele não deveria ter tocado no assunto, ele sabia disso. Mas, ao mesmo tempo, ele entendia perfeitamente aquela dor. Embora não fosse a mesma coisa, ambos compartilhavam a sensação de não serem correspondidos, de não poderem estar com a pessoa que amavam.
— Sinto muito, não deveria ter mencionado isso... — disse Ansel sinceramente, procurando uma maneira de amenizar a situação. — Que tal se eu te pagar um café no intervalo? Poderíamos conversar um pouco mais.
Evan assentiu, enxugando os olhos rapidamente com as costas da mão. Tentou sorrir, embora a tristeza ainda estivesse presente em seu olhar.
— Parece bom. Te vejo em algumas horas — respondeu com a voz um pouco embargada, mas grato pelo gesto de Ansel.
— Até mais tarde — respondeu Ansel.
Evan se virou e se afastou pelo corredor, seus passos ecoando suavemente enquanto desaparecia na multidão de estudantes. Ansel o observou por um momento, pensando em como aquela conversa havia sido inesperada e em como, em tão pouco tempo, havia descoberto uma vulnerabilidade em Evan que jamais teria imaginado.
Com um suspiro, entrou na sala de aula e sentou-se na primeira fila. Embora não esperasse encontrar Evan naquele dia, admitia que tinha sido um encontro agradável. Talvez, afinal de contas, ter alguém com quem compartilhar algumas de suas emoções seria mais útil do que havia previsto.
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Atualizado até capítulo 44
Comments
Expedita Oliveira
Isso é sinal de uma amizade verdadeira, sem mentiras e sem falsidades. ❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️👏👏👏👏👏👏👏👏🌹🌹🌹🌹🌹🌹🌹
2024-12-30
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