Capítulo 2

— Mamãe, vou à casa do Emmett à tarde, depois da escola. Eles nos deram um projeto em dupla e vamos fazer lá — informou Ansel, enquanto ajudava sua mãe a arrumar os pratos e talheres de forma adequada. Olhava de soslaio para a mulher que terminava de preparar o jantar, torcendo internamente para que sua mentira não fosse descoberta.

— Tudo bem, filho.

Ansel às vezes detestava como era fácil para sua mãe acreditar nele, mas naquele momento, ele estava agradecido. Emmett era filho único e seus pais chegavam tarde em casa, então seria melhor realizar a prática de beijos na casa dele para evitar serem descobertos por alguém.

Na segunda-feira à tarde, os dois saíram da escola e caminharam quinze minutos até a casa de Emmett. Eram vizinhos, moravam um em frente ao outro, e seus pais eram melhores amigos há anos. A relação entre eles era muito boa, mas Ansel temia que seus sentimentos fossem revelados e arruinassem uma amizade de tantos anos.

Além disso, como os pais de Emmett reagiriam se soubessem o que os dois estavam fazendo? Com certeza se sentiriam decepcionados. Emmett era quem deveria dar-lhes netos e uma nora linda; ele, por outro lado, não estava tão pressionado e certamente seus pais o aceitariam. Afinal, ele conhecia uma tia lésbica e toda a família a apoiava. Por outro lado, os avós de Emmett eram muito tradicionais, e nas poucas vezes que os tinha visto, sempre falavam dos futuros bisnetos.

No fim, mesmo que Emmett pudesse aceitar seus sentimentos, sua família o rejeitaria, e Ansel não queria causar problemas com eles.

— Chegamos — anunciou Emmett, tirando-o de seus pensamentos. Ansel olhou para a casa, idêntica à sua, mas suas pernas tremiam sabendo o que o aguardava naquele momento.

Os dois entraram e, como todos os dias, a casa estava completamente silenciosa, exceto pelo miado de um gato persa. Nia saiu caminhando elegante e se esfregou nas pernas de Ansel.

— Oh, linda, como você está? — Ansel se agachou e a pegou nos braços. Nia era uma gata muito carinhosa e ele sempre havia desfrutado da sua companhia.

— Gata ingrata, sou eu quem te alimenta e limpa sua caixa de areia, por que o cumprimenta primeiro? — resmungou Emmett, fingindo estar irritado. Ansel sorriu e balançou a cabeça.

— Vamos, Nia, cumprimente também o seu pai — Ansel aproximou a gata de Emmett, e ela esfregou a cabeça na mão dele. Depois, a colocou no chão e a viu ir embora, com a mesma elegância com que chegou.

— Tsk, cada dia mais mimada — Emmett tirou a mochila e a entregou a Ansel. — An, vou verificar a comida e a caixa de areia dela. Sobe, e eu trarei uns sanduíches e sucos.

— Combinado.

Ansel subiu. Cada degrau que pisava o fazia duvidar e querer fugir dali. Por outro lado, a realização do desejo de beijar seu amigo o impulsionava a subir cada degrau. Ainda que para Emmett não significasse nada, ele dava toda a importância que merecia.

Entrou no quarto, conhecido e ao mesmo tempo estranho. Deixou a mochila de Emmett sobre um sofá, e a sua também. Tirou os livros que usariam para fazer o dever de casa primeiro e os colocou sobre a mesa de estudos.

— Não! — o grito de Emmett o fez soltar o caderno de química que mal havia começado a revisar. — Guarda tudo, não quero saber nada disso.

Ansel revirou os olhos. Ambos estavam na mesma série, mas enquanto ele gostava de números, Emmett os detestava.

— Temos que fazer.

Emmett negou com a cabeça e chasqueou a língua. Terminou de entrar no quarto e deixou os sanduíches e os sucos sobre a mesa de estudos.

— Tenho uma ideia melhor — comentou com malícia, aproximando-se e elevando o queixo de Ansel com seu dedo indicador. — Que tal se começarmos a praticar?

— Não — Ansel deu dois passos para trás. A proximidade de Emmett o deixava extremamente nervoso. — Primeiro vamos fazer os deveres, ou eu não te ajudarei.

Emmett ergueu uma sobrancelha de maneira interrogativa, no entanto, logo cedeu diante do olhar sério de seu amigo. Ele o conhecia perfeitamente e sabia que Ansel não iria ceder, então suspirou e buscou seus materiais.

Ansel, apesar de inicialmente estar nervoso, assim que se mergulhou nos deveres, tudo se esqueceu. Ajudou Emmett a terminar seu trabalho uma vez que ele havia terminado o seu. Ansel amava esses momentos em que podia desfrutar da companhia de seu amigo sem restrições, por isso, preocupava-se que Emmett pudesse perceber o que sentia. Mas seu amigo era um perfeito idiota; claro que não descobriria sozinho.

— Finalmente! — exclamou Emmett, levantando os braços. — Aquela bruxa vai nos enlouquecer com tantos números e letras que se tornam números.

— Ah, vai, não é tão ruim.

— Diz isso porque você é um sabe-tudo. Mas para pessoas como eu, que mal conseguem dividir, isso é um inferno.

Ansel não podia refutar isso; ele era bom em quase tudo, mas mesmo praticando esportes, detestava-os. E ainda que preferisse não ir, assistia aos jogos de basquete, mas apenas para apoiar Emmett.

— Bom, deixemos isso de lado, é hora de praticar. — Ansel, que estava guardando suas coisas, ficou nervoso imediatamente.

— Combinado — deixou a mochila de lado e viu seu amigo se aproximar, aumentando seu nervosismo. — O que eu faço?

— Apenas me siga; tentarei fazer melhor.

— Certo, onde eu me sento?

— Vem — Emmett o pegou pela mão e o levou até a cama. Antes era muito comum que se dessem as mãos, como quando estavam aprendendo a caminhar, mas agora, devido à estranha relação em que se encontravam como amigos que se beijam, um simples toque fazia o coração de Ansel disparar. — Sou mais alto que você, então eu me sentarei na cama e você ficará no meio.

— Certo, certo.

— Coloque suas mãos ao redor do meu pescoço, e eu as colocarei na sua cintura. Suponho que ela fará o mesmo quando nos beijarmos. — Ansel assentiu, com um brilho de desapontamento nos olhos. Era claro que Emmett só o fazia para poder beijar a garota dos seus sonhos. Ele era uma ferramenta que seu amigo usava para poder ser "o melhor beijador" que ela já conheceu.

— Pronto, e agora? — Emmett o puxou para mais perto, e o nervosismo voltou a invadir o corpo de Ansel. As mãos de seu amigo estavam firmemente apoiadas em sua cintura, e ele podia sentir o calor das mãos alheias penetrar a fina camada da camisa. Emmett estava deixando-o louco.

— Vamos começar.

Emmett se aproximou dele, e Ansel abaixou um pouco o rosto. Suas mãos se agarraram com força atrás da cabeça de seu amigo, e seus dedos, por inércia, se enredaram nos sedosos cabelos negros.

O primeiro contato dos lábios foi tranquilo. Emmett apenas beijou um pouco esticando o lábio e soltando-o, para tomar completamente alguns segundos depois.

O contato era lento e seguia um ritmo específico. Moviam seus lábios, já não com a inocência e torpeza de um primeiro beijo. Agora Emmett já não o devorava com urgência, e isso o fazia tremer ainda mais. A delicadeza e calma com que seu amigo estava agindo o fazia sentir as sensações com maior intensidade. O calor da boca alheia e a saliva misturando-se faziam com que Ansel desejasse possuí-lo apenas para si.

Pensar que outra pessoa provaria esses lábios o enchia de raiva, mas ele não podia expressá-la, e mesmo que o fizesse, Emmett certamente o tomaria como uma piada ou se afastaria dele. Não queria perder nem mesmo sua amizade e tomaria aquela semana como a maior bênção de sua vida, como o sonho que sempre quis realizar, embora ao acordar se deparasse com a dura realidade.

— Ai! — queixou-se ao sentir uma mordida não tão leve em seu lábio. — Por que você mordeu?

— Não sei no que você pensa, mas tire da cabeça. Concentre-se em mim apenas. Quando nos beijamos, não quero que pense em ninguém nem em nada mais. Pense em mim, só em mim.

Depois de terminar de falar, tomou os lábios de Ansel de maneira exigente. Ansel, por sua vez, permitiu-se fundir no momento e nas palavras cheias de posse que seu amigo havia dito. Ele sabia que não deveria levar tão a sério, mas não pôde evitar. Tal como Emmett disse, deixou de se preocupar e pensar demais, dedicou-se a desfrutar das migalhas que estava recebendo.

Emmett aprofundou o beijo introduzindo sua língua na boca do amigo. Pequenos suspiros escapavam de seus lábios quando se separavam brevemente para respirar. A saliva se misturando fazia um ruído erótico que ecoava pelo quarto.

Emmett envolveu Ansel com seus braços e o prensou mais contra seu corpo. Começou a mover-se para trás, tentando deitar-se na cama e fazendo com que Ansel mudasse de posição. Ansel apoiou um dos seus joelhos na borda da cama e o outro ao lado da perna esquerda de Emmett. Suas mãos foram do pescoço aos ombros do amigo, deixando-se guiar até ficar por cima dele, colando seu peito ao do outro.

—Es...pera —murmurou Ansel, descolando seus lábios dos de Emmett—. Você... não... respira?

Emmett sorriu e deu-lhe um beijo rápido—. Sou nadador, An, tenho mais resistência que as pessoas comuns.

—Mas eu não —Ansel se levantou um pouco e deixou-se cair na cama, tentando controlar sua respiração e o rubor em suas bochechas—. Então me deixe respirar um pouco. —Emmett riu e suspirou levemente.

—E então? Como foi? —Emmett virou seu corpo e apoiou a cabeça na mão, aguardando a resposta de Ansel.

—Bom, embora você não me deixe respirar, acho que foi bom. Foi mais lento que da última vez. —Apesar dos nervos, conseguiu responder sem gaguejar.

—Certo, vou melhorar isso.

Emmett deitou-se com um sorriso enorme no rosto. Em breve realizaria seu sonho e deixaria uma marca muito difícil de apagar em Sheira. Talvez no futuro pudessem se reencontrar e começar algo mais sério.

Por outro lado, o olhar de Ansel entristeceu ao perceber seu amigo com aquele enorme sorriso, pois sabia que não era nele que pensava.

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Comments

Lunna Reis

Lunna Reis

aff

2025-02-07

0

Suellen Souza

Suellen Souza

oii

2025-01-16

0

Larissa Antônia De Morais

Larissa Antônia De Morais

que isso kakaka não sei não hein 😏

2025-01-04

1

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