Capítulo 20

Lembranças

— Mathias, como ela está? — A voz de Sebastian estava carregada de exaustão.

Mathias o observou por um momento, seus olhos avaliando cada detalhe da expressão de Sebastian antes de responder com um tom seco: — Vamos nos casar.

Sebastian ficou estático. Aquelas palavras se infiltraram em sua mente, cravando-se profundamente. Ele respirou fundo, tentando processar, antes de murmurar com uma calma quase forçada:

— Por que você nunca me responde? Faz mais de dez anos que não sei nada sobre ela, e tudo que sei sobre você é que é um bêbado, mal-humorado e ciumento.

Mathias apenas observou, o silêncio entre eles se estendendo, enquanto Sebastian tentava reunir a força para desejar os parabéns.  Era o que ele deveria dizer, mas a ansiedade corroía cada fibra do seu ser. E ele sentia que Mathias sabia exatamente o que estava provocando ao proferir aquelas palavras.

— Fizemos um trato de não tocar em assuntos que envolvem ela. — disse Mathias finalmente. — Mas mesmo assim, sempre que nos encontramos, a primeira coisa que você me pergunta é: Como ela está? Ela está feliz? Como está na empresa? Você a leva para piqueniques? Comprou o presente de aniversário dela? Pode dar os parabéns por mim? Vai trazê-la para a inauguração do novo restaurante?

Sebastian fechou os olhos por um instante, tentando conter a frustração que subia dentro dele.

— Fomos amigos a vida inteira, Mathias. Não posso simplesmente apagar ela da minha vida, como você parece desejar. Só quero saber se ela está bem… assim como quero saber se você está bem! Qual é o seu problema?

— Você é o meu problema, Sebastian. — A voz de Mathias agora tinha um tom mais sombrio, enquanto ele se jogava no sofá. — Ela não quer que você saiba nada sobre ela, e tudo o que você faz é perguntar. Já chega! Te disse que vamos nos casar, e você nem teve a decência de me dar os parabéns. Estava ansioso para convidá-lo para ser meu padrinho, mas aqui estamos, desviando completamente do assunto. Quer saber? Você vai vê-la no casamento. Inevitável, queira ela ou não. Pode perguntar diretamente a ela como está, se ela permitir.

Sebastian piscou, confuso. As palavras de Mathias pesavam como pedras em seu peito.

— Não entendo por que ela me odeia tanto… Eu…

— Ela não te odeia, Sebastian. Só não é mais aquela garota que você conheceu. Ela cresceu, não tem tempo para fantasias de príncipes encantados que ela mesma inventou. E aqui entre nós… você não é nem de longe um príncipe encantado. — Mathias soltou uma risada amarga. — Vi no jornal hoje, outra garota loira ao seu lado. Trocar de parceira a cada nova inauguração não soa bem nas manchetes. Você precisa sossegar, assim como eu. Não acha?

Sebastian abaixou a cabeça, um sorriso forçado tocando seus lábios.

— Vocês nasceram para estar juntos. E tiveram sorte… a chance de se apaixonarem um pelo outro. — Ele se sentou ao lado de Mathias e ofereceu uma cerveja. — Eu nunca me apaixonei por nenhuma dessas mulheres. E a ideia de passar a vida com alguém que não me faz sentir… nada…

— Você está certo. — Mathias ergueu a lata em um brinde. — Tive sorte, a sorte de ter sido vendido por meu pai e não vou desperdiçar. Talvez um dia você encontre o mesmo. Mas precisa deixar de lado essa ideia errada sobre o que acha que o amor é.

Sebastian observou Mathias tomar um gole longo, e de alguma forma, aquelas palavras penetraram fundo. Talvez, com o casamento, ele finalmente conseguisse se libertar. Durante todos esses anos, Sebastian aprendera a enterrar seus sentimentos, a ignorá-los a ponto de não saber mais o que era amar outra mulher. Nenhuma das mulheres com quem esteve sequer se aproximava de Elicy. Nenhuma tinha o cabelo preto, os lábios carnudos, os olhos azuis. Ele sabia que isso era deliberado, mesmo que nunca admitisse. Transar era apenas uma forma de manter o corpo parcialmente equilibrado. Ninguém jamais se deitava na mesma cama com ele duas vezes. “Eu te amo” era uma frase que ele nunca mais pronunciaria. Apaixonar-se? Isso parecia impossível.

Mathias sempre soube como desviar da conversa que jamais haviam tido. Ele sabia melhor do que ninguém como evitar que o nome de Elicy fosse mencionado. E Sebastian não sabia absolutamente nada sobre eles. Sobre a vida que ela construíra. Nos jornais, Elicy estava sempre ao lado direito do pai, com Mathias à sua esquerda. O sorriso dela, sempre em destaque. Mas Sebastian sabia. Ele reconhecia aquele sorriso falso, algo que ninguém mais parecia notar. Talvez fosse apenas a memória dele, ou talvez estivesse preso à lembrança do sorriso genuíno que um dia conhecera.

— Que tipo de presente devo dar a vocês? — perguntou Sebastian, tentando quebrar o silêncio. — Eu já não a conheço o suficiente para saber o que dar…

— Falando nisso… — Mathias se levantou, pegando o celular que tocava. — Vou ter que passar a noite no hotel? — Ele apontou o telefone para o de Sebastian, rindo.

— Não trago ninguém para cá. Ele respondeu após desligar a chamada da garota loira. — Esse lugar é sagrado. Nem minha mãe ousa bagunçar minhas coisas além de você.

Sebastian chutou os pés de Mathias da mesa de centro, uma risada amarga escapando.

— Alguém precisa fazer a sua empregada sentir que está limpando um lugar onde mora alguém vivo. — Mathias riu antes de pegar sua lata vazia e jogar no lixo. — Tenho que ir. Meu pai está furioso com algo, e vai me matar se eu não aparecer na hora.

Depois que Mathias saiu, o silêncio preencheu o apartamento. Sebastian afundou no sofá, virando o último gole da cerveja antes de jogá-la com força contra a parede. A dor era insuportável. Ele se levantou, indo até o quarto. Puxou uma velha caixa empoeirada de cima do guarda-roupa. Ficou ali, olhando para ela por um longo tempo antes de abrir.

Dentro, havia uma foto. Ele a pegou, observando os rostos sorridentes do passado antes de colocá-la de lado. No fundo da caixa, uma aliança de metal retorcido que imitava galhos. O anel de Elicy. Ele passou anos usando como pingente, só o retirando quando soube que ela não seria mais dele e isso não fazia mais que um ano. Mas por que ainda guardava aquelas coisas?

Não importava o tempo, ele nunca conseguira se livrar de nada que a lembrasse. As páginas arrancadas de livros, dobradas ao meio, ainda estavam lá. E cada vez que se lembrava de Elicy entregando-lhe aquelas páginas com frases grifadas, ele ria. Mesmo após aprender a escrever, ela continuava a esconder pedaços de livros com trechos sublinhados em sua mochila e casacos.

Agora, tudo isso não passava de lembranças… dolorosa.

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