— Elicy?
— Sebastian!? Elicy se remexeu na cadeira, ainda processando o som de seu próprio nome pronunciado por aquela voz. — O que você está fazendo aqui? — Ela perguntou, esforçando-se para manter a voz estável.
— Vim trazer a documentação que faltava para o meu bistrô e assinar o contrato de aluguel que Mathias não levou para mim como o combinado. E como é hora do almoço, pensei em te convidar, já que você talvez não conheça mais os melhores lugares para isso. Mas, se você já tiver compromisso, eu...
— Eu não tenho! — Ela respondeu automaticamente, sem pensar direito. Piscou, surpresa com sua própria reação.
— Bom, então vou te levar a um lugar que vai te fazer me perdoar por ter saído sem me despedir da última vez.
Elicy voltou a si ao se lembrar daquele encontro.
— E então, podemos ir? — ele a tirou de seu devaneio.
— Ah, sim. Podemos! — murmurou ela, baixinho. Forçou-se a sair da cadeira sem demonstrar sua ansiedade, mas ao se atrapalhar, fez Sebastian desconfiar.
— E Mathias? Quer que eu o convide também? Sei que ele é um pouco ciumento, então não quero ser um problema para você. Ele limpou a garganta ao perceber o desconforto dela diante de sua presença. Frustrado, fez a pergunta.
— Ah, não! — respondeu ela, rapidamente com a voz alterada. Ele havia interpretado sua reação de maneira errada, mas era justificável, já que não sabia nada sobre ela.
— Hum, isso foi inesperado. Ele pensou alto.
— Ah! É que ele está em uma reunião agora em uma das filiais, e acabou de me ligar dizendo que só chegaria para o almoço depois das 14:00. Elicy deu a desculpa.
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Sebastian abriu a porta do carro e estendeu a mão para ajudá-la a descer. Desta vez, ele dirigia um carro do ano, um modelo exclusivo. Para a surpresa de Elicy, o veículo não era tão extravagante quanto as descrições que Mathias costumava fazer em suas breves conversas sobre ele.
Quando Elicy saiu do internato e foi para a faculdade, ela fez questão de marcar um encontro com Mathias e Sebastian, a quem não via desde os doze anos. Na época, não foi difícil, pois o pai dela tinha contato direto com o pai de Mathias. Aproveitando que haveria um encontro entre os dois, ela pediu a Mathias o contato de Sebastian.
O encontro havia sido marcado no campus da faculdade para sábado ao meio-dia. Era o tempo necessário para Sebastian chegar, almoçar com Elicy e retornar para casa.
Naquele dia, Mathias chegou primeiro, algo incomum para ela, mas compreensível agora que não eram mais crianças e mudanças podiam ocorrer. E sua suspeita se confirmou quando Sebastian não apareceu.
Naquela manhã, Mathias trouxe para Elicy uma pulseira com um pingente de estrela, que combinava perfeitamente com o colar que Sebastian havia lhe dado em seu aniversário. Ele explicou que os dois escolheram os presentes juntos, mas, devido a um incidente, ele não teve a chance de entregá-los antes de Elicy ser enviada ao internato. Quando finalmente teve notícias dela, ela já estava a caminho de sua nova vida.
Antes que Elicy pudesse reagir ou responder, Mathias se inclinou inesperadamente e a beijou. O toque de seus lábios foi suave, mas a intenção por trás do gesto era clara. O beijo foi breve, mas o impacto reverberou em Elicy como um choque. Ela não esperava aquilo, e seu coração se partiu um pouco mais.
Mathias se afastou ligeiramente, observando a expressão dela. Elicy estava confusa, e a decepção pela ausência de Sebastian se misturou à surpresa e ao desconforto com o beijo. Ela tinha esperado tanto por aquele dia, imaginando como seria rever Sebastian depois de tantos anos, e agora tudo parecia desmoronar ao seu redor.
Vendo a reação dela, Mathias pediu desculpas pelo beijo inesperado, explicando que, desde o incidente, ele percebeu que também a amava. Elicy ficou paralisada, ouvindo Mathias despejar seus sentimentos com uma intensidade que ela não esperava. Ela já sabia sobre o contrato de casamento, e após anos havia aceitado essa realidade. Mas o que ela nunca imaginou era que, um dia, poderia ter a chance de se casar por amor. No fundo, ela também o amava; ele era seu melhor amigo, e isso tornava a ideia de seu futuro um pouco mais fácil de aceitar.
Mas naquele momento, ela o amava como um amigo, porque seu coração havia sido entregue a Sebastian no dia em que se casaram debaixo da árvore do parque de Nova Aurora. Podia ter sido um casamento falso entre duas crianças, mas desde a primeira vez que viu Sebastian ela o amou. Ele era um observador, tinha os olhos pequenos, mas os seus traços eram de um garoto que um dia ficaria tão alto quanto aos personagens descritos pelos livros de romances históricos preferidos de Sonia.
Aos cinco anos, Elicy conheceu seu melhor amigo e, em sua imaginação infantil, seu futuro marido. Esse era o plano que ela havia traçado desde então. Aos domingos, ela levava a sério a ideia de fazer Sebastian se casar com ela. No final do dia, os três acabavam se metendo em encrenca por alguma invenção dela, geralmente envolvendo uma tentativa de saquear a igreja em busca do livro de juramentos sagrados.
Quando o bispo da igreja se cansou de tentar impedi-la, ele decidiu criar um pequeno livro falso que imitava o verdadeiro. Ele deixou o livro falso exposto, permitindo que Elicy finalmente completasse seu plano e realizasse o seu sonho infantil.
Naquele mesmo dia, ela obrigou Mathias fazer o primeiro juramento. Ele seria seus olhos de trás e sua mão direita, ele contaria tudo que ela não soubesse, faria tudo que ela mandasse sem a questionar ou duvidar de suas ações e seria seu espião mais leal. Apesar de Elicy ter apenas cinco anos ela havia aprendido a ler muito nova graças a sua babá Sônia. As duas passavam parte da manhã e parte da noite lendo livros clássicos de romance épico. E isso a deixava completamente obcecada em viver algo parecido.
Depois de transformar Mathias em sua mão direita, Elicy o obrigou a realizar a cerimônia de casamento entre ela e Sebastian. Os três aproveitaram as flores brancas espalhadas ao redor da árvore, que estava imersa na alegria da primavera, e criaram um curto caminho para que Elicy pudesse desfilar de braços dados com Sebastian.
Elicy já havia decorado o plano, o juramento e todos os detalhes da cerimônia. Quando Sebastian leu o juramento que ela mesma havia escrito, ele, impulsivamente, deu-lhe um beijinho na testa. Tanto Mathias quanto Elicy ficaram surpresos com aquele gesto. Desde então, suas brincadeiras giravam em torno dos elaborados planos que Elicy criava.
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— Elicy querida! Você continua tão linda, não mudou nada. — Elicy foi surpreendida pela voz calma de Helena. Ela estava vestida com o uniforme do restaurante e usava o chapéu que indicava que era a chefe. Sua aparência, agora marcada pela idade, contrastava com a lembrança que Elicy tinha dela.
— Mamãe! — Sebastian a beijou no rosto com carinho. — Tem alguma mesa livre para receber seu filho e sua amiga de infância?
— Você sempre tem um lugar, meu amor! — Helena acariciou o rosto dele. — E você também, minha querida. — Ela acenou com a cabeça, indicando que eles a seguissem.
O restaurante era tão luxuoso que deixou Elicy de boca aberta. Não estava lotado, mas havia pessoas do alto escalão, como se fosse o lugar mais seguro e apropriado para tal patamar.
— Posso sugerir o que pedir? — Helena perguntou.
— Eu adoraria qualquer comida feita por você. — Elicy se lembrou das refeições servidas pela família de Helena nos eventos aos domingos.
— Você me deixava louca naquela época. Não podia faltar as trufas de chocolate. Você dava o maior chilique. — Helena sorriu ao lembrar e se retirou em direção à cozinha, ainda rindo da memória.
Elicy cobriu o rosto, envergonhada, mas um sorriso constrangido surgiu em seus lábios.
— Naquela época, você obrigava todo mundo a fazer o que queria! — Mathias riu, lembrando-se das travessuras de Elicy. — Era cruel com a gente sempre que tentávamos fazer algo que não estava nos seus planos.
Sebastian, observando a cena, sorriu para Elicy, compartilhando silenciosamente o carinho por aquelas lembranças.
— Se você ainda for assim, imagino que todos na sua empresa devem temê-la. Mathias também deve se manter na linha, tendo ao lado alguém tão autoritária. — brincou Sebastian, tentando aliviar o clima.
Mas Elicy estremeceu ao ouvir o nome de Mathias. Sempre que ele era mencionado, suas preocupações e suspeitas voltavam à tona. Ela não conseguia evitar. Respirou fundo, tentando manter a compostura antes de falar.
— Sebastian, desculpe mudar de assunto e falar sobre outra pessoa além de você neste almoço, mas gostaria de saber algumas coisas sobre Mathias. Quero dizer... sobre o tempo que ele passa aqui. Sei que ele se hospeda em sua casa, e isso é a única coisa que sei. — Elicy cruzou os braços, a frustração evidente em seu rosto, sem conseguir esconder a inquietação que a consumia.
— Elicy, o Mathias não se hospeda mais em minha casa desde que vocês começaram a morar juntos. Nós tínhamos um trato de não falar sobre você enquanto estivéssemos na companhia um do outro, e essa era uma regra que ele criou para manter nossa amizade saudável. Tudo o que sei sobre ele no último ano está relacionado aos negócios. Tenho duas filiais que são responsabilidade dele, instaladas em salas que pertencem à sua empresa.
— Pelo jeito, Mathias é bom em manter sigilo para nós dois. — Elicy murmurou, desapontada, sentindo o peso das palavras. — E quanto aos seus outros restaurantes? Soube por ele que você tem muitos, espalhados por todo o estado. E aproveitando o assunto, fico muito feliz por você ter conseguido realizar tanto.
Sebastian sorriu, reconhecendo a tentativa de interesse da parte dela. — Sim, as coisas estão indo bem. Tenho trabalhado duro, e felizmente, os negócios têm prosperado. Não foi fácil, mas ver os restaurantes crescendo me dá um orgulho imenso. É uma satisfação saber que, apesar de tudo, consegui construir algo sólido. — Mas sobre os outros restaurantes, eles são administrados pela contabilidade do senhor Louis Whrit. Ele tem apoiado minha mãe desde que perdemos meu pai, então achei justo continuar com ele. — Sebastian explicou, seu tom de voz demonstrando respeito e gratidão.
Elicy sentiu um calor reconfortante ao ouvir parte daquilo. — É bom saber que você tem pessoas de confiança ao seu lado, especialmente alguém que esteve presente em momentos tão difíceis. — Ela vacilou no tom da própria voz.
— Elicy, está acontecendo algo que eu talvez precise saber? — Sebastian se inclinou para frente, a preocupação evidente em seus olhos enquanto a observava. — Se estiver passando por alguma coisa, saiba que ainda sou seu amigo.
Elicy sentiu um nó se formar na garganta. A preocupação genuína de Sebastian a tocou profundamente, mas ela hesitou, sem saber se deveria compartilhar o que estava pesando em sua mente. Apesar dos anos, ele não havia mudado em nada; Elicy notou isso ao olhar para seus olhos pequenos, que ainda carregavam as mesmas expressões familiares que ela conhecia tão bem. Era como se o tempo não tivesse passado para ele, e cada gesto, cada olhar, a fazia lembrar dos dias em que tudo parecia mais simples.
— Desculpe! Viemos almoçar e não falar de negócios. — Elicy disse, afastando os problemas da mente, determinada a aproveitar o momento. Mas antes que pudesse continuar, seu telefone tocou, interrompendo a conversa. Era Mathias, informando que ela poderia ir para casa e que só seria solicitada novamente na manhã seguinte.
Quando ela desligou, Sebastian, notando a oportunidade, sugeriu com um sorriso: — Já que está com a agenda livre para hoje, que tal um tour pela nossa pequena cidade?
Antes que Elicy pudesse responder, Helena se aproximou com uma bandeja, servindo um tipo de trufa gourmet.
— Isso é o que estou pensando? — Elicy perguntou, seu sorriso se alargando enquanto olhava para Helena, animada com a surpresa.
Elicy fechou os olhos, deixando o chocolate derreter na boca. O sabor era exatamente como ela se lembrava, e isso a fez entender por que dava chiliques por aquele doce.
— Meus chiliques tinham razão! — Ela disse, sorrindo para Helena. — Eu os faria novamente se um dia voltar aqui e me for negado.
Helena gargalhou, o som alegre ecoando pelo restaurante e chamando a atenção de todos.
— Vou me lembrar disso sempre que voltar. — Helena respondeu, ainda rindo, antes de abraçar Elicy em despedida, com o carinho de quem nunca a havia esquecido.
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Atualizado até capítulo 33
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