— Vamos, Elicy. Já faz duas semanas que estamos aqui. Preciso que me conte sobre o dia 23 de maio.
— Meu pai teve um infarto.
— E o que mais se lembra daquela semana? — A enfermeira anotava enquanto falava.
— Eu… não sei. Me lembro de estar em uma reunião… depois, em um velório.
— De quem era o velório? — insistiu a enfermeira.
Elicy se forçou a lembrar, e a dor a perfurou como agulhas fincadas em sua mente. Fragmentos surgiram em um borrão de imagens: sua mãe vagando pela casa, perdida, os empregados se atropelando, andando de um lado para o outro, como sombras ansiosas.
— Elicy… Elicy! — A enfermeira levantou-se apressada e correu até a cama, checando os sinais vitais dela. — Elicy, consegue me ouvir?
(…)
Sebastian estava de pé, estático, do lado de fora da sala de cirurgia. O silêncio do corredor parecia insuportável, quebrado apenas pelo som distante de passos apressados de enfermeiros e médicos que passavam por ele. As mãos, antes firmes ao lado de Elicy, agora tremiam involuntariamente. Ele sentia o desespero crescer dentro de si como uma onda que ameaçava engoli-lo. Por mais que tentasse manter o controle, a sensação de impotência o corroía. Tudo que ele podia fazer era esperar.
Esperar e lembrar.
O rosto de Elicy, pálido e convulsionando, ainda estava vívido em sua mente. O olhar dela, perdido entre a dor física e a tormenta emocional, o havia destruído. E, naquele momento, ele sabia, de uma forma dolorosamente clara, que falhara mais uma vez. Falhara em protegê-la.
— Preciso de um tempo… — murmurou para si, recuando para uma das cadeiras do corredor, a cabeça entre as mãos, tentando afastar as lembranças que surgiam sem permissão.
Mas a mente dele não lhe dava descanso. As palavras de Elicy, as memórias confusas que ela compartilhou, o nome de Mathias envolto em sangue… Tudo voltava como um quebra-cabeça cruel, cujas peças ele ainda não conseguia encaixar.
Enquanto isso, na sala de cirurgia, a vida de Elicy pendia em um fio tênue entre a escuridão e a luz. Em seu estado inconsciente, as memórias a atormentavam, fragmentadas e dolorosas. Cada nova lembrança trazia consigo uma onda de dor que a fazia lutar contra si mesma.
Em um momento, ela estava em sua infância, brincando nos jardins da casa de sua família, livre de preocupações, com Sebastian correndo atrás dela, rindo. No momento seguinte, estava na adolescência, trancada em um quarto escuro, tentando sufocar as lágrimas enquanto ouvia os gritos abafados de uma discussão entre seus pais no andar de baixo.
E então, a imagem mais aterradora voltou à tona: Sebastian, com os olhos cheios de fúria, o corpo de Mathias caído a seus pés, banhado em sangue. O choque foi como um punho invisível, golpeando-a sem misericórdia. Mathias estava morto. E, de alguma forma, Sebastian estava envolvido. A dor do passado, a perda, a violência—tudo se entrelaçava em sua mente, sufocando qualquer tentativa de respirar livremente.
Mas, no meio daquela tempestade de dor, ela voltou a sentir o toque de Sebastian. Ele estava lá, ainda segurando sua mão, mesmo que apenas em suas memórias. Ele a puxava, com força, com urgência, como se quisesse arrancá-la das profundezas daquela escuridão.
“Eu prometo ser sua força bruta, e você será meu coração.”
As palavras ecoavam como um mantra, ressoando profundamente dentro dela. Mesmo envolta em sombras, algo se acendia dentro de Elicy. A esperança, um sentimento que ela há muito esquecera, começava a brilhar, fraca, mas presente.
Ela queria viver.
Ela precisava lutar.
Sebastian estava parado perto da janela do hospital, olhando para fora, tentando encontrar algum consolo no movimento caótico da cidade. Seus pensamentos, porém, voltavam sempre para ela. Ele se lembrava de como tudo havia começado entre eles, de como era fácil estar com Elicy, mesmo nas circunstâncias mais complicadas.
Eles compartilhavam mais do que apenas um laço de amizade ou de amor juvenil. Havia uma conexão tão profunda que, mesmo depois de tantos anos, mesmo depois de tantos erros, ela ainda o prendia. E agora, ali estava ele, esperando novamente. Esperando que Elicy voltasse para ele.
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Atualizado até capítulo 33
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