O Segredo do Envelope
Elicy não conseguia dormir. O silêncio da noite só tornava mais claro o quanto Sebastian havia mudado. Com um suspiro, ela calçou as pantufas e dirigiu-se ao antigo escritório de seu falecido pai. Ficou parada na porta por alguns minutos, hesitante, antes de finalmente entrar.
O cômodo parecia congelado no tempo. Livros na estante, a escrivaninha organizada como sempre... Até os cadernos de contatos estavam intactos, exatamente como seu pai os deixara. Elicy caminhou até a mesa e, em silêncio, sentou-se na cadeira de couro desgastada. Se tudo estava no lugar, as chaves das gavetas também estariam.
Com dedos trêmulos, ela levantou os cadernos e encontrou a chave escondida embaixo deles. Era tão óbvio, mas nunca havia se permitido procurar. Ela estudou a chave por um instante antes de abrir a primeira gaveta. Dentro, um único envelope amarelecido a aguardava.
Com o coração acelerado, Elicy rasgou a borda e retirou os papéis, suas mãos vacilantes. Lágrimas encheram seus olhos à medida que ela lia o documento: uma quebra de contrato, assinada. Seu pai, tão cruel em vida, havia planejado sua liberdade antes de morrer. Bastava entregar o documento ao juiz, e ela estaria livre das amarras do testamento.
— Senhorita Elicy? — A voz suave de Sonia interrompeu seus pensamentos.
Alguém havia deixado outro envelope por debaixo da porta. Elicy enxugou rapidamente as lágrimas e estendeu a mão.
— Este envelope... seu pai aguardava antes de morrer. Ele disse que deveria ser entregue somente a você ou à sua mãe. — O tom grave de Sonia fez o coração de Elicy apertar.
— Como sabe disso? — Elicy perguntou, intrigada, enquanto olhava para o envelope.
— Seu pai não recebia correspondências aqui há anos. Desde que Heimond Norghot assumiu os negócios, tudo era encaminhado diretamente para ele. — Sonia hesitou, o rosto marcado por lembranças difíceis. — Heimond fazia o pagamento de todos nós, desde que seu pai assinou um acordo... Foi um choque para todos.
— Espera! Você está dizendo que quem faz o seu pagamento é Heimond? Pessoalmente?
— Sim, senhora. Antes de fechar esse acordo, Heimond era um dos banqueiros do Banco Central de Nova Aurora e também atuava como contador de pequenas empresas.
— Sônia, como você sabe de tudo isso? — Elicy perguntou, curiosa.
— Bem, senhorita, nem sempre trabalhei como babá. Eu já tive minha própria perfumaria, e o pai de Heimond, o senhor Norman, era quem fazia minha contabilidade. Após a morte dele, o filho Heimond assumiu. Gradualmente, perdi o controle dos lucros, as despesas aumentaram e a necessidade de reajustar o valor dos produtos fez com que eu perdesse tudo. Se não fosse você e sua família, minha querida, provavelmente eu estaria do lado de uma realidade que desconheço.
Elicy, de repente, começou a juntar os pontos. Heimond sempre estivera mais envolvido do que ela imaginara, manipulando as finanças da família. Mas por quê? E o que mais havia por trás daquele acordo?
— Sonia, muito obrigada por me contar. — Ela pegou o envelope, o encarando como se fosse a chave de todo o mistério.
— Uma última coisa, senhorita!— Um dia antes de seu pai sofrer o infarto, ele teve uma reunião com cinco homens além de seu advogado Benedith e do contador Louis Whrit. Heimond chegou depois, furioso. Eles brigaram e, logo depois, seu pai começou a se queixar de dores no peito... Antes de ser levado para o hospital, ele me falou sobre o envelope que estava esperando e me pediu para alertá-la sobre eles.
Elicy se levantou de um salto. — Sônia, você sabe sobre o que era a reunião? E por que o contador Louis Whrit estava no lugar de Heimond?
Sonia apenas sacudiu a cabeça negando!
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Nos dias que seguiram, Elicy agendou uma reunião crucial para a próxima semana, dando-lhe sete dias para reunir todas as provas. Mathias, como sempre, a seguia como uma sombra, agindo como se fossem um casal perfeito. Ela, no entanto, sabia que não podia confiar nele, pelo menos não por completo.
“Talvez ele não saiba de tudo o que o pai faz. Talvez seja apenas mais uma das marionetes,” pensava Elicy enquanto atravessava o corredor com Mathias a seguindo.
— Elicy, marquei um jantar para nós no melhor restaurante da cidade. — Mathias anunciou casualmente, segurando seu braço com delicadeza.
— Estou ocupada, Mathias. Tenho muito a preparar para a reunião da próxima semana. — Ela tentou afastar-se, mas ele não desistiu.
Os funcionários que passavam pelo corredor lançavam olhares furtivos, como se admirassem o casal. Mathias aproveitou o momento e a beijou suavemente, um gesto que já era previsível.
Mesmo com tudo o que sabia, o toque de Mathias ainda a fazia estremecer. Ele sempre soubera como a desarmar, conhecia cada detalhe do que a agradava, e isso a enfraquecia. Morar com ele por um ano havia sido uma montanha-russa de emoções, mas os altos e baixos, os beijos e os segredos, criaram um vínculo que, mesmo tóxico, era difícil de quebrar.
Naquele momento de dificuldade, o que mais desejava era poder contar com Mathias como seu apoio, como sempre havia feito ao longo dos anos. Mathias, quando estava fora do radar de seu pai, era calmo, controlado, atencioso e até engraçado. Morar com ele por um ano lhe permitiu entender os sumiços esporádicos e seus motivos, que sempre envolviam o pai Heimond. A pressão e a cobrança entre pai e filho eram intensas e descontroladas.
E a maneira que ele lidava com aquilo era justificável, até ela o encontrar em uma de suas reuniões com alguns dos investidores, completamente bêbado em um quarto de reunião com garotas de programa. Aquela não foi a primeira e nem a segunda vez dentro daquele ano que ela precisou buscá-lo em locais parecidos.
Seu coração havia se despedaçado e remontado inúmeras vezes. Ele mentia e justificava seus erros, ela o perdoava, e então, quando facilitava, os dois acabavam trancafiados mutualmente, mais uma vez.
Ele sabia de tudo que ela gostava, parte daquilo ele mesmo a havia ensinado, já que foi o primeiro e único a tocá-la em toda a vida. Às vezes era como se ela fosse a única mulher a lhe agradar no mundo, e às vezes era como se quisessem se fundir um ao outro mesmo que a força. Quando os dois reatavam pareciam estar anos sem se tocar e então uma ou duas vezes nunca era suficiente.
Ela sabia que aquele jantar não seria apenas um jantar. Mathias sempre tinha uma estratégia: primeiro, um beijo em público, depois uma refeição nostálgica e, inevitavelmente, tudo terminaria em uma noite que ela mal saberia como começou.
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Atualizado até capítulo 33
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