O Limite do Perigo
Elicy tentava manter desesperadamente a calma, enquanto o carro de Mathias acelerava cada vez mais para longe da cidade. Seu coração batia em ritmo frenético, e suas mãos suavam, mas ela sabia que não podia se deixar levar pelo pânico.
— Mathias, onde você esteve? Eu estava preocupada com você! — disse, tentando soar convincente, apesar do tremor na voz.
Ele manteve o silêncio, as mãos firmes no volante e o olhar fixo na estrada à frente. A tensão em seu rosto a aterrorizava. Ela já o havia visto assim antes, e foi naquela única vez que o relacionamento deles havia chegado ao fim.
— Por favor, Mathias, para onde está me levando? Podemos conversar. — Elicy implorou, a voz embargada. — Posso te ajudar a evitar a prisão. Posso garantir que você não fazia parte de tudo isso.
Ela percebeu que o carro seguia para os arredores de Nova Aurora, em direção a um galpão que pertencia a sua própria empresa. O local, que Elicy havia explorado recentemente, era um depósito para móveis e objetos valiosos. A fina camada de poeira sobre as prateleiras mostrava que coisas haviam sido retiradas dali recentemente. Talvez Mathias estivesse vendendo itens para sobreviver nos últimos meses.
Mas o que mais a perturbava era o fato de ele ainda estar ali, quando poderia ter fugido para longe há muito tempo. Algo o mantinha em Nova Aurora, algo que ele ainda não conseguira largar. E aquilo a deixava em pânico.
Chegando ao galpão, Mathias a puxou para fora do carro e a arrastou para dentro. A porta se fechou com um baque metálico, isolando Elicy do mundo exterior. Ela sabia que ninguém a encontraria ali. O único que poderia notar sua ausência, Hugo, estava no hospital, e seus pertences jogados no estacionamento eram a única pista. A angústia crescia conforme Mathias a levava para uma pequena sala improvisada, que funcionava como um escritório.
O lugar estava uma bagunça. Papéis espalhados, uma cama improvisada no canto, e uma maleta de dinheiro aberta indicavam que aquele havia sido o esconderijo de Mathias. Ele estava prestes a fugir.
Elicy, mesmo apavorada, ainda nutria uma ponta de compaixão por ele. Não conseguia se perdoar por contribuir para aquela situação. Apesar de tudo, ela queria acreditar que Mathias era apenas uma vítima, assim como ela, preso nas ambições de seus pais.
— Mathias, me perdoe. — Elicy sussurrou, as lágrimas brotando de seus olhos. — Eu nunca quis que chegássemos a esse ponto. Nunca quis te machucar.
Mathias finalmente explodiu.
— Você sente muito? — gritou ele, avançando em sua direção. — Minha vida está arruinada, Elicy! Eu perdi tudo, por causa de você e do seu maldito pai! Agora estou nas manchetes como o vilão da história. Como você pode entender o que estou passando? Não há desculpas ou advogados que possam me salvar agora.
Ele socou a parede com tanta força que o som ecoou pela sala, fazendo Elicy recuar. Mathias estava descontrolado, sua frustração explodindo em cada palavra.
— Há quanto tempo você estava tramando isso? — continuou ele, encarando-a com os olhos cheios de raiva. — Por quanto tempo você fingiu que me amava?
— Eu nunca menti para você, Mathias. — Elicy tentou se explicar, sua voz trêmula. — Eu não sabia de nada até a morte do meu pai. Eu só queria romper o contrato de casamento antes do inventário, mas tudo saiu do controle.
Mathias se aproximou rapidamente, encurralando Elicy contra a parede.
— Você sempre quis voltar para cá, não é? — Ele sussurrou, com um sorriso frio, antes de encostar sua testa na dela. — Recomeçar com você é a única coisa que eu quero. Vamos embora juntos. Eu te amo, Elicy. Não quero te perder.
Ela fechou os olhos, tentando afastar o medo, mas antes que pudesse responder, Mathias socou a parede ao lado de sua cabeça, fazendo-a estremecer. O impacto foi tão forte que seus ouvidos começaram a zumbir. O medo se intensificou.
— Droga, Elicy! — ele gritou, e bateu a cabeça dele contra a dela em frustração, antes de se afastar, andando de um lado para o outro como um animal enjaulado.
— Onde você realmente esteve durante aquela semana? — Ele parou de repente e a olhou intensamente. — E não minta para mim. — A voz dele era fria e ameaçadora, como se tivesse perdido qualquer traço de humanidade.
Elicy ficou em silêncio, as palavras presas em sua garganta. Ela sabia que qualquer coisa que dissesse poderia piorar a situação.
— Se você sabia de tudo, por que não me avisou? — Ele socou a mesa. — Eu teria feito qualquer coisa para me defender. Mas você nem sequer me deu essa chance, porque, no fundo, você achou que eu estava envolvido, não foi?
Ela mal conseguia respirar. O medo de desencadear uma reação ainda mais violenta a paralisava. Sua mente girava, e o terror de um ataque de pânico iminente ameaçava derrubá-la. Mathias sempre odiara suas crises, e o medo de que ele reagisse de forma ainda mais brutal a impedia de desabar ali.
— Olhe para mim! — Mathias rugiu, seus olhos selvagens. — Onde, Elicy? Como fui burro em pensar que você realmente estaria fechando negócios com aquele velho, não é mesmo? Você nem é capaz disso sem antes ter um chilique, quem dirá fazer um acordo que cobriria tantos cofres de dinheiro. Ele gargalhou exageradamente, o rosto vermelho e as veias do pescoço saltando de agitação.
— Eu devia ter imaginado. Sua vagabunda! — Ele se aproximou mais uma vez, o corpo tremendo de ódio. O tapa que ele desferiu a arremessou ao chão. A cabeça de Elicy bateu contra o concreto com um som seco, e tudo à sua volta começou a se desfazer em sombras. O barulho da sua própria respiração se misturava aos gritos distantes de Mathias. Ele estava completamente fora de si.
“Um dia, esse homem de cabelos acobreados e sorriso fácil fora seu melhor amigo. Ele a havia protegido contra qualquer ameaça, a abraçado nos momentos de fragilidade. Um dia, ela entregou a ele seu coração e acreditou que poderiam envelhecer juntos. E agora, ele seria o homem que tiraria sua vida.”
Com esses pensamentos rodopiando em sua mente, Elicy finalmente desmaiou.
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Atualizado até capítulo 33
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