Capítulo 5

— Elicy, estou indo me encontrar com um cliente. Mais tarde, volto para jantar com você — disse Mathias, levantando-se da espreguiçadeira após terminar a xícara de chá que Sônia havia preparado com tanto cuidado.

— Sônia, seu chá estava maravilhoso, como sempre — elogiou, com um sorriso agradecido.

— Espere, eu vou com você! — Elicy respondeu de repente, decidida, enquanto se levantava e o seguia.

Mathias ficou surpreso e um pouco ansioso com a determinação dela. — O quê? Você não pode vir comigo — respondeu rapidamente, tentando dissuadi-la. — Você não tem experiência com aluguel, e eu vou ter que mostrar pelo menos uns dez lugares antes que ele se decida. Será entediante e demorado.

Elicy, no entanto, não estava disposta a ser deixada para trás. — Vou ficar no carro e observar! Preciso aprender o trabalho em campo também, Mathias. Não posso ficar presa ao escritório para sempre — disse ela, a voz firme. — E, além disso, você não tem escolha. Vou com ou sem a sua autorização. — Com isso, ela atravessou o caminho dele, determinada a seguir em frente, deixando-o sem opção a não ser segui-la.

Mathias soltou um suspiro resignado, percebendo que não tinha como argumentar contra a vontade dela. — Droga! Ele socou a parede quando ninguém o observava.

— Fique no carro — Mathias ordenou, enquanto tirava os óculos escuros e se inclinava sobre Elicy, apoiando-se no banco dela para abrir o porta-luvas.

Elicy se afastou instintivamente, criando uma distância entre eles. Ela conhecia aquele movimento. Era um de seus truques mais antigos, um gesto que ele usava para invadir seu espaço pessoal, para tentar desestabilizá-la. Mas agora, esses truques não a afetavam mais da mesma forma. Com o tempo, ela aprendeu a decifrá-lo com uma facilidade quase automática.

Elicy observava, em silêncio, uma mistura de ressentimento e autocrítica crescendo dentro dela. Era tão óbvio agora, tudo o que antes parecia genuíno. Ela começou a se odiar por cair em suas armadilhas tantas vezes no passado. Como ela pôde ter sido tão ingênua?

Elicy observou Mathias descer do carro assim que a moto preta parou na frente. O homem que a pilotava desceu com um movimento ágil, sua presença imponente chamou imediatamente a atenção. Ele era alto, com ombros largos que ressaltavam os músculos contornados pela camisa preta que vestia. Ao retirar o capacete, sacudiu o cabelo preto e, em vez de ajeitá-lo, passou a mão por entre os fios, bagunçando-os ainda mais.

A maneira como ele cumprimentou Mathias, com uma certa intimidade descontraída, fez Elicy acreditar que ele devia ser um cliente antigo, alguém que Mathias conhecia bem.

Enquanto esperava, Elicy decidiu ocupar o tempo revendo os documentos que havia recebido mais cedo naquele dia. Sua mente tentou se concentrar nas páginas que exibiam números e cláusulas, mas a verdade era que o cansaço mental estava começando a se manifestar. Depois de alguns minutos, sentindo-se exausta de pensar, ela guardou o celular e voltou seus olhos para a frente do carro, observando os dois homens.

Agora, o motociclista estava virado em sua direção, e por um momento, Elicy se sentiu intrigada. Ele tinha olhos castanhos intensos, o maxilar definido, emoldurado por uma barba cerrada que realçava suas feições. Quando ele sorriu e acenou com a cabeça em sua direção, algo dentro dela despertou. Aquele sorriso… havia algo familiar nele. Ela franziu a testa ligeiramente, tentando lembrar onde poderia ter visto aquele homem antes. Havia uma sensação de déjà vu, como se ele fizesse parte de um passado que ela não conseguia colocar em foco.

O homem, ao perceber que Elicy o estava ignorando, desviou sua atenção de volta para Mathias. No entanto, ela notou uma mudança em sua expressão; ele parecia ansioso, talvez até um pouco insatisfeito. Algo na postura dele indicava que a situação não estava se desenrolando exatamente como ele esperava.

Elicy continuou a observar os dois homens do lado de fora, notando a naturalidade com que discutiam. Não havia tensão aparente, como em uma típica negociação de negócios. Pelo contrário, como se tocavam casualmente, sorriam e até expressavam suas frustrações com facilidade, sugeria uma relação que ia além do profissional. Havia uma familiaridade entre eles que Elicy não pôde deixar de notar.

Cansada de tentar decifrar a dinâmica entre Mathias e o estranho, Elicy decidiu dar um tempo à sua mente. Ela abaixou a janela do carro, deixando o ar fresco da cidade entrar. O aroma de pinheiro fresco a envolveu, trazendo uma sensação de tranquilidade.

Após abrir os olhos, Elicy viu o homem alto desviar de um gesto de impedimento de Mathias. O rosto dele, embora marcado por uma beleza evidente, trazia a expressão de alguém que conhecia a dor de forma profunda e constante. A mágoa em seus olhos naquele momento era tão avassaladora que Elicy sentiu o impacto em si, com uma onda de tristeza que a atingiu de surpresa.

O homem caminhou em direção ao carro, parando apenas quando se aproximou da janela de Elicy. Atrás dele, Mathias apertava a cabeça com as duas mãos, o rosto ficando cada vez mais vermelho, um sinal claro do ataque de ciúmes iminente, um comportamento que ela já conhecia muito bem.

— Você não vai mesmo falar comigo? — perguntou o homem, sua voz carregada de uma frustração que Elicy não compreendia completamente. — Não é porque você está noiva e prestes a herdar basicamente metade dessa cidade que tem que agir como uma rainha intocável.

Elicy o olhou com atenção, avaliando-o em silêncio. As palavras dele a pegaram desprevenida. Por que ele estava falando com ela daquela maneira? O que ele achava que sabia sobre ela?

Ela permaneceu em silêncio, mas sua mente estava a mil. Quem era aquele homem e por que ele parecia tão afetado pela situação? O que ele esperava dela?

O homem franziu a testa, como se começasse a perceber que algo estava errado. Ele avaliou a expressão de Elicy e depois olhou para Mathias, que ainda parecia à beira de um colapso emocional. Um sorriso incrédulo, misturado com um toque de alívio, cruzou o rosto do estranho.

— Espera, você não está aqui porque não queria ser incomodada, não é? — Ele disse, como se estivesse finalmente juntando as peças do quebra-cabeça.

QQuando Elicy não respondeu, ele soltou um suspiro pesado, fechou os olhos por um momento e puxou o ar, tentando se acalmar. — Imbecil! — murmurou, mais para si do que para qualquer outra pessoa, sua frustração evidente.

Elicy ainda estava perplexa, tentando processar a ousadia do homem que, após insultá-la com tanta intimidade, ainda teve a audácia de sorrir. Ela não sabia o que fazer. O pai nunca a deixava participar de negociações externas, e, quando lhe era permitido estar presente, a única coisa que podia fazer era permanecer em silêncio e acenar educadamente quando a palavra lhe era dirigida. Essa situação era completamente diferente de qualquer coisa que ela já havia experimentado.

— Elicy… — O homem falou novamente, aproximando-se da janela do carro. Ele se apoiou na porta e, com uma suavidade inesperada, tocou o rosto dela.

Elicy sentiu suas entranhas se revirarem. Um formigamento ansioso percorreu sua pele com o toque dele. Era como se todo o seu corpo tivesse sido subitamente desconectado da terra, deixando-a flutuando em uma realidade onde só existiam ele e ela. Sua mente gritava para se afastar, lembrando-a de que ele era, afinal, um estranho. Mas seu corpo não reagia; estava paralisado por uma força que não compreendia.

— Prometo ser sua força bruta, e você será meu coração.

Vencerei suas guerras e você curará minhas feridas.

Eu a protegerei com lealdade, e você será a minha sanidade.

Prometo ser seu, somente seu, até depois da minha morte.

As palavras atravessaram Elicy como um raio, atingindo algo adormecido dentro dela. Seus olhos começaram a arder e, inconscientemente, ela terminou o juramento que havia sido feito entre duas crianças, muitos anos atrás. Aquelas palavras, que ela nunca pensou que ouviria de novo, estavam saindo de sua boca antes que pudesse perceber.

Quando ele tirou finalmente a mão de seu rosto, Elicy sentiu como se seu corpo retornasse à terra, a gravidade puxando-a de volta à realidade. Tremendo, ela se soltou do cinto de segurança, mas, em sua pressa, se atrapalhou ao tentar abrir a porta.

— É você! É você! — Ela repetia sem parar, a voz cheia de incredulidade, enquanto ele sorria, animado e ansioso, esperando que ela saísse do carro.

Quando Elicy finalmente conseguiu sair, seus olhos se encontraram novamente. Ele a encarou de cima, com o mesmo olhar que agora parecia tão familiar e querido.

— Sebastian… — Ela murmurou, quase sem acreditar.

Em um movimento rápido e seguro, Sebastian a puxou para mais perto, e Elicy o agarrou pela cintura. Aquele abraço foi como uma explosão de emoções, arrancando-a da terra mais uma vez e fazendo seu coração bater tão forte que quase doeu. O toque dele enviou ondas de eletricidade pelo corpo dela, como se todas as partes de si que haviam estado adormecidas por tanto tempo fossem despertadas de uma só vez.

Era como se, por um momento, o tempo parasse e todo o mundo ao redor deles desaparecesse. Nada mais importava, exceto que eles estavam ali, depois de tanto tempo. Naquele abraço, Elicy sentiu-se completa, como se tivesse finalmente encontrado a peça que faltava em sua vida.

— Sebastian! — Elicy finalmente falou, sua voz suave cortando o silêncio.

Sebastian mal podia acreditar, só ela tinha aquele poder sobre ele; desde a infância, Elicy sabia como deixá-lo completamente desnorteado apenas pronunciando seu nome. Ele desejava que ela repetisse, que aquela voz permanecesse ecoando em sua mente.

— Sinto muito pela sua perda. Só soube hoje pela manhã. — Ele murmurou baixo, sua voz carregada de tensão, enquanto tentava absorver cada segundo daquele abraço.

Para Elicy, foi como se o peso da dor finalmente a alcançasse. Desde o enterro de seu pai, nenhuma lágrima havia caído, mas naquele momento, abraçada a Sebastian, ela sentiu o aperto no peito que havia tentado ignorar. Ela engoliu a tristeza, sufocando o choro que ameaçava romper seu controle.

— E parabéns pelo noivado… — Sebastian acrescentou, sua voz quase falhando, enquanto lutava para manter a dor dentro de si.

Mais populares

Comments

Rara Makulua

Rara Makulua

Melhor que filme!

2024-08-31

1

Ver todos

Baixar agora

Gostou dessa história? Baixe o APP para manter seu histórico de leitura
Baixar agora

Benefícios

Novos usuários que baixam o APP podem ler 10 capítulos gratuitamente

Receber
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!