Capítulo 18

O silêncio pesado do quarto de hospital era interrompido apenas pelo suave bip das máquinas que monitoravam a respiração de Elicy. O corpo de Sebastian estava rígido, como se a tensão acumulada nas últimas horas o tivesse congelado no tempo. Ao lado da cama, ele observava o rosto pálido dela, procurando sinais de vida, de esperança. Quando Amélia entrou no quarto, seu semblante devastado pela preocupação, ela quase não acreditou no que via.

— É você, Sebastian? — perguntou com a voz trêmula, como se tivesse avistado um fantasma.

Sebastian apenas acenou com a cabeça, incapaz de responder. O peso das últimas horas parecia esmagá-lo, sufocando qualquer palavra que tentasse formar.

Nesse momento, uma enfermeira entrou no quarto, quebrando o frágil elo de tensão que unia os dois. Ela caminhou suavemente entre eles, a profissionalidade em seu olhar contrastando com a atmosfera carregada.

— Ela vai se recuperar, mas o processo será lento. Nada que coloque sua vida em risco agora — disse a enfermeira, com um tom que tentava ser reconfortante. No entanto, as palavras pareciam distantes, incapazes de penetrar o torpor que envolvia Sebastian.

Ele apertou a mão de Elicy com mais força, como se tentasse capturar desesperadamente o calor da vida que ele temia perder. Mas não havia calor. Apenas o toque gelado de sua pele frágil, uma sensação que atravessava seu coração como uma lâmina, ampliando a dor que ele já carregava. A cada segundo que passava, parecia que o chão sob seus pés desaparecia lentamente, ameaçando tragá-lo para o abismo.

Amélia recuou alguns passos, encostando-se na parede em busca de algum apoio. Seus olhos estavam fixos na filha, mas sua mente vagava, perdida em memórias e arrependimentos. As palavras da enfermeira eram apenas ruídos distantes. Tudo o que ela desejava naquele momento era tocar Elicy, sentir que ela ainda estava ali, em carne e osso, e não apenas uma sombra do que fora.

— Os medicamentos vão ajudar com as dores de cabeça — a enfermeira continuou, mas para Amélia, sua voz soava como um eco distante. — Vamos monitorá-la de perto.

Aproximando-se da cama com hesitação, Amélia olhou para Sebastian, esperando que ele permitisse que ela segurasse a mão de Elicy. Quando finalmente ele se afastou um pouco, ela tomou a mão fria da filha nas suas. Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto enquanto ela sussurrou para si mesma:

— Ela nunca teve mãos quentes…

E então, a força que Amélia mantinha desabou, seus soluços enchendo o quarto com a dor de uma mãe que se sentia impotente.

De repente, um som fraco ecoou no ar.

— Fiz algo errado? — a voz de Elicy soou, frágil, como um sopro entrecortado.

— Querida! — Amélia se lançou sobre a filha, o alívio misturado com o medo dominando seu coração, embora ela tivesse o cuidado de não a apertar demais.

— Mamãe… vai me esmagar — Elicy sussurrou, um sorriso suave iluminando seu rosto, mas seus olhos ainda carregavam confusão.

Sebastian, atônito, observava a cena, lutando para processar o que estava acontecendo. Ele finalmente se moveu, como se fosse trazido de volta à realidade.

— Vou chamar a enfermeira — disse com a voz rouca, consciente de que Elicy ainda não o havia reconhecido.

— O que aconteceu? — Elicy murmurou, sua mão trêmula tocando a cabeça da mãe, em um gesto quase instintivo de conforto. — Eu… não me lembro.

O médico entrou logo depois, acompanhado pela enfermeira, e informou que Elicy havia sofrido uma perda de memória parcial devido ao trauma. Enquanto ele verificava os reflexos dela, seu tom era firme, porém sereno.

— A memória dela pode estar prejudicada, mas o importante é que ela se lembra de quem é e de vocês. A noção do tempo é o que está mais comprometido, e precisamos ser cuidadosos com isso.

— E se ela se lembrar de algo doloroso? — Sebastian perguntou, a preocupação visível em seus olhos.

— Se as memórias traumáticas voltarem, precisamos estar preparados para oferecer apoio emocional — explicou o médico. — O importante agora é não a sobrecarregar.

Após a saída do médico, Amélia sentiu suas pernas fraquejarem e se apoiou na parede, sua respiração pesada.

— Sebastian… — murmurou entre soluços. — Obrigada. Se você não a tivesse encontrado...

— Não diga isso. Por favor, não — ele a interrompeu, sua voz mais firme do que ele esperava, mas ainda carregada de culpa.

— Não diga isso. Por favor, não diga — Sebastian a interrompeu. O tom de sua voz, alterado, mostrou a Amélia que algo o estava incomodando.

— Você não tem ideia, tem? De quanto ela falava de você. Desde que eram crianças, você era o herói das histórias dela. Sempre o protagonista... — Amélia parou por um momento, tentando conter as lágrimas. Você já foi o corvo que se transformava em humano para encontrá-la. Já foi o cavaleiro perfeito que a salvava, o príncipe que sacrificaria todo o reino só para se casar com ela. Você também já foi o anjo, o herói, o amor de outra vida... Eu nunca entendi aquele exagero, — Até o dia em que encontrei a pequena caixa, cheia de bilhetes seus. E um deles dizia: “Quando o seu mundo escurecer, brilhe tão forte quanto brilha nos meus dias sombrios.”

Sebastian fechou os olhos, sentindo o peso daquelas palavras. Tudo o que ele não fez, tudo o que deixou passar, agora parecia insuportável.

— Eu sempre me culpei por não conseguir protegê-la do pai. Mesmo que ela me odiasse por isso, mandá-la para o internato foi a decisão mais sensata que pude tomar naquela época. Ela não teria que ver o pai tentando me matar ou se matar. E sempre que eu pensava sobre isso, eu me lembrava de outro bilhete daquela caixa escrito por ela, imitando sua caligrafia, e eu souber porque atrás, ela havia escrito “Seria assim que ele diria.” No bilhete, estava escrito: “Quando o seu ar acabar, use o meu.”

— Eu sempre me culpei por não poder protegê-la de tudo — confessou, os dedos passando pelos cabelos bagunçados. — E agora… parece que falhei de novo.

Amélia o observou, a dor em seus olhos refletindo a sua própria.

— Neste mesmo dia eu descobri o quão péssima mãe eu fui. Minha filha tinha ataques de pânico, crises de ansiedade e eu só soube quando era tarde de mais. Eu só soube quando ela já era uma adulta, independente e capaz de tomar a decisão de procurar ajuda sozinha. Quando ela me contou que tomava os medicamentos desde o internato, eu surtei, dei um tapa na cara dela e a acusei de ser irresponsável. Ela com toda aquela maturidade apenas me abraçou. Eu me lembro da voz dela me dizendo sem parar enquanto eu agia como uma louca. — Eu te perdoo mamãe.

A partir daquele dia passei a analisá-la com mais cautela, aprendi a ajudar quando uma das crises lhe torturava e gradualmente eu a conheci. — Ela esperou por você, Sebastian. Esperou que a salvasse... E como mãe, eu o odiei… Me doía tanto vê lá com Mathias, que eu desejava que por um milagre você aparecesse de repente por aquela maldita porta e levasse para o outro lado do mundo. E ela teria ido sem pensar duas vezes.

— Eu… Sebastian foi engolido por seu remorso a ponto de ser sufocado por suas próprias palavras.

— Mas como todos os contos de fadas, você esperou que ela fosse quase destruída para salvá-la. E por mais que eu seja grata por tê-la trago com vida, eu jamais vou perdoá-lo por demorar tanto. E eu também jamais vou me perdoar por não ser forte o bastante para salvá-la. Ela entrou para o quarto de Elicy e abandonou Sebastian aos prantos do lado de fora.

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