Capítulo 3

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Mathias era dois anos mais velho que Elicy, e os dois se conheceram quando ela tinha apenas cinco anos. Foi em um evento beneficente, patrocinado pela igreja principal de Nova Aurora, que seus destinos se cruzaram pela primeira vez. Mathias chamava a atenção de imediato com seus olhos verdes brilhantes, sempre curiosos, e os cabelos vermelhos acobreados que teimavam em se erguer desordenados, como se o tempo para os pentear fosse sempre insuficiente. Ele era pouco mais alto que ela, magrelo, e quando sorria, suas covinhas se aprofundavam nas bochechas, pontilhadas por pequenas sardas.

Desde então, Mathias se tornou uma presença constante ao lado de Elicy, acompanhando-a com uma vigilância cuidadosa. Ele parecia sempre preocupado em protegê-la, evitando que ela se machucasse ou que algum adulto desconhecido se aproximasse demais. Para Mathias, Elicy era como uma pequena boneca de porcelana, frágil e adorável. Ela nunca reclamava, nunca chorava e nunca estava triste. As pessoas que passavam por ela não resistiam ao impulso de parar para admirar sua beleza singular. Sem pedir permissão, tocavam em seus cabelos negros e lisos, apertavam suas bochechas fofinhas e só a soltavam após exaltar seus grandes olhos azuis, que pareciam capturar toda a luz ao redor. E como estavam certos! Até mesmo para um garoto de 7 anos, ela era encantadora.

Por mais que o peso dessa vigilância lhe cansasse, ela ainda amava Mathias. Ele era seu melhor amigo de infância, seu primeiro e último namorado. E, embora o relacionamento entre eles pudesse às vezes ser desgastante, ela não estava pronta para renunciar a isso. Mathias sempre esteve ao seu lado, tanto nos momentos mais sombrios quanto nos mais felizes. A ideia de viver sem ele lhe causava uma dor profunda, porque ele não era apenas parte do seu passado, mas uma parte essencial da sua vida e de quem ela era.

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— Obrigada, senhor Hugo! — Elicy agradeceu ao motorista ao pegar a última mala. Ela entrou no carro sem olhar para Mathias, resistindo à tentação de ceder a ele mais uma vez. Já no carro, a alguns minutos de distância do prédio, o motorista a observou pelo espelho retrovisor, hesitando por um instante antes de pegar um envelope grande e preto, com o símbolo da RealFort Holdings gravado na capa. Ele o entregou a Elicy com cuidado, sem desviar os olhos da estrada à frente.

— Desculpe, senhor Hugo, mas não posso renunciar a você agora. Não pode me abandonar justo agora que meu pai se foi… — Ela disse ao idoso, pegando o envelope das mãos dele, sentindo o peso das responsabilidades.

— Não é o que está pensando, senhorita. Prometi que cuidaria de você até o meu último dia. — Ele disse com um sorriso suave, batendo os dedos no pingente cheio de bolinhas coloridas que balançava pendurado no retrovisor interno. Lembrou-se com carinho da criança de doze anos que o fizera prometer aquilo anos atrás, aos prantos durante o caminho do internato em que passaria parte de sua vida.

— Como você pôde cair tão facilmente naquele suborno? Ela sorriu, olhando para as bolinhas que se chocavam suavemente umas contra as outras. — Vou cumprir minha parte da promessa, mas receio que possa demorar um pouco mais do que planejamos.

— Na verdade, me sinto aliviado em saber disso. Ele respondeu, ainda sorrindo. — Quando cheguei hoje para buscá-la, o porteiro me pediu para entregar isso à senhorita apenas quando estivéssemos longe o bastante. A única informação que me deram foi que encontraram esse envelope hoje de manhã, sem mais detalhes além das instruções cumpridas e do seu nome.

Elicy analisou o envelope com cuidado. Vinha de dentro da empresa e o selo oficial deixava isso claro. Ela o abriu com mãos trêmulas, puxando as folhas que estavam dentro. As dez primeiras páginas mostravam um extrato bancário geral de todas as empresas, e os números a deixaram assustada. A quantidade de pequenas e grandes propriedades que geravam lucros abundantes era impressionante: hotéis, prédios, casas, mercados, floriculturas, bancos, imobiliárias, empresas de construção, entre outros. Mas foi nas últimas cinco páginas que Elicy percebeu algo terrível. O faturamento dos últimos meses mostrava uma queda alarmante. Ela conferiu os números novamente, uma, duas, três vezes…

— O que está acontecendo? Droga! — Elicy murmurou, jogando os papéis de lado e pressionando as têmporas, tentando aliviar a dor de cabeça crescente. — Senhor Hugo, tem certeza de que não sabe de onde ou de quem vieram esses papéis?

— É tudo que sei, senhorita. Sinto muito.

Se os papéis estivessem corretos, mais de 60% das propriedades da empresa estavam sendo saqueadas, com cerca de 80% dos lucros desaparecendo. Se aquilo fosse uma prova de que seu pai estava sendo roubado… Por que alguém enviaria isso para ela? Por mais que detestasse admitir, todos os sócios estavam torcendo para que ela desistisse do cargo e entregasse a empresa nas mãos de Heimond Norghot, pelo menos até completar 23 anos. E, com o casamento, 100% da empresa passaria oficialmente para Mathias, o filho de Heimond. Ele assumiria os negócios, enquanto ela seria relegada ao papel de mãe de futuros herdeiros.

— Obrigada, senhor Hugo! Pode me chamar assim que estivermos chegando? — Elicy perguntou, tentando disfarçar a turbulência em seus pensamentos.

— Sim, senhora! — respondeu ele, voltando sua atenção para a estrada.

Elicy colocou os fones de ouvido, tentando bloquear o caos ao seu redor, e abriu o laptop com determinação. Pegou a caneta da bolsa e, após um suspiro profundo, recolheu os papéis que havia jogado de lado. Ela se perdeu em suas pesquisas, imersa em uma concentração quase obstinada. Durante quatro horas, seu foco inabalável resultou em uma série de planos meticulosos que precisariam ser implementados assim que ela obtivesse acesso total às documentações da empresa como herdeira. Cada detalhe era crucial, e ela sabia que não poderia haver margem para erros.

No entanto, sua imersão foi interrompida pela voz gentil do motorista — Senhorita, acredito que não queira perder a vista da entrada da cidade. Ele falou no momento exato, aproveitando a oportunidade perfeita para tirar Elicy de seu mundo de preocupações e lembrá-la da beleza ao seu redor.

Elicy retirou os fones de ouvido, guardou os papéis com cuidado e abriu a janela, como costumava fazer quando era criança. O vento fresco tocou seu rosto, e ela fechou os olhos, esperando o momento em que passariam pelos pinheiros. Quando finalmente sentiu o aroma familiar do ar puro, puxou-o profundamente para dentro dos pulmões.

— Senhor Hugo, ainda tem o mesmo cheiro… — Ela murmurou, uma mistura de nostalgia e alívio em sua voz.

— Certas coisas nunca mudam, não é mesmo? — respondeu ele, sorrindo ao vê-la assim, de olhos fechados, respirando aquele ar como se fosse uma menina novamente. — É uma pena que estamos aqui a trabalho. Ele acrescentou, trazendo-a de volta à realidade.

— É uma pena… Elicy murmurou, com uma leve tristeza no tom, enquanto o peso de suas responsabilidades voltava a se instalar em seu coração.

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