– Anya… – sussurrou Becky, apontando para o nada. – Ela está aqui.
Mia olhou em volta, procurando por qualquer sinal de presença, mas não encontrou nada além da sombra projetada pela lua na parede. – Não tem ninguém aqui, Becky. Você está vendo coisas.
Mas Becky sabia que não estava sozinha. A presença de Anya era tão real quanto a dor que pulsava em seu peito. "Eu não queria que isso acontecesse, Anya. Por favor, me perdoe."
O suor escorria pelo rosto pálido de Becky enquanto ela tentava se recompor. A voz, antes firme, agora era apenas um sussurro trêmulo. – Eu preciso sair daqui! – implorou, os olhos arregalados de terror. As próprias pernas pareciam não a sustentar, e ela se agarrou à beira da cama como se fosse seu último refúgio.
Mia se aproximou cautelosamente, a expressão marcada pela preocupação. A escuridão da noite ainda dominava o quarto, mas a luz da lua que se infiltrava pela janela revelava o pânico estampado no rosto de Becky. – Venha, já vai amanhecer. Vou te fazer um café e você pode me contar tudo o que aconteceu, tudo bem? – Sua voz era suave, tranquilizadora, mas seus olhos transmitiam uma intensa ansiedade.
Becky hesitou por um momento, como se estivesse lutando contra uma força invisível. Finalmente, cedeu, permitindo que Mia a ajudasse a se levantar. Ao se aproximar da janela, a brisa fria da madrugada a fez estremecer. A imagem da mulher encapuzada, com aqueles olhos brancos e vazios, voltou à sua mente com uma clareza dolorosa. – Tinha uma mulher... era a Anya. Ela parecia um monstro! – A voz de Becky falhou, e ela precisou se apoiar em Mia para não cair. – Ela disse que eu trouxe a desgraça para a vila...
Mia apertou a mão de Becky com força, buscando transmitir-lhe alguma segurança. – Alucinação? – questionou, mas a dúvida em sua voz era evidente. – Precisa ir na curandeira. Eu sabia que deveria ter te levado lá antes de vir para cá. – Seus olhos percorreram o corpo de Becky, fixando-se na marca que brilhava sob a luz da lua. – Isso pode estar ligado aos seus poderes.
Becky sentiu um arrepio percorrer sua espinha. – Acha que é por causa da marca? – perguntou, a voz quase um sussurro. A admiração que sentia por Mia se misturou com um crescente medo.
– Sim – Mia respondeu, a voz grave. – Ela entende mais que eu sobre essas coisas. Dizem que ela viveu aqui por séculos. Mas você precisa estar preparada. Para saber a verdade, você terá que fazer um sacrifício.
Um nó se formou na garganta de Becky. – Um sacrifício? – repetiu, a voz rouca. A cozinha, normalmente acolhedora, agora parecia opressiva, com as sombras se movimentando nas paredes como se estivessem vivas. – O que eu terei que abrir mão?
Mia não respondeu imediatamente. Seus olhos se fixaram em algum ponto distante, como se estivesse revivendo uma lembrança dolorosa. – Algo muito importante para você – murmurou finalmente.
Becky sentiu um frio percorrer seu corpo. O que poderia ser tão importante a ponto de exigir um sacrifício? O medo se apoderava dela, mas ao mesmo tempo, uma inexplicável curiosidade a impulsionava a descobrir a verdade.
A luz do sol rabeando pela janela iluminava a poeira que dançava no ar, revelando o bocejo exagerado de Vanessa ao entrar na cozinha. Seus olhos, ainda sonolentos, percorreram a cena: Mia, com uma expressão preocupada, e Becky, com os braços cruzados sobre o peito, emanando uma aura de irritação.
– O que estão aprontando tão cedo? – Vanessa perguntou, espreguiçando-se e bocejando mais uma vez, como se estivesse tentando prolongar a tranquilidade da manhã.
– Tenho que levar a Becky para a curandeira – Mia respondeu, dando de ombros. – Ela tá tendo umas visões estranhas, alucinando... Acho que pode ter alguma ligação com aquela marca no braço dela.
Becky revirou os olhos, a irritação evidente em sua voz. – Eu não esqueci do que você fez, Vanessa. Você é ridícula! – A acusação saiu como um dardo, atingindo diretamente o alvo.
Vanessa riu, mas havia uma nota de desafio em sua voz. – Só estava ajudando… – ela disse, pegando um pedaço de pão e mordendo com despreocupação.
Mia, percebendo a tensão crescente entre as duas, tentou mediar. – O que a Vanessa fez? – perguntou, seus olhos curiosos se alternando entre as duas amigas.
Becky hesitou por um momento, mas a raiva a impulsionou a responder. – Nada... esquece. – Mas o tom de sua voz, carregado de ressentimento, denunciava que a história era mais complicada do que parecia.
Vanessa, ignorando o olhar acusador de Becky, se voltou para Mia. – A Becky ficou toda nervosa com a presença do Skyler. Acho que ela tem uma queda por ela. – A última frase foi dita com um sorriso malicioso, direcionado diretamente para Becky.
A ruiva corou, mas rapidamente se recompôs. – Ninguém te convidou para essa conversa, Vanessa!
– Relaxa, Becky – Mia tentou acalmar a amiga, mas sua voz soou mais como uma ordem do que um pedido. – A Vanessa pode ser útil no treinamento. Afinal, ela tem mais experiência.
Becky cruzou os braços, fitando Mia com um olhar desafiador. A ironia pingava de suas palavras – Treinamento? Esqueci totalmente que a Becky é nova e ainda não foi em um treinamento. – O sarcasmo era uma tentativa de disfarçar o nervosismo que começava a tomar conta dela.
O grupo se dirigiu ao salão principal, um ambiente amplo e sombrio, iluminado apenas por algumas tochas que projetavam sombras tremulantes nas paredes. Erick já os aguardava, a lança apoiada em seu ombro. Um sorriso presunçoso curvava seus lábios ao ver Becky. – Vamos ver do que você é capaz, novata.
Vanessa, por sua vez, estava completamente transformada. A leveza de antes havia dado lugar a uma concentração feroz. Seus olhos, geralmente divertidos, agora brilhavam com uma determinação fria. Ela ajustou a espada à cintura, a lâmina cintilando sob a luz das tochas.
Becky sentiu um nó se formar em sua garganta. Algo na atmosfera do salão, na postura de seus amigos e, principalmente, em si mesma, a deixava inquieta. Um frio percorreu sua espinha, e ela se perguntou se havia se metido em algo muito maior do que imaginava. Aquele treinamento, que antes parecia apenas uma atividade corriqueira, agora se apresentava como um desafio incerto.
Uma sombra serpenteou pelo salão, arrastando consigo um arrepio que percorreu a espinha de Becky. Darius emergiu das trevas, um mapa antigo esquecido nas mãos. Seus olhos, cintilantes como brasas, percorreram a sala, fixando-se em cada um dos presentes. – Hoje vocês vão fazer algo diferente, trabalho em grupo – anunciou, sua voz ecoando nas paredes. Um mapa rabiscado com grandes "X" em cada canto foi exibido, despertando um misto de curiosidade e apreensão.
Erick, com seu habitual desdém, revirou os olhos. – Quero que explorem suas habilidades, cada um de vocês irá para um X, são áreas infestadas por criaturas. – A palavra "criaturas" ecoou na mente de Becky, evocando imagens de horrores que ela preferia não lembrar. – Cada um vai eliminar uma horda e precisam se encontrar no centro da floresta. Lá, vão enfrentar Skyler e eu. Para isso, precisam trabalhar em equipe, combinando seus poderes.
Vanessa, com a elegância de um felino, invocou seu corcel. – Eu vou para o Norte – anunciou, sua voz firme. Em seguida, virou-se para Becky. – Você ainda não tem uma montaria. Tente achar um cavalo comum na cidadela. – Um sorriso irônico curvou seus lábios.
Becky revirou os olhos, mas a verdade é que um frio percorrera sua espinha. “Uma horda de infectados? Sozinha? Isso é loucura!", pensou, mas manteve a compostura. Não podia demonstrar fraqueza diante dos outros. Precisava ser forte, encontrar um cavalo rápido e se preparar para o que a aguardava.
Erick, impetuoso como sempre, pulou nas costas de seu urso. – Me recuso a perder para Skyler, então não vacilem – rugiu, desaparecendo no corredor.
Mia, com sua calma habitual, escolheu o oeste. A floresta densa e escura era o seu habitat natural, e ela se sentia mais segura entre as árvores. Becky, por sua vez, ficou com o sul, a região considerada mais tranquila. Uma escolha conveniente, mas que a deixava com um gosto amargo na boca. Afinal, quem gostaria de ser relegada à parte mais fácil?
A cidadela era um labirinto de ruas estreitas e casas de pedra. Becky galopou pelas ruelas, o vento chicoteando seu rosto enquanto buscava um cavalo adequado. A ansiedade a consumia. Uma horda de criaturas? Sozinha? Ela não tinha certeza de estar preparada para isso.
Encontrou um estábulo quase deserto, com apenas alguns cavalos pastando em um campo adjacente. Escolheu um que lhe pareceu forte e ágil, montou e seguiu para o sul. A floresta se estendia à sua frente, uma muralha verde e sombria. A cada passo, a sensação de isolamento se intensificava.
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Atualizado até capítulo 21
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