Encarei o teto acima de mim, vagando pelos meus pensamentos e pelas minhas lembranças. Lembranças do seu toque, dos seus lábios, do seu cuidado e sua atenção. A forma como ele me envolveu em seus abraços, como me beijou lentamente e pacientemente. O jeito que foi cuidadoso e amoroso. Tudo estava tão impregnado em minha mente, em minha pele, em meus lábios. Pensar em tudo isso me fez levar a mão até minha boca e a tocar suavemente, ainda conseguindo sentir os seus lábios contra os meus.
Ele havia me pegado de surpresa. Quando me pediu para não odiá-lo eu fiquei sem entender, porém, quando me beijou, eu pude perceber tudo. Percebi que Dominic ansiava por aquilo. Desejava ardentemente os meus lábios nos seus. Um desejo tão doce e tão calmo que fez parecer que estávamos nas estrelas. Era uma sensação única.
Cobri o rosto com as mãos, não conseguindo conter um sorrisinho que surgiu em meus lábios. Finalmente havia caído a ficha de que tínhamos nos beijado e que, por Deus, aquele tinha sido o melhor beijo da minha vida.
Depois que nos beijamos Dominic apenas me encarou, parecendo surpreso consigo mesmo. Ele estava com os olhos levemente arregalados, a boca vermelha e um pouco inchada por causa do beijo. Ele encarou os meus lábios uma última vez antes de se desculpar e sair, deixando-me sozinha na biblioteca.
Agora eu estava deitada em minha cama, com tantos pensamentos e tantos sentimentos presos dentro de mim. Um lado meu gostaria de ir até ele e perguntar o porquê de ter me beijado. Porém, o outro queria apenas ir até o seu encontro e o beijá-lo novamente. Eu, honestamente, estava em uma batalha interna, mas sabia que provavelmente não faria nenhuma das duas coisas.
Peguei meu celular, vendo que havia uma mensagem da Hope falando sobre alguma festa que aconteceria amanhã. Não consegui controlar a minha expressão de desconforto. Aquilo era uma espécie de tabu para mim. Eu não sabia se era certo ficar numa festa, curtindo como se tudo estivesse bem, depois da morte brutal de Carlos e sua família. Contudo, algo em meu interior dizia que eu não poderia ficar presa para sempre no luto.
Hope disse que a festa seria aqui mesmo e que seria bom para espairecer um pouco. Beber algo e se distrair da realidade. Tudo o que fiz foi mandar um "ok", não sabendo muito o que responder.
Neste mesmo instante, fui pega de surpresa por uma mensagem de minha mãe. Um sorriso de orelha a orelha surgiu em meus lábios, mas logo foi substituído por preocupação ao ver a foto que havia sido enviada.
Na foto, Joseph segurava minha mão pelos cabelos enquanto sangue escorria do seu nariz. Em sua face, uma expressão de dor estava impregnada. E não tardou para que eu recebesse uma chamada de vídeo. Ao atender, não economizei nas palavras.
— Seu desgraçado! O que pensa que está fazendo com a minha mãe?
— Está com algum problema de visão, Brooke? — Ele zombou, gargalhando enquanto mantinha minha mãe presa. — Não consegue ver isso?
Joseph a empurrou contra a câmera, fazendo-a soltar um gemido dolorido. Me sentei rapidamente na cama, sentindo meu sangue ferver e meu coração se acelerar. Eu estava voltando ao passado mais uma vez. Estava presenciando minha mãe ser espancada sem poder fazer nada. Aquele era o pior tipo de tortura que ele poderia me oferecer.
— Seu merda! — Gritei, sentindo toda a minha raiva surgir. — Tire as mãos dela!
— Senão o que? O que você pode fazer estando em outro país? — Provocou. — Você não passa de uma inútil. Desde sempre viu sua querida mãe apanhar. Por que achou que dessa vez seria diferente?
— Desgraçado! Eu vou matar você!
— Ou você pode tentar. — Riu, puxando os cabelos de minha mãe de forma que a fizesse encará-lo. Então, sem hesitar, cuspiu em seu rosto. — Até lá, Brooke, sua mãe continuará nas minhas mãos. Continuará sofrendo e fazendo tudo o que eu mandar. — Ele a jogou no chão, dando-lhe um chute, o que provocou um grito por parte da mulher.
Não, não, não. De novo não. Primeiro Spencer, agora minha mãe. Não posso suportar isso.
— Eu sei que ela tem conversado com você as escondidas. Preciso admitir que ela foi esperta. Mas agora que descobri tudo ela precisa pagar, afinal, ninguém faz nada pelas minhas costas. — Ele a chutou mais uma vez, e outro grito soou. — Ela até comprou um celular para falar com a querida filha. E tudo sem eu saber. — Mais e mais chutes. — E tudo por sua causa, sua vadiazinha. Sua mãe está sofrendo as consequências por sua causa!
— Pare com isso, seu desgraçado, você vai matá-la!
Mas ele não me ouviu. Continuou a chutá-la e então socá-la. Forçou minha mãe a se levantar, apenas para me mostrar o estado do seu rosto. Olhos inchados e vermelhos e roxos. Sangue escorrendo por sua testa, nariz e boca. Hematomas no pescoço e nos braços. Ele a estapeou e a jogou no chão novamente, agora pegando o celular e me encarando.
— Desde o dia que matei a sua amiga vi que você se juntou ao Dominic. Eu devia ter desconfiado que ele iria atrás de você. Vocês dois me dão pena. — Riu, o riso repleto de escárnio. — Farei você pagar, Brooke. Farei você sofrer vendo as pessoas que ama sofrerem. Você assistirá tudo e não poderá mover um único dedo para ajudar, porque você é e sempre foi uma inútil.
— Não. Desta vez será diferente. — O encarei, os olhos cheios de rancor, a voz firme e determinada. — Eu não permitirei que continue machucando pessoas inocentes. Eu me vingarei pela minha mãe, pela Spencer, e pela família do Carlos. Não digo que farei você pagar na mesma moeda, Joseph, porque, na verdade, vai ser muito pior.
— Você acha que tenho medo de você, garota? Sempre foi fraca. Nunca aguentou sequer um tapa. Agora quer dar uma de corajosa e dizer que irá me matar? — Gargalhou. — Dominic está te dando muitas esperanças. No fim, vocês dois irão morrer pelas minhas mãos.
Joseph pegou minha mãe e a forçou a olhar para a câmera. Eu senti meu coração se despedaçar em mil pedaços, tal como um vidro que é quebrado e se espalha pelo chão. A dor em seu rosto, a tristeza, a raiva, todas emoções misturadas e impregnadas. Ela estava sofrendo e não podia lutar contra ele. E eu sofria por não poder fazer nada para impedir.
Fechei minhas mãos em punhos, sentindo minhas unhas machucarem as palmas destas. Minhas bochechas começaram a arder e eu sabia que lágrimas repletas de ódio e tristeza desejavam cair, mas me recusei a deixá-las a mostra. Não choraria na frente de Joseph. Nunca mais.
— Olhe para sua filha, Eleonor. Olhe só para a inútil que você gerou. — Ele murmurava em seu ouvido, fazendo-a fechar os olhos. — Eu mandei você olhar para ela! — Ele gritou, segurando o maxilar de minha mãe com força, forçando-a a abrir os olhos. — Aprecie sua querida filha antes de vê-la morta.
Minha mãe engoliu em seco, e vi que estava lutando contra as lágrimas. Sempre tive orgulho dela pela forma como sempre aguentou tudo durante todos esses anos. E é por isso que eu lutava. Sempre foi por ela que nunca desisti. Porque eu precisava vê-la livre algum dia.
— Não é você quem vai matá-la, mas sim ela quem vai matar você. — Mamãe murmurou, enraivecida, enojada.
Joseph berrou e a socou, jogando-a no chão. Um grito cheio de raiva escapou por meus lábios, mas de nada adiantou. Ele apenas desligou a chamada, deixando-me frustrada, indignada e enraivecida. Maldito sádico, eu pensei. Maldito seja o dia em que você nasceu, Joseph!
Com raiva, joguei o travesseiro no chão e cobri o rosto com as mãos, sentindo meu corpo tremer. Não sabia dizer se era porque eu desejava chorar, ou porque estava nervosa e frustrada demais. Talvez fosse um misto de tudo. Um misto de todos os sentimentos negativos possíveis. Todos causados por aquele homem asqueroso. Deus, como eu o odiava.
Sem pensar, levantei e peguei minhas muletas. Saí apressada do quarto, decidida a dar mais um passo em minha vingança. De repente, me vi frente a porta do escritório de Dominic. Bati nesta e escutei apenas um "entre". Ao abri-la, me deparei com o rapaz sentado em uma cadeira de couro, atrás de uma enorme mesa de madeira, com papéis e mais papéis o cercando.
— Posso ajudá-la com algo, Brooke?
Sua voz, calma e paciente, de repente me fez abaixar a guarda. A tremedeira em minha mão aumentou, juntamente com uma enorme vontade de chorar. Eu me senti uma criança que queria gritar e chorar e desabafar, porém, tudo o que fiz foi suspirar e abaixar a cabeça, pensando no que fazer.
Ouvi o som de seu corpo se levantando da cadeira e de seus passos se aproximando. Logo, a sua colônia invadiu minhas narinas e a sua camiseta apareceu em meu campo de visão. Ele estava bem à minha frente, tão perto, tão... tocável.
— Aconteceu alguma coisa?
Sem sequer pensar eu me permiti deixar a minha cabeça encostar em seu peito. Uma de minhas mãos segurou a barra de sua camisa, procurando algum conforto, algo que me dissesse que tudo ficaria bem.
Dominic pareceu surpreso no primeiro momento, mas, depois, ele lentamente colocou a sua mão em minhas costas e se aproximou, envolvendo-me em seus braços. Eu escondi meu rosto em sua camisa e o abracei de volta, sentindo tudo desmoronar.
— Ele me ligou. Me fez ver minha mãe ser espancada. Ele riu do fato de eu não poder fazer nada enquanto ele quase a matava. Aquele desgraçado!
Dominic afastou o meu rosto de sua camiseta e ergueu minha cabeça lentamente, limpando as diversas lágrimas que eu ne imaginei que estavam caindo. Acariciou minha bochecha com a costa do dedo indicador e me olhou carinhosamente, parecendo querer tirar toda a minha tristeza, toda a minha dor.
— Precisamos dar um jeito de encontrá-lo e matá-lo, Dominic! Estamos parados apenas assistindo ele continuar com o seu jogo! — Supliquei com o olhar, implorando para que ele me ouvisse. — Por favor, precisamos fazer algo.
O loiro me encarou e então colocou uma mexa de cabelo atrás da minha orelha. Ele acariciou novamente a minha bochecha, fazendo o meu coração se acelerar.
— Estou cuidando disso. Daqui alguns dias estaremos mudando para Nova Iorque. É lá que conseguiremos ir atrás dele. — Ele assegurou. — Não chore, por favor. Farei de tudo para que você consiga se vingar.
— A forma como ele a socou, como cuspiu em sua cara como se ela não fosse um ser humano. O jeito como ele a jogou no chão e distribuiu vários chutes me destruiu, Dominic. Tive que assistir tudo sem poder fazer nada, assim como quando a Spencer morreu. — Chorei, sentindo meu peito se apertar ao lembrar de minha amiga. — Estou cansada de apenas olhar. Cansada de não fazer nada! Cansada de me sentir uma inútil!
— Você não é e nunca será inútil, Brooke. Você é uma mulher forte que tem aguentado tudo, assim como sua mãe. — Dominic limpou as minhas lágrimas, tão paciente, tão calmo, tão cuidadoso. — Não diga isso de si mesma. Não deixe que Joseph a diminua, quando você é simplesmente perfeita.
Eu o encarei em completa surpresa, definitivamente não esperando por tais palavras. Dominic me encarou docemente e então fez menção de se afastar, mas eu segurei em sua mão e o puxei. Mantive seu olhar, criando coragem para lhe perguntar o por que de me tratar daquela forma.
— Você realmente acredita nisso? — Questionei, de repente ansiando por sua resposta.
— Sim. Sempre acreditei.
Meu coração se acelerou novamente e logo pensamentos impróprios aparecem em minha mente, me fazendo engolir em seco enquanto encarava a boca de Dominic. A mesma boca que eu havia beijado horas atrás.
— Você está diferente... Está mais aberto. — Eu havia percebido que Dominic estava mais comunicável. Ele já não estava tão reservado.
— Só com você.
— Por quê? O que eu sou para você, Dominic?
— Você... — Ele foi interrompido pelo toque do seu celular. Acabei por me afastar, percebendo que não teria a resposta tão cedo.
Dominic me olhou uma última vez, ajudando-me a pegar as muletas que haviam caído no chão. Eu o agradeci e me dirigi para a porta, olhando para ele uma última vez. Ele manteve o meu olhar antes de se desculpar e atender a ligação. E então eu saí, deixando-o para trás, juntamente com a resposta que eu tanto ansiava.
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Atualizado até capítulo 49
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