06

Por algum motivo, ficar naquela casa era estranhamente reconfortante. Mesmo que só tenha se passado um dia desde que cheguei aqui, não consigo evitar de me sentir em paz enquanto caminho pelos corredores. Além do fato de que a maioria das janelas me fornecia vistas esplendidas de toda parte do jardim. Me surpreendi ao ver algumas árvores cortadas em formato de pessoas. Duas delas estavam frente a frente e representavam um homem e uma mulher se encarando. A delicadeza daquele lugar ainda me surpreendia.

Nas poucas vezes que caminhei pela casa, em nenhuma delas encontrei com Dominic. Ele provavelmente é um homem extremamente ocupado e que não tem tempo para nada. Honestamente, até esqueci que ele também estava aqui, pois o local foi dominado por um silêncio interminável. A única coisa que conseguia ouvir era o canto dos pássaros e os meus passos soando toda a vez que andava.

Hoje é sábado de manhã e me encontro na cozinha esperando a máquina de café terminar de fazer meu cappuccino. Mexo um pouco em meu celular, me sentindo incomodada toda a vez que olho para o trincado em sua tela. Gostaria de poder manda-lo para o conserto, mas talvez demore para ir à cidade novamente.

Ergui meu olhar até a porta da cozinha assim que ouvi passos, vendo Dominic adentrar o cômodo. Ele vestia uma camisa social branca e calça preta, juntamente com um sapato social. Seu cabelo estava preso em um coque com alguns fios soltos. Eu não podia negar que ele era incrivelmente bonito e atraente e quase me deixava hipnotizada.

O loiro apenas acenou com a cabeça e então caminhou até um dos armários, pegando um saquinho de chá. O observei em silêncio, me perguntando o porquê de ele, às vezes, parecer ser tão vazio. Em todas as vezes que o olhei ele estava sem expressão. Além disso, percebi que evita ao máximo falar. É como se precisasse apenas do silêncio em sua vida.

Desviei a minha atenção para a máquina de café, pegando a xícara assim que o cappuccino ficou pronto. Caminhei até o balcão no canto da cozinha, me sentando em um dos bancos em frente a este. Com um suspiro, abri a boca para falar.

— Eu estava caminhando um pouco pela casa, a fim de conhecê-la por mim mesma, e acabei encontrando uma biblioteca. Está tudo bem se eu pegar alguns livros emprestados?

— Fique à vontade. Esta casa também é sua. — Foi tudo o que ele disse, ainda de costas para mim.

— Você costuma ler com frequência?

— Não.

E então a conversa acabou ali. Era evidente que o rapaz não estava a fim de falar, então apenas o deixei quieto em seu próprio mundo. Degustei de meu café em silêncio, pensando em qual livro pegaria para ler. A biblioteca que mencionei era simplesmente incrível em sua grandiosidade. Havia várias e várias estantes espalhadas pelo cômodo que chegavam até o teto, com as prateleiras lotadas e divididas em gêneros. Eu tinha a certeza de que qualquer pessoa que fosse amante de livros adoraria ficar naquele lugar.

— Apenas para seu conhecimento. — Olhei novamente para o rapaz assim que o ouvi falar. — Esta noite um grupo de pessoas virá para conhece-la.

— São seus amigos?

Arqueei as sobrancelhas quando Dominic pareceu respirar fundo, como se não soubesse dizer o que aquelas pessoas eram. Pensei ter visto o rapaz engolir em seco, mas não conseguia ter certeza, afinal, ele ainda estava de costas para mim.

— Colegas de trabalho. — Ele falou, por fim. O loiro se virou para mim após finalizar o seu chá, segurando a caneca em uma das mãos. — Se estiver tudo bem para você, por favor, desça para conhecê-los.

Abri a boca para responder, mas em um piscar de olhos o rapaz havia saído do cômodo. Balancei a cabeça e então continuei o meu afazer, pensando em como seriam esses "colegas de trabalho".

...|...| ...

Acabei por acordar assustada assim que ouvi barulhos de carros no lado de fora da casa. Olhei à minha volta, vendo que estava sentada em uma das poltronas do meu quarto com um livro sob meu colo. Eu peguei no sono enquanto estava lendo. Passei a tarde toda aqui e por isso devo ter adormecido. Me espreguicei demoradamente antes de me levantar, deixando o livro em cima da mesa ao lado da poltrona.

Lembrei-me, então, sobre as pessoas das quais Dominic havia falado e agradeci por ter tomado banho mais cedo. Não queria deixá-los esperando, visto que aparentemente estavam aqui para me conhecer. A única coisa que fiz antes de descer foi escovar os dentes e arrumar alguns fios de cabelo rebeldes. Do banheiro eu conseguia ouvir as vozes vindas do andar de baixo, algumas pertencentes a homens e outras a mulheres.

Enquanto me encarava no espelho me perguntava se iria gostar deles. Mesmo que não tenha um laço forte com eles no futuro, seria interessante manter sempre uma conversa amigável com todos. Seria incômodo se houvesse algum clima estranho entre mim e essas pessoas.

Reunindo toda a coragem que possuía, saí do banheiro e caminhei até a escada, descendo essa com tranquilidade enquanto o som das vozes aumentava gradativamente. Por fim, quando cheguei no início da escada, me deparei com todos sentados nos sofás em frente a lareira, conversando animadamente. No total eram quatro homens, incluindo Neo, e duas mulheres. Imediatamente o olhar de todos os presentes se voltaram para mim, me fazendo desejar voltar para o segundo andar.

Os observei com atenção, começando por uma das garotas. Ela era branca como neve e possuía os cabelos curtos até os ombros e platinados. Seus olhos eram incrivelmente azuis e os lábios um pouco carnudos, cobertos por um batom vermelho forte. Vestia um vestido preto, curto e colado que realçava seus traços. Por cima usava um casaco branco que ia até o chão. Além de uma meia calça preta e coturnos da mesma cor.

A outra garota, que aparentava ser um pouco mais velha, vestia uma calça jeans e coturnos. Na parte de cima, uma camisa preta de mangas compridas e gola alta. Seu cabelo, também curto, era loiro escuro e estava "jogado" para o lado direito. O lado esquerdo de sua cabeça estava raspado. Ela também tinha os mesmos traços da outra garota e só então percebi que eram gêmeas.

Direcionei o olhar para o rapaz ao lado desta, vendo-o me enviar um sorriso de lado. Ele era negro, com os músculos marcados pela camisa de manga comprida. Parecia ser alto, talvez em uma altura de 1,90m. Seu cabelo era cacheado e um pouco comprido. Possuía lábios carnudos e olhos castanhos. Ao lado dele estava Neo, vestindo calças jeans azuis, camisa preta e uma jaqueta da mesma cor, além das botas. Seu cabelo castanho claro estava levemente bagunçado, talvez por causa do vento. As íris azuis me fitaram com alegria, como se ele realmente estivesse feliz em me ver.

Encarei o outro rapaz, vendo-o me olhar em completo tédio enquanto mantinha os braços cruzados. Este tinha várias tatuagens nos braços e dois piercings em cada lado da boca. Vestia roupas pretas e tinha músculos bem definidos. Também tinha a cabeça raspada em nível baixo, talvez no 2.

E por fim havia um rapaz com traços asiáticos. Possuía o cabelo preto jogado para o lado, a boca carnuda e os olhos relativamente pequenos. Percebi que tinha tatuagens ao redor do pescoço e nas mãos. Provavelmente tinha nos braços, mas não conseguia ver por causa do casaco que usava. Assim como o outro, ele também vestia roupas pretas.

Com exceção do homem de cabeça raspada e da loira, todos me encaravam com olhares amigáveis.

— Ei, então você é a garota que Dominic deve proteger! — A garota de vestido foi a primeira a falar, com sorriso de orelha a orelha estampado em sua boca. — Venha, sente-se.

— Vamos, nós não mordemos. — O rapaz negro falou em tom sarcástico, me fazendo querer revirar os olhos.

— Não seja chato, Dereck. — Neo se pronuncio, se virando para o rapaz. — Você acabou de conhecê-la, então guarde o seu sarcasmo para depois.

— Ah, pobre coitada, a garotinha não consegue lidar com um pingo de sarcasmo? — Foi a vez do homem de cabeça raspada falar, me fazendo fechar as mãos em punhos. — Parece que Dominic tem um grande fardo para carregar.

Senti minha raiva aumentar assim que ele e a loira começaram a rir com desdém, parecendo gostar das provocações.

— Por que não estou surpresa? — A garota falou, me olhando de cima a baixo com um sorriso repleto de escárnio.

— Gregory, Angelique, querem fazer o favor de calar a porra da boca? — A irmã de Angelique voltou a falar, encarando-os com desdém. — Parem de perturbá-la, caramba!

Ambos murmuraram um "vá se foder" antes de fecharem a cara em uma carranca e ficarem em silêncio. Acabei por relaxar a tensão em minhas mãos assim que ouvi passos a descerem a escada. Vi de relance Gregory revirar os olhos, como se a presença de Dominic fosse indesejada. Naquele momento, percebi que o rapaz era a última pessoa com quem tentaria fazer uma amizade.

O loiro parou ao meu lado e, por algum motivo, senti que não estava mais sozinha. O observei de soslaio, vendo que estava com a sua habitual seriedade estampada na face. Ainda estava com as mesmas roupas de hoje cedo, um sinal de que esteve o dia inteiro trancado em seu escritório. Ele levou as mãos ate as costas e suspirou, parecendo achar aquele encontro uma perda de tempo.

— Como sempre se atrasando, Dominic. Parece achar que é o centro das atenções nesta merda, não é?

Gregory provocou, me fazendo revirar os olhos. Que cara mais insuportável.

— Acho que você está errado, Gregory. O único que parece se achar o centro das atenções é você. Hoje você está sendo bem comunicativo. Quer prender a atenção da garota nova? — O rapaz asiático falou, fazendo os demais rirem.

— Por acaso acha que eu tenho um gosto tão ruim para mulheres, Shin?

Dominic suspirou mais uma vez, evidentemente incomodado. Todos voltaram a sua atenção para ele, esperando por suas palavras.

— Talvez tenha sido um erro pedir para que descesse. Dessa forma não teria que ouvir coisas desnecessárias. —Ele falava comigo, mas olhava com seriedade para Gregory. — Se está infeliz, pode apenas levantar e sair. Sua presença não é realmente necessária aqui. — Era evidente que Dominic estava impaciente, mas a forma como ele falou, com calma e elegância, me fez perceber que ele não era o tipo de cara que escolhia a briga como primeira opção. 

Dominic caminhou até um dos sofás e se sentou, cruzando os braços em seguida. Me sentei ao seu lado, desejando que aquele encontro acabasse logo. Gregory e Angelique haviam acabado com o meu bom humor e eu já não tinha mais paciência para sequer encará-los.

— Em nome desses dois idiotas nós pedimos desculpas. — A outra garota falou, enviando-me um olhar amigável. — A propósito, eu sou a Hope, aquele é o Dereck, Neo e Shin. Qual é o seu nome?

— Brooke.

— É um prazer conhece-la, Brooke.

— Digo o mesmo, Hope.

— Seja bem-vinda a equipe, Brooke. — Shin falou, sorrindo. — Parece que agora trabalharemos juntos para acabar com aquele maldito do Joseph, não é?

— Obrigada pela recepção. E sim, aparentemente sim. Vocês também estão envolvidos com ele de alguma forma?

— Todos aqui perderem uma pessoa importante por causa dele. — Hope falou. —Estamos em busca de vingança por aqueles que partiram.

Abaixei o olhar, entrelaçando os dedos em seguida. Parece que o buraco é bem mais embaixo. Não sou a única que sofreu nas mãos dele e saber disso de certa forma me assusta. Quantas pessoas foram afetadas por esse homem? O quão mau ele consegue ser?

— Eu não fazia ideia. — Suspirei, não sabendo o que falar.

— Nada surpreendente, vindo de alguém que viveu a vida inteira em sua própria bolha, achando que era a única sofrendo nas mãos daquele filho da puta. — Angelique falou, não se preocupando em esconder o desdém em cada palavra. — Já vi que não passa de mais uma egoísta que só olha para o próprio umbigo.

— "Uma egoísta"? Você acha que sabe alguma coisa sobre mim baseado em quatro palavras que eu proferi? — Ri, sentindo o meu sangue ferver. — Eu não saía por aí perguntando se alguém mais estava sofrendo por causa daquele filho da puta. Minha mãe também nunca me contou sobre nada disso, então acha que eu escolhi viver nesta "bolha"? Porque não usa um pouco o cérebro antes de me acusar de ser uma egoísta?

Nós nos encaramos e eu podia ver faíscas saindo de nossos olhares. Não deixaria uma garota qualquer me acusar de algo, muito menos agir como bem entender. Se ela quer ser babaca comigo, precisará se preparar, pois serei mil vezes pior do que ela. E isso também vale para aquele imbecil do Gregory.

Vi Hope balançar a cabeça em negação, como se sentisse vergonha da atitude da irmã. Shin coçou a cabeça, parecendo se sentir da mesma forma. Dereck cruzou os braços, evidentemente entediado e Neo me encarava com um pedido de desculpas estampado no rosto. Quando olhei de relance para Dominic, percebi que este encarava o chão. Ele aparentava estar aéreo a situação, mas algo me dizia que o rapaz era o que mais prestava atenção em nossa conversa.

— Brooke, eu... — Hope começou, mas eu a interrompi.

— Não se preocupe, Hope. Não tente se desculpar. Você não tem culpa de ser irmã dessa sem noção. — Respirei fundo, cruzando os braços. — Sei que à primeira vista posso parecer um alvo fácil para piadinhas, mas sou capaz de me defender de idiotas como esses dois, então fiquem tranquilos. Estou mais do que satisfeita em trabalhar com vocês e não mudarei de ideia tão facilmente.

Todos pareceram surpresos com minhas palavras e não posso negar que gostei daquilo. Dereck abriu um sorriso que dizia "isso será interessante" e naquele momento eu soube que muita coisa estava para acontecer. Algo me dizia que aqueles dois não facilitariam as coisas para mim e, de certa forma, eu gostava daquilo. Achava interessante a ideia de ter algum desafio de vez em quando.

Dominic se levantou de repente, começando a caminhar para fora da sala. Todos os observaram em silêncio, incluindo a mim.

— É melhor irem embora. Voltem quando estiverem dispostos a ter uma conversa decente.

E com isso ele deixou o ambiente. Em um piscar de olhos, Gregory se levantou, seguido por Angelique. Ambos saíram em meio a reclamações, fazendo todos nós revirarmos os olhos. Aparentemente eu não era a única a estar incomodada com tais atitudes infantis.

Aos poucos todos foram se despedindo. Hope me abraçou com força, dizendo que havia gostado de me conhecer e que retornaria em breve. Senti a sinceridade em suas palavras e agradeci por ser diferente de sua irmã, o que nos levou a rir.

Minutos depois eu estava sozinha, pensando nos pontos negativos e positivos daquele encontro. Por mais que sentisse que seria um inferno conviver com Gregory e Angelique, também tinha a sensação de que conseguiria me aproximar bastante dos outros quatro. Quem sabe uma amizade singela não nascesse entre nós? 

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