— Merda! Alguém me ajude!
Gritei em plenos pulmões, sentindo minha garganta arder com a extrema dificuldade em respirar. Minhas pernas também pediam socorro, pois já não aguentavam mais correr. Há quanto tempo eu estava correndo? Dez minutos? Vinte? Como eu ainda não tropecei e caí? Como minhas pernas ainda estavam funcionando?
Olhei para trás, vendo aquela silhueta se aproximar cada vez mais. Eu tinha certeza que era o mesmo indivíduo daquela noite. O desgraçado esteve me observando esse tempo todo. Ele provavelmente não me perseguiu por causa da Spencer. Maldita hora em que decidi voltar sem ela!
Senti minha garganta se fechar devido ao pânico crescente em meu corpo. Abri a boca para berrar e implorar por socorro, mas nenhum som saiu. Meus olhos se arregalaram conforme eu ouvia os passos do perseguidor se aproximarem. Assustei-me quando minhas pernas vacilaram e quase me levaram ao chão, mas por um incrível milagre eu consegui me recompor. Continuei a correr aos tropeços, porém desta vez com a velocidade reduzida. Ele estava praticamente atrás de mim. Definitivamente me alcançaria.
Esse não pode ser o meu fim. Isso não pode acabar aqui. Eu nem mesmo soquei a cara daquele homem asqueroso. Ainda não consegui expressar todo o meu ódio por ele, então por que isso está acontecendo? Por que esse maldito está me perseguindo? Por que eu tenho que morrer agora? Eu me recuso! Me recuso a aceitar essa merda de destino! Me recuso a morrer sem nem mesmo tentar!
— Socorro! Alguém me salve! Por favor, me ajudem! — Juntei toda a força que me restava e gritei o mais alto que podia, repetindo a mesma frase diversas vezes.
Como se houvessem ouvido o meu pedido, um barulho estridente soou e logo um carro se aproximou em alta velocidade. No mesmo instante minhas pernas vacilaram e eu caí, sentindo o asfalto arranhar minhas bochechas e mãos. Não tive forças para levantar e continuar correndo.
Mais uma vez um estrondo soou e desta vez pude perceber que algo havia se chocado contra o carro. Virei o corpo e me apoiei nos meus cotovelos, ainda ofegante. Olhei para o carro parado à minha frente, o mesmo daquela noite. Poderia ser uma coincidência?
— Ah, eu sabia que era você, seu merdinha. Mais uma vez você está atrapalhando meus planos.
Arregalei os olhos ao ouvir a voz do homem que me perseguia, e só então pude visualizá-lo caído no chão com o rosto cheio de sangue. Como ele ainda estava vivo depois de colidir contra o carro?
A porta do motorista foi aberta e um par de coturnos pretos surgiu. O desconhecido caminhou a passos lentos até o homem caído no chão e então se abaixou, me dando total visão de si. Meus olhos se arregalaram e minha boca se abriu ao ver que se tratava do rapaz que estava no bar. Como pode ser ele?
O perseguidor riu e então cuspiu uma boa quantidade de sangue, tossindo fortemente em seguida. Parecia que ele já não tinha muito tempo.
— Você e essa sua mania de se fazer de mudo. Isso é tão irritante. — Cuspiu mais sangue, parecendo estar prestes a engasgar com o líquido. — Pelo menos diga algo antes de me matar, filho da puta!
Um silêncio sombrio se estendeu, sendo quebrado apenas pelo som do sangue sendo cuspido no chão. O loiro apenas o observava, evidentemente desinteressado. Ele mantinha uma expressão vazia, como se não pudesse ter nenhuma emoção. Mesmo enquanto falava eu não podia sentir um único resquício de sentimentos:
— Queime no inferno.
Como se aquela fosse uma última ordem, o homem simplesmente fechou seus olhos e então caiu sem vida. Observei a cena com perplexidade, desviando a atenção para o rapaz assim que este se levantou e então caminhou em minha direção, se abaixando e ficando frente a frente comigo.
— Você se machucou?
Ele estendeu a sua mão e esperou pacientemente até que eu a segurasse. Levantei com a sua ajuda, sentindo cada parte do meu corpo doer. Não pude evitar de demonstrar o descontentamento com a dor em minha face.
— Só alguns arranhões. — Suspirei, fitando-o. — Obrigada por me ajudar.
O rapaz apenas assentiu antes de soltar a minha mão e caminhar até a porta do passageiro e a abrir. Indicou com a cabeça para que eu entrasse.
— Eu... — Comecei, perguntando-me se deveria ir ou não.
— Irei levá-la para um lugar seguro e lhe contarei tudo o que precisa saber, senhorita. —Por algum motivo, a última palavra me pareceu forçada. Ele não parece o tipo de pessoa que fala esse tipo de coisa.
— Pelo visto você me conhece. — Ele permaneceu em silêncio, ainda esperando que eu entrasse no carro. — Posso realmente confiar em você?
— Não vou obrigá-la a nada. Se quiser ficar, tudo bem, mas é bom que saiba que este não era o único idiota a segui-la. — Me encarou seriamente. — Neste momento, vários homens estão em volta da sua casa, apenas esperando pela sua chegada.
Meu corpo congelou instantaneamente e um calafrio percorreu a minha espinha. A cena formulada em minha cabeça me causava náuseas e pânico e, sem que eu percebesse, minhas pernas se moveram até o banco do passageiro. O rapaz se curvou sobre mim assim que eu sentei, pegando o cinto de segurança e o colocando. Depois, com um rápido movimento, ele se afastou e fechou a porta, dando a volta no veículo e entrando no lado do motorista. Em pouco tempo estávamos em movimento, percorrendo as ruas de Londres.
— Eu posso ao menos saber quem é você? — Mantive a firmeza em minha voz, deixando claro que aquilo não era uma opção.
— Sou a pessoa de quem sua mãe lhe falou.
...|...|...
Um suspiro de satisfação escapou por meus lábios assim que abri a porta do banheiro, sentindo minha pele refrescada e perfumada após tomar um bom e demorado banho. Balancei a cabeça levemente, sentindo algumas gotas de água caírem em meus braços. Parecia que fazia dias que eu não lavava o cabelo. A distância que percorri correndo daquele homem realmente me deixou um caos.
Para a minha sorte, o rapaz — o qual ainda não perguntei o nome — me trouxe a um luxuoso hotel. Quando chegamos no quarto, um par de roupas estavam estendidas na cama a minha espera. Ele me disse para tomar um banho antes de esclarecermos tudo. Eu só não imaginava que, depois de me banhar, me sentiria tão cansada. Não duvido de que posso acabar dormindo em pé, tamanho é o meu sono.
Acabei voltando para o quarto e nem me surpreendi ao ver Neo ali. A forma como se encontraram no bar já tinha esclarecido tudo.
— Ei, que bom ver que está a salvo! — Neo sorriu, se levantando rapidamente. Como ele conseguia ser tão animado? — Sente-se neste poltrona. Irei tratar dos seus machucados.
Concordei com a cabeça e me dirigi para a poltrona indicada, sentindo o meu corpo relaxar por completo assim que me sentei nesta. Deus, eu poderia ficar aqui para sempre.
— Não quer ir para um hospital? Lá eles poderão tratar melhor desses ferimentos. — Neo perguntou, parecendo querer ter certeza antes de começar.
— Não é necessário, são apenas arranhões. Para ser sincera, eu só quero cuidar disso e então cair na cama.
— Como desejar!
Desviei minha atenção para o loiro parado em frente a janela. Ele estava de costas para nós, com os braços cruzados enquanto observava a chuva fina que caía lá fora. Este havia tirado a sua jaqueta e pude perceber os músculos contraídos contra o tecido de sua camisa de manga comprida. Mesmo não querendo, eu precisava admitir que ele era estupidamente atraente.
— Então, você vai me dizer qual é o seu nome?
Por um momento acreditei que ele não havia escutado a minha pergunta, pois continuou imóvel e em silêncio, mas, após alguns segundos, o seu corpo se virou em minha direção e o seu olhar vazio encontrou o meu.
— Dominic.
Assenti, observando-o se sentar em uma poltrona que ficava de frente para mim. Novamente, os seus braços foram cruzados enquanto ele sustentava o meu olhar.
— Pode me contar como conhece a minha mãe?
— Estamos ligados pelo merda do seu pai. — Por mais que suas palavras sugerissem uma possível irritação de sua parte, sua voz continuou impassível, sem uma única emoção. — Digamos que sou um dos afetados por ele.
— O que ele fez a você?
— Não acho que você precise saber disso neste momento, senhorita. — Ergui as mãos, como se estivesse me rendendo, e o deixei continuar. — De qualquer forma, por algum motivo a sua mãe ficou sabendo sobre isso. E então ela me contatou. — Assenti, sentindo a minha concentração aumentar ainda mais, a ponto de me fazer esquecer que Neo estava cuidando de meus arranhões. — Mandou que um de seus subordinados me entregasse uma carta, na qual pedia para que eu aguentasse firme e me aliasse a ela.
— Subordinados?
— Sim. Sua mãe, na verdade, é uma mulher muito inteligente. Antes mesmo das agressões começarem, ela conseguiu contratar alguns homens para trabalharem para ela. Ela sabia com que tipo de homem havia se envolvido e então tomou precauções.
Como eu nunca soube disso?
— Depois de receber sua carta, nós começamos a conversar. Ela disse que sabia sobre tudo o que ele fazia comigo e prometeu me manter a salvo e livre da morte pelas mãos dele. Em troca, eu precisava fazer um favor a ela quando me tornasse adulto. — Suspirou, parecendo estar cansado de relembrar o passado. — Eu recebi a sua carta quando tinha oito anos. Desde então ela sempre me contatou, pedindo para que eu não desistisse, pois no futuro algo mudaria a minha vida. Quando finalmente cresci, ela me disse que o favor era trabalhar junto a ela e proteger a sua única filha.
— O que?
— Sua mãe me contou os seus planos de se mudar para Londres e então me pediu para cuidar de você. Há alguns dias ela me contatou, dizendo que Joseph estava mandando homens atrás de você e então eu comecei a vigiá-la.
— Então, foi você a pessoa que me salvou aquela vez, certo? — Ele assentiu. — E aquele carro parado em frente a minha casa também era seu? — Dominic repetiu o ato. — Esse tempo todo era você me vigiando por ordens da minha mãe... — Engoli em seco, incrédula com as recentes informações. — Por que ela nunca me contou?
— "Não posso correr o risco desta informação vazar. Só você e eu sabemos disso", foi o que ela me disse. Sua mãe não lhe contou, pois tinha medo de Joseph a estar vigiando sem que ela soubesse.
Sim, aquilo fazia sentido. Quando se trata daquele homem, todo o cuidado é pouco.
— Então você tem muito contato com ela? Sabe me dizer como estão as coisas?
— Não conversamos há certo tempo. Sua mãe me mandou uma série de cartas com instruções para proteger você. Posso mostrá-las depois, se quiser.
— Seria ótimo. — Suspirei, tentando não soar tão cética na minha próxima fala. — Desculpe por perguntar, mas teria mais alguma prova para me mostrar sobre a minha mãe?
Dominic retirou o seu celular do bom e começou a mexer neste, antes de entregá-lo para mim. Senti meu coração falhar uma batida assim que vi a imagem de minha mãe na tela. Ela estava em um local escuro, praticamente sem iluminação. Apenas uma pequena fresta de luz iluminava seu rosto. Apertei no meio da tela, dando play no vídeo.
— Olá, minha querida. Se está vendo esse vídeo, é sinal de que já encontrou Dominic. Sei que você deve estar confusa e cética com toda essa situação, mas não se preocupe, meu bem, ele não irá lhe fazer mal. Dominic é a única pessoa que pode lhe ajudar em Londres. Ele é o único que pode nos ajudar com a nossa vingança. — Ela respirou fundo e uma gota de suor escorreu por sua testa. Ela parecia nervosa e ansiosa para gravar o vídeo, como se Joseph estivesse prestes a chegar a qualquer momento. — Escute-me, querida, não importa o que aconteça, NÃO saia do lado de Dominic. Joseph está atrás de você e está pronto para lhe fazer as piores atrocidades possíveis. Eu pedi para o Dominic cuidar de você e é isso o que ele irá fazer. Portanto, viva com ele e, por favor, tenha paciência. — Observei mamãe engolir em seco e respirar fundo, forçando um sorriso para a câmera. — Não tenho muito tempo, por isso peço que se cuide e cuide dele também, querida. Eu amo você, meu bem.
Entreguei novamente o celular para Dominic, sentindo um turbilhão de emoções me dominar. Me levantei rapidamente, afastando Neo, e então me virei para a janela. Mamãe estava contando comigo e com Dominic. Ela estava contando com nós dois para nos vingarmos de Joseph. Não posso decepcioná-la. Não posso permitir que a sua esperança em mim desapareça.
Me virei para Dominic, lançando o meu melhor olhar de determinação. O rapaz permaneceu com a expressão vazia, mas sustentou o meu olhar, parecendo já esperar por isso.
— Se trabalharmos juntos, então nossas chances de derrotar aquele maldito serão maiores, certo? — Tudo o que recebi foi um aceno de cabeça. — Eu aceito viver com você, a fim de nos vingarmos daquele desgraçado e a fim de libertar a minha mãe.
Dominic se levantou e caminhou até mim, ainda de braços cruzados. Este parou a minha frente e se curvou levemente, visto que ele era mais alto do que eu, e murmurou em meu ouvido:
— Sugiro que descanse bem, senhorita, pois amanhã será o começo da sua nova vida.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 49
Comments