15

Achei que receberia alta rapidamente, mas o que poderia ser um dia, se tornou três. Contei os minutos enquanto ficava naquele quarto. Pedi ao Dominic para me trazer um livro que estava lendo para que eu pudesse passar o tempo. Além do livro, ele também me trouxe um novo celular, sendo este o de última geração. A principio eu recusei, dizendo que ele não precisava ter comprado o aparelho, mas vendo o estado do meu - e a forma como ele disse que era apenas um presente -, eu aceitei. 

Agora, três dias depois, eu finalmente havia recebido alta do hospital. 

Dominic e Hope estavam arrumando as coisas. Mesmo que eu tivesse "batido o pé" e pedido para ajudar, eles apenas negaram. Então, tudo o que fiz até o fim foi esperar. 

Uma enfermeira trouxe uma cadeira de rodas e Hope saiu para acertar as contas, a pedido do Dominic. Agora só restava nós dois no quarto. Eu me sentia um pouco nervosa - por um motivo que eu desconhecia -, enquanto ele mantinha aquela sua habitual inexpressão. Ele terminou de fechar a minha mala e se virou para mim, ajeitando a cadeira de rodas perto da cama. O loiro se aproximou, me ajudando a tirar o cobertor. 

— Vou precisar pegá-la no colo. Espero não deixá-la desconfortável. 

Escondi um sorriso, sentindo que Dominic nunca seria capaz de me deixar incomodada. Ele era a pessoa que eu mais confiava neste momento.

— Fique tranquilo. 

Dominic se aproximou, passando os braços por minhas pernas e por minhas costas. Eu coloquei os braços em volta do seu pescoço e engoli em seco quando ele me ergueu em seus braços firmemente, o cheiro de sua perfume inebriando as minhas narinas. Ele foi delicado enquanto me segurava e quando me colocou na cadeira, de maneira suave. Por um segundo, eu até havia esquecido que minha coxa estava machucada. 

Hope tinha me ajudado a vestir uma calça larga e uma blusa de lã de manga comprida. Agora, a minha visão era de Dominic se abaixando para calçar um coturno em meus pés. Suavemente, como sempre.

 Comecei a passar as mãos por meus cabelos, tentando deixá-los minimamente arrumados. Não queria sair do hospital parecendo uma maluca. 

Quando Dominic terminou, este veio para trás da cadeira e começou a empurrá-la. No mesmo instante, Neo apareceu, sorrindo para mim antes de ir até a minha mala e a pegar.

— Está ansiosa para ir para casa? —  Ele perguntou, animado.

— Sim, com certeza. —  Sorri, aliviada. Não aguentava mais aquele lugar.

 Nós fomos até o elevador e Dominic apertou o botão que levava ao térreo. Logo, nós estávamos nos dirigindo para o estacionamento em frente ao hospital. Olhei para o carro à minha frente, me surpreendendo ao ver que se tratava de um Mercedes-Benz CLA. Não pude evitar de ficar boquiaberta, arrancando alguns risinhos de Neo e um sorriso de Dominic. 

O loiro abriu a porta do passageiro e então, novamente, me pegou em seus braços. Me colocou no banco e se inclinou para me ajudar a prender o cinto. Senti minha respiração ficar presa na garganta e meu coração se acelerar ao tê-lo tão perto de mim. Algo definitivamente estava errado. Por que de repente eu estava me sentindo desta forma perto dele? 

Depois de fechar a porta, ele pareceu conversar algo com Neo e então deu a volta no carro, adentrando do lado do motorista. Logo, nós estávamos nas ruas de Londres. Fiquei observando as pessoas caminharem calmamente, perdidas em seu próprio mundo, em sua própria vida. Cada uma delas com a sua correria diária. 

— Como está a sua coxa? 

Me virei para Dominic, vendo-o concentrado nas ruas. Apenas dei de ombros enquanto dizia: 

—  Dói um pouco, mas nada demais. O pior já passou.

—  Se a dor ficar insuportável não hesite em me avisar.  A levarei imediatamente ao hospital. 

Assenti, de repente me perguntando o porquê dele ser atencioso - apesar da resposta já estar bem clara em minha mente -. Era tudo por minha mãe. Pelo respeito que ele tinha por ela. Pela obrigação, pelo favor que devia. Eu era apenas a filha de Eleanor, a mulher que havia salvado a vida de Dominic.

— Você sempre se preocupa com todos dessa forma? —  Ousei questionar, perguntando-me se era uma questão ousada demais.

— Não. —  Ele respondeu simplesmente. —  Algumas pessoas são... especiais. 

Assenti, virando-me para a janela novamente. Em algumas horas estaríamos em casa. Eu ansiava por minha cama. Sentia um pouco de sono e, por mais que dormisse bastante no hospital, eu não me sentia confortável. Era um lugar incômodo.

— Sabe, Dominic. —  Comecei, ainda olhando para as ruas. — Eu nunca gostei de hospitais. 

—  Posso perguntar o por quê?

Suspirei, lembrando-me dos dias terríveis de minha vida. Os dias assombrosos que criavam pesadelos incessantes em minha mente. Dias nebulosos demais para uma criança suportar.

— Porque minha mãe vivia sempre machucada. Hematomas, cortes, arranhões. E eu nunca pude levá-la a um hospital para que pudessem tratar de seus ferimentos. — Fechei os olhos, sentindo um a pontada em meu peito. — Havia dias em que ela estava caída, banhada em uma poça de sangue, gemendo e chorando de dor. Implorando para que Joseph parasse. Mas tudo o que ele fazia era desafivelar o cinto e cair sobre ela. Abusar dela e rir em meio aos seus gritos de dor e desespero. E ninguém nunca se preocupou em ajudá-la. Em tratá-la. E eu, sendo uma criança, já via imagens de minha mãe morta em minha frente.

O loiro parou o carro em um semáforo e se virou para mim e só quando ele levou uma das mãos até o meu rosto e limpou uma lágrima eu soube que estava chorando. Aquele assunto era tão delicado e me trazia lembranças e sentimentos horríveis. Lembrar de minha mãe caída em prantos e em meio a todo aquele sangue me fazia desejar estar em seu lugar, apenas para nunca vê-la sofrer. Mesmo que significasse morrer em seu lugar.

— Eu estou aqui para te ajudar a se vingar dele. —  Dominic falou, me fazendo encará-lo. —  Vou te ajudar a destruí-lo e libertar a sua mãe de toda essa monstruosidade. 

Sem que eu percebesse, eu fechei os olhos e apoiei o rosto em sua mão, sentindo-me reconfortada por ele. Ele parecia escolher perfeitamente as suas palavras. Parecia saber o que dizer nos meus momentos de fragilidade. A cada dia que se passava, eu sentia que poderia confiar cada vez mais nele. 

...|...|...

Ouvi um som repetitivo ao longe. Algo como uma batuque incessante. Aos poucos, aquele som ia aumentando conforme eu sentia meus sentidos voltarem. Abri os olhos lentamente, vendo que eu ainda estava no carro e que uma forte chuva caía sobre o veículo. Olhei para o lado, ouvindo Dominic pigarrear enquanto desviava o olhar rapidamente. Talvez fosse apenas a minha imaginação, mas suas bochechas pareciam coradas. Acho que eu, definitivamente, ainda estava dormindo.  

— Faz tempo que chegamos? —  Perguntei, a voz sonolenta. 

—  Uns quinze minutos. 

—  Por que não me acordou?

—  Você estava descansando e eu não quis atrapalhá-la. 

Suspirei, olhando para a janela. Não conseguia ver nada por causa da chuva, mas sabia que estávamos em frente a grande escada da casa. Um silêncio estranho se formou entre nós, me deixando levemente desconfortável. Peguei meu celular, abrindo as redes sociais em busca de passar o tempo, mas nada conseguia me fazer tirar a atenção do homem ao meu lado que, mesmo estando quieto, me fazia sentir um estranho frio na barriga.

— O livro que você estava lendo... —  Ele começou, me fazendo encará-lo. —  É sobre o que?

—  Ah. —  Bloqueei o celular, dando total atenção ao rapaz. —  Sobre uma mulher que é enviada para um reino desconhecido e é obrigada a casar com o príncipe deste reino. Eles se odeiam no começo, mas, aos poucos, vão se apaixonando. —  Senti minhas bochechas esquentarem ao vê-lo tão concentrado em mim. — Sei que deve achar isso meio bobo.

—  Por que eu acharia?

—  Não sei, pra ser sincera. Você tem cara de quem acha romance um gênero sem graça. —  Dei de ombros. 

Fui pega de surpresa ao ver Dominic soltar um riso baixo, desviando o olhar por alguns segundos antes de se voltar para mim. Ele havia sorrido e, Deus, aquela foi uma bela cena.  

— Não acho sem graça. Na verdade, admiro pessoas que conseguem encontrar o amor verdadeiro. 

— Você já se envolveu com alguém?

— Em um relacionamento? Não. Contudo, já saí com algumas mulheres, acho que para preencher o vazio que sinto. 

—  E deu certo?

Ele me encarou por alguns segundos e então suspirou, desviando o olhar para a chuva que caía lá fora. Dominic ficou quieto por alguns segundos, parecendo se perder em seus pensamentos. 

—  Não. — Respondeu, por fim.

Eu me identificava com Dominic. Sabia muito bem como era aquela sensação. Eu também havia passado por aquilo. Procurei homens para me satisfazerem, para preencher aquele vazio, aquela dor que eu sentia ardentemente em meu peito. Mas nunca foi o suficiente. Eu nunca consegui me sentir ''saciada''. Não era o bastante para acabar com aquela escuridão que habitava em mim. 

— Posso lhe fazer uma pergunta? —  Questionei, vendo-o assentir. 

— Ele te machucou bastante? —  Eu estava me referindo a Joseph. 

Dominic ficou quieto por alguns segundos, olhando para as mãos que estavam em seu colo. Ele suspirou, parecendo lembrar dos tempos sombrios que o assolaram. Naquele momento, eu me peguei me perguntando o que Joseph poderia ter feito com ele, a ponto de deixá-lo traumatizado em seu próprio mundo e em sua própria mente. 

— Você não faz nem ideia do quanto. —  Ele sussurrou, tirando-me de meus pensamentos.  

Senti vontade de levar a minha mão até a sua e segurá-la e dizer que eu estava ao seu lado, mas aquilo seria precipitado demais. Eu apenas engoli em seco e murmurei um ''sinto muito'', o qual foi respondido apenas com um suspiro. Dominic, então, abriu a porta do carro e só aí que percebi que a chuva havia parado. Ele deu a volta e abriu a porta para mim. Retirei o cinto rapidamente e o encarei, vendo que seria carregada por ele de novo.

— Hope irá trazer as muletas. Desculpe por ter que passar por isso. —  Ele disse enquanto me pegava em seus braços.

—  Está tudo bem, Dominic. Não se preocupe. 

Nós caminhamos silenciosamente para dentro e, assim que adentramos ao hall, eu me senti em casa novamente. Permiti que um sorriso se abrisse e suspirei aliviada por sair daquele hospital. Eu ainda ficaria um bom tempo andando com as muletas até que o ferimento cicatrizasse completamente. Para a minha sorte, Dominic contratou uma enfermeira para me ajudar neste tempo. O nome dela era Nora e, pelo o que Hope havia me contado, ela tinha por volta dos quarenta anos. Parecia ser muito educada e gentil. 

Só percebi que havíamos chegado ao meu quarto quando o loiro me colocou gentilmente em minha cama. Me ajudou a colocar a perna em cima de um travesseiro e me cobriu com o cobertor. Eu o observei, sentindo meu coração se aquecer ao ver como ele me tratava com tanta delicadeza, quase como se eu fosse preciosa. 

— Pedirei para Elizabeth preparar o seu café da manhã. 

Ele estava inexpressível novamente e senti uma pontada de decepção, mas deixei este sentimento de lado.

— Obrigada, Dominic, por se dispor a ficar comigo no hospital e por ter me carregado. Estou em dívida com você. 

— Não, eu fiz o que devia fazer. Protegê-la é a minha prioridade. 

''E obrigação'', eu pensei. 

O loiro saiu do quarto, fechando a porta enquanto eu brincava com os meus dedos. Mordi o lábio inferior enquanto me perguntava o por quê de eu estar sendo tão estranha quando me encontrava ao lado dele. Por que diabos eu estava esperando que Dominic se preocupasse comigo? Digo, é tudo pela minha mãe! 

Eu... eu não significo nada para ele. 

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