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Terminei de colocar meu vestido, encarando-me no espelho enquanto fazia uma trança em meus cabelos. Observei a minha expressão indiferente, lembrando-me dos momentos bons que tive em minha vida ao lado de minha mãe, Spencer e Nancy.

Hoje fazia um mês da morte de Spencer. Eu não sabia muito bem o que pensar e como reagir. Eu só me sentia amargurada. A dor do luto não passava, obviamente, embora eu ainda estivesse aprendendo a lidar com ela aos poucos. Isso é tudo o que me resta, pois, infelizmente, nunca mais terei minha amiga de volta.

As coisas têm sido calmas demais desde então. Dominic e eu continuamos um pouco distantes, mas não tanto quanto antes. Às vezes conversamos um pouco. Percebo que ele evita perguntar de Spencer, acho que com receio de me trazer as dolorosas lembranças. Percebi, também, que ele é uma pessoa empática. Às vezes o encontrava me encarando, como se quisesse ter certeza de que eu estava bem. Eu me sentia mais confortável com sua aparente preocupação. Obviamente eu não descartava a ideia de que, na verdade, ele estava apenas me monitorando para contar os detalhes a minha mãe, afinal, ele foi ''contratado'' para me proteger.

Terminei a trança, olhando uma última vez para o vestido branco florido, com alças caídas. O comprimento caía um pouco abaixo do joelho, e realçava a minha cintura. Eu o achei em meu guarda-roupa e me perguntei se Dominic havia comprado aquilo, ou se teve ajuda de alguém. De qualquer forma, não podia negar que era absurdamente lindo.

Peguei o meu celular, vendo que não passava das 9h. Talvez eu devesse dar uma caminhada pelo jardim?

Saí do quarto e caminhei pelo corredor até a escada, ouvindo apenas o som de meus passos. Aquela casa era tão grande e me transmitia a sensação de paz, mas, em certos momentos, eu me sentia solitária. Sentia falta de conversar com alguém. Estava acostumada a conversar com Spencer nas horas que me sentia sozinha, mas agora já não posso fazer isso. Eu também não tenho mantido contato com Nancy. Da última vez que mandei mensagem, ela disse que estava se mudando de Londres e que precisava de um tempo para processar tudo o que havia acontecido. Tudo o que me restou foi Dominic e o meu desejo de vingança pela morte de Spencer.

Saí da casa e desci as escadas, indo para o imenso jardim. Caminhei entre as árvores podadas em diversos formatos e respirei fundo, sentindo uma pontada de tristeza.

O céu estava nublado, com indícios de chuva. Eu queria aproveitar e respirar um pouco de ar fresco, pois estava cansada de permanecer trancafiada dentro de casa. Acabei por sentar em um banco e encarar a grama, pensando no que poderia acontecer de agora em diante. Dominic não comentava nada sobre nos vingarmos de Joseph. Era como se ele estivesse esperando o momento certo. Eu também não o questionei sobre isso, pois, honestamente, ainda não sabia por onde começar. Mesmo guardando um imenso ódio, eu ainda precisava de tempo para planejar meus passos.

Engoli em seco, encarando meu celular. Abri a galeria, procurando uma antiga foto que eu e Spencer tiramos. Eu registrei o momento, enquanto ela fazia o sinal de ''v'' com as duas mãos e sorria de orelha a orelha com uma alegria contagiante. Senti uma pontada de dor ao ver a imagem.

— Eu sinto tanto a sua falta, Spencer...

Meus olhos arderam e só então percebi que estava chorando. Neste momento, gotas de água começaram a cair sobre mim, frias e amarguradas. Era como se os céus chorassem pela morte de minha amiga. É estranho, eu sei, mas não conseguia deixar de pensar nisso. Eu sentia a dor em cada gota de chuva e permiti que estas se misturassem com as minhas lágrimas.

Permaneci sentada, sendo encharcada pela água. Eu parecia uma doida - e suspeitava que talvez estivesse me tornando uma -, mas já não me importava mais. Honestamente, a vida parecia não ter sentido às vezes. Talvez eu precisasse daquilo. Me forcei, desde o dia do enterro de Spencer, a me manter firme e não chorar, mas eu sentia que estava enlouquecendo. Eu não havia conversado com minha mãe desde então e, por mais que Dominic conversasse comigo às vezes, ele era distante e um pouco indiferente. Eu me sentia tão sozinha e queria que alguém pudesse me ouvir. Aquela solidão estava me sufocando.

Foi então que uma sombra pairou sobre mim e, de repente, eu já não estava sendo atingida pelas gotas de água. Ousei levantar o olhar, me surpreendendo ao ver Dominic em pé com um guarda-chuva em mãos, me protegendo da chuva.

— O que está fazendo? — Questionei.

— Sinto que sou eu quem devo perguntar isso. — Ele permaneceu sério. — Você irá pegar um resfriado se continuar aqui.

— Não é como se eu me importasse. — Suspirei. — Eu só queria respirar ar fresco.

— Compreendo. — Ele permaneceu alguns segundos quieto, parecendo pensar no que falar a seguir. — Por que não entra e toma um banho? Posso preparar um chá se quiser, senho...

O interrompi, me levantando abrupdamente.

— Chega com essa formalidade, Dominic! Estamos morando juntos há praticamente dois meses. Por que não pode me chamar pelo nome? Eu já pedi que o fizesse!

Ele permaneceu quieto, mantendo a expressão indiferente. Por algum motivo, aquilo estava me irritando. Por que ele tinha que ser tão calmo?

— Tanto faz. Não é como se você ligasse, não é? Só está fazendo o seu trabalho de me proteger.— Ri, sentindo-me um pouco triste. — Acho que me enganei ao pensar que poderíamos ser amigos.

Comecei a caminhar, deixando-o para trás, mas me surpreendi ao sentir sua mão segurar em meu pulso, me impedindo de continuar. Virei para encará-lo, sentindo as gotas de chuva me atingirem novamente.

— O que houve? Você parece decepcionada.

— Só estou cansada de me sentir sozinha. — Comecei, rindo secamente. — Minha melhor amiga morreu enquanto eu assistia sem poder fazer nada. Vi a garota que ela gostava chorar desesperadamente bem diante dos meus olhos e também não pude fazer nada para consolá-la. Ela até mesmo se mudou de Londres e não mantém mais contato comigo. Não conversei com a minha mãe nesse último mês e isso me deixa angustiada. — Desabafei, com a voz chorosa. — Nós dois, Dominic, quase não conversamos. Eu me sinto sozinha. É doloroso querer desabafar e não ter ninguém fazer isso. Estou acumulando minhas dores dentro do meu peito, sem poder colocar para fora.

Nós nos encaramos em completo silêncio. Eu não sabia o que se passava pela mente de Dominic. Ele não tinha expressão. Não sabia dizer se ele sentia pena ou raiva de mim, pois simplesmente não deixava nenhum sentimento transparecer.

Cansada de permanecer ali, me soltei do seu aperto e andei rapidamente para dentro da casa, deixando-o para trás. Não sabia se havia feito certo em dizer todas aquelas coisas, mas, sinceramente, não me arrependia. Eu acho que ele precisava saber como eu me sentia. Precisava saber que, apesar de eu me manter firme na maior parte do tempo, eu também estava sofrendo. Não esperava que ele me consolasse como um bebê, mas que ao menos me ouvisse, como um amigo.

Acho que errei em pensar que isso poderia acontecer. Ele não me vê como uma amiga, mas sim como ''um produto'' que deva proteger.

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