Estava tudo escuro. Eu me sentia inebriada, incapaz de falar, me mover e sequer pensar. Tudo parecia um vazio sem fim. Uma escuridão inacabável. Como se, mesmo que eu corresse para encontrar uma luz, eu não conseguisse. Como se fosse algo impossível. Mas eu ouvia vozes. Mesmo que estivessem distantes, eu as ouvia e aquilo me deixou um pouco feliz. Eu não estava sozinha.
Parecia-se com um homem e uma mulher, mas eu não conseguia distinguir a quem pertenciam. Eu ainda me sentia tão malditamente cansada, apesar de não sentir nenhuma dor. Apesar de ter lembranças daquele homem cravando a faca em minha coxa. Tudo era apenas um breu. Algo distante, turvo e sem sentido. Minha mente estava um caos, e eu não sabia distinguir o que era verdade e o que era uma ilusão.
— Como ela está? — Era a voz de uma mulher.
— Bem, segundo os médicos. — Desta vez, uma voz masculina soou.
— Me desculpe pela Angelique, ela... — A mulher suspirou. — Eu sinceramente não sei o que se passa na cabeça dela.
— Não se desculpe. Eu me encarreguei de ter uma boa conversa com ela.
Tentei ouvir o restante da conversa, mas lentamente a escuridão voltou a se aproximar, a querer me engolir e me levar para longe. Eu permaneci imóvel, assim como antes, e me deixei ser levada. Aos poucos, as vozes foram sumindo, dando lugar a uma calmaria quase sufocante.
...|...|...
Abri os olhos lentamente, piscando algumas vezes para tentar me acostumar com a pouca iluminação que havia no quarto. Encarei o teto, sentindo tudo à minha volta girar, quase me levando a fechas as pálpebras novamente. Depois de respirar fundo e contar até dez, eu passei o olhar pelo quarto, observando cada detalhe.
Eu estava em um quarto de hospital. Paredes cor de creme. Uma poltrona e uma mesa de canto. A minha cama estava no centro e havia uma porta a esquerda que provavelmente levava ao banheiro. E havia alguém ao meu lado.
Encarei, um pouco surpresa, o rapaz deitado sobre os braços ao meu lado. Seu rosto estava virado para o outro lado, mas a sua mão estava próxima da minha, praticamente a tocando. Passei os olhos por ele. Por seus cabelos loiros, sempre presos em um coque. Em seu sobretudo preto que sempre lhe caía tão bem. Prestei atenção na movimentação de suas costas, subindo e descendo lentamente. Tudo nele parecia tão estupidamente bonito, todo gesto, palavra, movimento. Ele não parecia ser real, mas era, e estava bem ao meu lado.
Movi um pouco a minha mão, roçando lentamente meu dedo indicador nas costas da sua. Dominic permaneceu imóvel e eu senti um alívio, de certa forma. Aos poucos, devagar, eu coloquei a minha mão sobre a sua, me esforçando ao máximo para que ele não acordasse com o toque. Percebi como a minha era pequena em comparação a sua. E ela era tão quente, tão acolhedora. De repente me peguei pensando em como gostaria de segurá-la mais vezes.
Flashbacks de quando eu levei a facada me vieram a tona, assim como o olhar desesperado do rapaz. Ele me olhava assustado, como se tivesse medo de me perder. Como se eu fosse valiosa demais para ele. Será que eu estava imaginando demais?
Ele sempre me tratou tão bem, mas sempre foi por causa do favor que devia a minha mãe. Ele se sentia em dívida com ela. Dominic estava fazendo aquilo porque sabia que não podia me deixar morrer. Ele me olhou com todo aquele desespero porque sabia que eu era valiosa para minha mãe, mas não para ele. Eu sou apenas uma desconhecida que entrou em sua vida.
Suspirei, sentindo-me triste - por algum estranho motivo -, e afastei a minha mão da sua, mas acabei por me assustar quando Dominic a segurou de volta. Meu coração se acelerou e eu senti que este pularia para fora da minha boca. O rapaz levantou a cabeça e me encarou, os olhos pequenos por causa do sono.
— Me perdoe por tê-lo acordado. — Mordi o lábio inferior, sentindo-me evidentemente envergonhada.
— Você me deixou tão preocupado. — Ele sussurrou, e o meu coração falhou uma batida.
Nós nos encaramos por alguns segundos antes que eu desviasse o olhar para as nossas mãos, não sabendo exatamente o que dizer.
— Eu errei em não ficar ao seu lado. Desculpe.
— Não foi sua culpa. Eu não a protegi. — Ele parecia irritado consigo mesmo. — Falhei em te manter em segurança.
Sem hesitar eu apertei a sua mão, tentando tranquiliza-lo. Eu estava viva. Estava bem. Isso que importava.
— Não se preocupe, Dominic. Sei que estava preocupado com a minha mãe, mas felizmente estou bem.
— Não foi só pela sua mãe.
Pisquei os olhos algumas vezes, um pouco surpresa. Ele foi tão direto, tão convicto. Seria possível que Dominic realmente se importasse comigo além do que minha mãe havia pedido?
O rapaz suspirou, olhou para nossas mãos por alguns segundos e então se afastou, se levantando e caminhando até a porta. Ele a abriu e permaneceu de costas enquanto dizia:
— Vou avisar o médico que você acordou.
E então ele saiu, me deixando sozinha com meus pensamentos.
...|...| ...
— Por Deus, eu estava tão preocupada!
Hope me envolveu em um abraço caloroso, o qual eu retribuí. Os demais estavam ali, menos Angelique e Gregory.
— Nós ficamos preocupados, Brooke. — Neo falou, a tristeza estampada em seu rosto.
— Não nos assuste desse jeito. — Shin disse, sorrindo de lado.
— Estamos felizes em te ver bem, gata. — Dereck abriu um sorriso caloroso antes de passar a mão por meus cabelos.
Eu senti o meu coração se aquecer ao ver todos eles ali por mim. Eu sabia que estavam preocupados comigo. Sabia que tinham se assustado quando me viram ser pega por aquele homem e, principalmente, quando me viram cair. De certa forma, eu sentia que eles eram como uma família. Eu não via más intenções em nenhum deles. Hope era tão gentil e carinhosa. Neo, apesar de no começo eu ter interpretado mal, era uma pessoa simpática e muito preocupada com o bem estar dos amigos, e Shin era alguém que parecia disposto a dar a vida por alguém. E Dereck, apesar de ter todo esse jeito de galã conquistador, demonstrava preocupação com todos - obviamente do seu jeito - .
Olhei para o lado, vendo Dominic nos encarar. Ele mantinha os braços cruzados e o olhar em mim e em Dereck. Por que ele sempre parecia estar com um pé atrás quando se tratava de nós dois juntos?
— Quando você vai receber alta? — Neo perguntou, se aproximando.
— Acho que amanhã. — Os encarei antes de criar coragem para lhes perguntar algo. — E sobre a família do Carlos?
Todos se entreolharam, evidentemente tristes. Eu havia tocado em uma ferida profunda e dolorosa.
— Eu cuidei do funeral enquanto você estava inconsciente. — Hope se pronunciou. — Dominic ficou aqui e eu cuidei de tudo. Eles tiveram algo digno, depois da forma cruel como partiram.
Eu senti meu peito doer ao lembrar da cena e dos corpos e da forma como eles pareciam horrorizados. Não me atrevi a ver como Carlos estava, pois sabia que seria ainda pior do que a sua mulher e sua filha.
Eu não podia negar que me sentia culpada. Tão, mas tão culpada. Eu queria ter feito algo para impedir. Queria ter sido útil e salvado a vida daquelas pessoas. Mas tudo o que fiz foi vê-los em seu pior estado, sem poder fazer nada para trazê-los de volta, sem poder fazer nada para me redimir.
Às vezes eu sentia que a vida era cruel demais.
— Não se culpe, gata. Você não tem nada a ver com aquele desgraçado.
Fui tirada de meus devaneios pelo sussurro de Dereck, que sorriu de lado, parecendo querer me reconfortar. Tudo o que fiz foi assentir, desviando o olhar para Dominic, que agora se encontrava em pé e virado para a janela. Aquele assunto o machucava também. Eu sabia disso.
— Obrigada por ter feito isso, Hope. — Agradeci, recebendo um olhar gentil em troca.
— Bom, pessoal, acho melhor deixarmos a Brooke sozinha. Ela ainda precisa descansar. — Shin falou, levando todos para fora. — Descanse, Brooke, para poder nos aguentar mais tarde.
Acabei por rir baixinho ao ver todos saindo enquanto soltavam algumas reclamações. Apenas Dominic permaneceu impassível, estagnado no mesmo lugar. Eu o encarei, sentindo um misto de emoções surgir em meu peito. Tristeza, angustia, raiva. Tantas coisas. Tantas emoções negativas. Eu me sentia sobrecarregada.
— Me perdoe. — Eu pedi.
— Pelo o que?
Ele se manteve de costas. A voz inexpressiva.
— Por tudo o que ele fez. Por ele ter tirado a vida do Carlos e sua família.
Eu estava me referindo a Joseph. Mesmo que não fosse eu a pessoa que tivesse tirado a vida daquelas pessoas, eu me sentia na obrigação de, ao menos, me desculpar, mesmo que aquilo não fosse trazer ninguém de volta.
— Eu não a culpo por nada. Você é tão inocente quanto eles.
— Mas eles eram pessoas importantes para você!
— E você também é.
Meu coração parou e por um minuto eu esqueci como era respirar. Dominic se virou, se aproximando aos poucos. Ele estava sério, mas, no fundo, eu via que estava escondendo a sua tristeza. Ele era tão bom em mascarar os seus sentimentos. O quanto ele estava guardando dentro de si?
— Mesmo que eu não tenha matado ninguém, eu ainda me sinto mal. Saber que a pessoa que faz isso é a mesma que me gerou me causa náuseas. — Respirei fundo, brincando com meus dedos. — Sabe, Dominic, foi difícil ver a Spencer morrer sem poder fazer nada. Eu... Eu queria me redimir com o Carlos. Queria fazer algo para impedir que ele e a família fosse mais uma de suas vítimas. E no fim, eles morreram da mesma forma. Eu me sinto impotente. Fraca. Como se não fosse capaz de impedir nada. Pedir perdão é tudo o que me resta.
Nós nos encaramos e eu vi faíscas surgirem em nossos olhos. Algo quente, ardente. Algo que jamais vi antes. Dominic estava tão sério, mas, ao mesmo tempo, parecia querer dizer as mais belas palavras. Ele parecia estar acorrentado a si mesmo. Preso em sua própria mente, em seu próprio coração.
— O mundo é um lugar injusto e cruel. — Ele começou, desviando o olhar para algum canto do quarto. — Eu também queria salvá-los. Eu ansiava por vê-los vivos. Mas entendi que não podia fazer nada quando vi seus corpos. Aquele era o fim. — Seu olhar se voltou para mim. — E então, quando aquele homem a agarrou e colocou a faca em seu pescoço, eu senti que tudo iria acabar. Que toda a razão da vingança estaria a um corte de distância. E eu também me senti impotente ao vê-la cair no chão com aquela faca cravada na coxa. Eu achei que iria te perder.
Engoli em seco, abaixando o olhar para as minhas mãos. Nós dois estávamos sofrendo com aquilo. Ambos com a sensação de que não poderíamos fazer nada, de que nada estava ao nosso alcance. Ele me entendia e eu o entendia.
— Não quero me permitir morrer Dominic, não agora. Não antes de matar aquele homem. — Comecei, atraindo a sua atenção. — Eu não descansarei em paz até vê-lo morto. Mesmo que me enfiem mil facas, eu irei até ele e o matarei.
— Você não irá morrer, não enquanto estiver comigo. — Ele murmurou, abaixando o olhar para minha mão. Só então eu vi que ele estava prestes a segurá-la com a sua. — E nunca enfiarão mil facas em você, porque eu irei protegê-la.
O rapaz, então, fez menção de se afastar e eu, em um rápido movimento, segurei a sua mão. Nós nos olhamos, e novamente vi aquelas faíscas. Mas algo estava diferente desta vez. Eu sentia que aquelas faíscas estavam chegando até o meu coração lentamente, rodeando-o e o abraçando. Era reconfortante, especialmente porque se tratava de Dominic. Porque era o Dominic.
— Vamos matá-lo. Juntos nós iremos destruí-lo. — Falei, sentindo a determinação e o desejo de vingança me dominar.
O loiro me olhou e vi, mesmo que por uma fração de segundos, um lampejo de admiração passar por seus olhos. Ele assentiu lentamente com a cabeça, apertando minha mão uma última vez antes de soltá-la. E, por algum motivo, eu imediatamente senti falta do seu toque.
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Atualizado até capítulo 49
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