Não consegui dormir na noite passada. Nem sequer um mísero segundo. Mesmo que eu tentasse me forçar, minhas pálpebras não se mexiam. Como consequência eu me sentia extremamente cansada e parecia que a qualquer momento iria cair. Tomei a minha dose diária de café e esfreguei os olhos, tentando me manter acordada.
Senti uma mão segurar a minha e lembrei que Spencer estava aqui, olhando-me com demasiada preocupação. Já havia contado o ocorrido da noite passada e me surpreendi assim que a garota apareceu na minha porta as cinco horas da manhã, enchendo-me de perguntas.
— Por que não fica em casa hoje? Posso falar com a Jean e dizer que você não está se sentindo bem.
— Eu adoraria, mas já estou ferrada o suficiente. Jean certamente vai achar que é uma desculpa para não trabalhar.
— Mas, Brooke...
— Eu consigo, Spencer. Não é a primeira vez que fico uma noite sem dormir.
Spencer assentiu, ainda relutante. Esta me enviou um olhar solidário enquanto falava:
— Bom, de qualquer forma, hoje lhe farei companhia. Não quero que volte sozinha para casa.
— Você não precisa fazer isso.
— Preciso, sim. Não vou te deixar sozinha depois do ocorrido de ontem. Que tipo de amiga eu seria se fizesse isso?
Encarei Spencer com uma leve surpresa. Eu imaginava que ela seria esse tipo de pessoa, mas certamente com um amigo de longa data, não comigo. Não posso deixar de negar que a sua demonstração me deixou feliz e agradecida. Era bom saber que alguém, além de minha mãe, se preocupava com a minha segurança.
Cedendo a ela, sorri e assenti com a cabeça. Nós terminamos de tomar o café da manhã e então pegamos os nossos casacos e saímos para o trabalho.
...|...|...
A caminhada até a cafeteria havia sido silenciosa, exceto pelos momentos em que Spencer tentara puxar algum assunto, a fim de amenizar o clima. Mas por mais que tentasse focar no que a garota falava, algo me impedia. O medo que senti na noite passada ainda percorria meus ossos e me fazia estremecer toda a vez que me lembrava de como cada segundo pareceu uma eternidade.
Além de recordar do homem que me perseguia, eu também não conseguia evitar de pensar na pessoa que havia me salvado. Sentia meu corpo formigar sempre que tentava imaginar o que aquela pessoa estava pensando e o porquê de não me deixar visualizá-la para, ao menos, agradecer. De alguma forma, sentia que estava em dívida com ele ou com ela. Nem sequer conseguia saber se tratava-se de um homem ou uma mulher.
Comentei com Spencer sobre isso e pude notar que ela também havia ficado agradecida pela ajuda desconhecida. Eu disse a ela que, se tivesse a oportunidade, gostaria de encontrar esta pessoa novamente para poder me expressar devidamente. Sentia que, enquanto não fizesse isso, não estaria em paz. Mas, sendo realista, quais são as chances de encontrar esta pessoa novamente? Tamanha coincidência não aconteceria.
Não pude deixar de perceber o olhar preocupado de Spencer. Às vezes me perguntava se eu merecia toda a sua preocupação. Por mais que ela seja a minha amiga que mais tenho "intimidade" desde que cheguei aqui, sinto que não sou digna de sua confiança. Spencer parece ser sempre tão verdadeira e simplória comigo e eu simplesmente não consigo retribuir da mesma forma. Estou, na maioria das vezes, tentando ao máximo não dar detalhes sobre a minha vida. Ninguém precisa saber do meu inferno pessoal.
Aprendi a ser este tipo de pessoa. Aprendi a não confiar em ninguém, muito menos abaixar a guarda para qualquer um em qualquer situação. Entendi, por meio dos acontecimentos, que não importante a situação, eu jamais devo me deixar abater. Ninguém pode saber das minhas fraquezas.
Fechei as mãos em punhos, respirando com cautela de forma que tentava disfarçar como lembrar do passado me afetava. Eu estava nos fundos da cafeteria, encostada a uma parede. O local estava praticamente vazio, o que me dava espaço para "relaxar" um pouco. Estaria muito melhor relaxando em minha cama.
Peguei meu celular, verificando se havia uma nova mensagem de minha mãe. Meu peito se apertou ao ver que não possuía nem uma notificação. A saudade me preencheu e quase me fez apertar o botão que iniciava uma chamada, mas, por sorte, consegui me controlar. Sabia que poderia complicar a sua situação caso ligasse de repente. Aquele maldito a vigiava noite e dia.
Pensar nisso fez toda a minha raiva de anos surgir, lembrando-me também da perseguição. De repente, percebi que não poderia morrer, pelo menos não agora. Não posso morrer e permitir que minha mãe continue sofrendo nas mãos daquele maníaco. Antes de partir eu devo libertá-la e dar a ela a felicidade que lhe foi tirada.
Neste momento de reflexão eu percebo que nunca, de fato, dei muito valor a vida que tenho. Crescer vendo sua mãe sendo espancada, ouvindo os berros e pedidos desesperados de socorro fazem você perceber o quão difícil é permanecer neste mundo, com pessoas extremamente perversas. Não há vontade de viver.
— Sempre que a pego em momentos assim, tão séria e pensativa, me pergunto que tipo de acontecimentos a deixaram tão abatida.
A voz de Spencer me fez voltar a realidade e eu a encarei com indiferença, mandando embora todo o traço da raiva que sentia.
— Não estou abatida.
— Sua expressão dizia o contrário. E a forma como está segurando o seu celular com tanta força que parece que vai parti-lo ao meio também. — Me enviou um olhar solidário. — Eu não sei o seu passado, Brooke, e não sei também que pensamentos a assolam no presente, mas saiba que, se precisar de um ombro amigo, eu sempre estarei aqui.
Novamente senti o meu peito se apertar ao ouvir tais palavras. Não estava acostumada a ser tratada com tanto carinho por alguém, exceto minha mãe. É algo novo demais para mim.
— Eu... — Suspirei, balançando a cabeça sem saber o que dizer. — Eu agradeço pela preocupação, Spencer. Sei que às vezes tenho atitudes estranhas, mas está tudo bem. Não se preocupe.
O olhar que a garota me enviou não parecia nada convencido, mas, se ela realmente estava desconfiada, não falou mais nada. Apenas sorriu amigavelmente e concordou, encerrando o assunto.
Nos viramos em direção a frente da cafeteria e foi nesse momento que percebi que estava sendo observada. Um rapaz estava parado com uma das mãos sob o balcão, os olhos presos em mim de uma forma calma e calculada. As íris azuis que me fitavam eram hipnotizantes, mas, no fundo, me alertavam sobre um enigma. Algo que eu definitivamente não deveria tentar entender.
Arqueei as sobrancelhas assim que a expressão do rapaz mudou em um segundo, tornando-se gentil e sorridente. Este acenou enquanto dizia amigavelmente:
— Desculpe por bisbilhotar. Eu não queria atrapalhar a conversa.
— Não se desculpe. Nós fomos descuidadas e não percebemos a sua presença. — Spencer tomou as rédeas e se desculpou. — O que deseja, senhor?
— Ah, não me chame de senhor, por favor. Eu não sou tão velho assim. — O rapaz brincou, gargalhando. — Pode me chamar de Neo.
— Ok, Neo. Chamo-me Spencer.
— É um nome muito bonito, se me permite dizer.
Parei de prestar atenção na conversa, pois a maneira como Neo me olhava ainda estava impregnada em minha mente. Talvez eu estivesse sendo cética demais. Mas eu sentia que aquele não era um olhar comum. Era um olhar de alguém que sabia de algo.
Continuei encarando o rapaz com seriedade, fazendo-o me encarar de volta. Ele ainda estava com aquela expressão gentil e sem graça de alguém que havia sido pego no pulo. Parecia tão inocente e encantador aos olhos de qualquer um, menos dos meus.
Teorias começaram a e formar na minha mente, deixando-me em estado de alerta. Ele não trabalhava para Joseph, não é? Qual poderia ser a chance daquele maldito enviar alguém para me espiar tão descaradamente? Se Neo realmente for um de seus subordinados, o que devo fazer? Talvez eu esteja em perigo a partir de agora? E se Spencer estiver em perigo?
Senti minhas mãos começarem a tremer, mas as fechei com todas as minhas forças, me negando a demonstrar medo. Não posso deixá-lo perceber que estou desconfiada. Preciso ser cautelosa.
— Talvez seja melhor eu ir embora.
Pisquei algumas vezes, voltando a prestar atenção na conversa dos dois à minha frente.
— Por quê? — Spencer indagou, confusa.
— Sua amiga está me olhando como se quisesse me matar. Acho que não sou bem-vindo aqui.
Spencer se virou para me encarar, franzindo as sobrancelhas em uma confusão inocente que me fez repensar em minhas atitudes. Eu estou sendo cética demais? Talvez tudo tenha sido apenas a minha imaginação?
— Brooke? Está tudo bem?
— Sim, eu só... — Abri a boca e a fechei, não sabendo o que falar. — Preciso de um minuto.
Não esperei por uma resposta, apenas me dirigi para a porta dos fundos da cafeteria. Assim que saí, inspirei uma grande quantidade de ar enquanto me encostava a parede. Eu sentia que toda a minha desconfiança poderia me levar a loucura.
...|...|...
— Mas que merda!
Um grito involuntário escapou por meus lábios enquanto eu me permitia cair sentada no chão de meu quarto. Sabia que não deveria estar gritando a esta hora da noite, visto que já se passava das 22h, mas eu simplesmente não conseguia esconder a minha frustração. Me sentia tão sobrecarregada, tanto mentalmente quanto fisicamente.
Spencer estava no banho há mais ou menos 10 minutos, o que me dava tempo para pensar no que tanto me preocupava. Me perguntava por que não conseguia esquecer do olhar de Neo, muito menos da pessoa que havia me salvado na noite anterior. Meu cérebro estava a milhão e eu não conseguia simplesmente sentar e tentar me tranquilizar. Algo me preocupava, me deixava nervosa e frustrada.
Enquanto Spencer e eu voltávamos para casa, senti que estava sendo observada. Não pude evitar de olhar para trás algumas vezes, atraindo a atenção da garota ao meu lado. Me culpei por deixá-la preocupada, mas naquele momento eu sabia que não podia ser descuidada. Mesmo não avistando ninguém, sentia que algo não estava certo.
Em determinado momento da caminhada comecei a ouvir passos atrás de nós, tal como na noite passada. Meu coração disparou e, em um ato súbito, me virei e parei, observando tudo ao nosso redor cautelosamente, apenas para encontrar uma rua escura e vazia. Depois disso comecei a me perguntar se estava ficando louca.
Spencer disse que poderia ser culpa da falta de descanso. Talvez a exaustão estivesse me fazendo ouvir coisas. Um lado meu queria acreditar fielmente naquilo, mas outro me dizia que não poderia ser algo tão "simples" assim.
Respirei fundo e me levantei, caminhando até a escrivaninha que ficava em frente a janela do quarto. Fitei o frasco de comprimidos para insônia que havia encontrado há poucos minutos, por fim pegando-o e retirando a tampa. Joguei um comprido sob minha mão e então alcancei a jarra de água que sempre deixava ali, despejando um pouco do líquido no copo. Observei a rua deserta à minha frente enquanto engolia o comprimido, sentindo um repentino frio na barriga.
Pousei o copo vazio em cima da madeira e me inclinei para a janela, estreitando os olhos para um carro parado a certa distância. Por algum motivo sentia que o veículo era familiar. Sim, de fato eu já o tinha visto antes, mas quando e onde?
O frio na barriga se tornou mais intenso à medida que eu observava melhor o carro, percebendo que alguém se encontrava no banco do motorista. E por um estranho motivo, eu tinha a impressão de que esta pessoa estava olhando diretamente para mim.
Meu instinto me fez alcançar o meu celular e discar o número da polícia. Algo definitivamente não estava certo. E eu provavelmente deveria tomar alguma providência antes que seja tarde demais. Sendo assim, levei o telefone ao ouvido, mas fui pega de surpresa assim que o carro deu partida e saiu rapidamente, deixando-me encarando o nada.
Desliguei a chamada e joguei o celular sobre a escrivaninha, levando as mãos aos cabelos e os segurando com força. Eu odiava aquela maldita sensação de estar sendo observada. Odiava me sentir perseguida e abominava ainda mais a ideia de me sentir louca.
Cambaleei para trás e me permiti cair na cama, sentindo a sonolência me dominar. Encarei a luz da lua que adentrava pela janela, me perguntando o porque de toda essa merda estar acontecendo. Poderia, realmente, ser tudo obra da minha imaginação? Estou ficando maluca? Ou talvez tudo não passe de um jogo psicológico organizado por alguém?
Tentei manter as pálpebras abertas enquanto tentava me decidir quais das opções faziam mais sentido, mas não obtive sucesso. Lentamente meus olhos se fecharam e todas as minhas preocupações desapareceram.
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Atualizado até capítulo 49
Comments
emi_sunflower_skr
Eu amo a história, mas preciso saber o que acontece no próximo capítulo!
2024-06-20
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