Me virei para a torradeira assim que esta apitou, levantando as torradas para avisar que estas estavam prontas. Com uma das mãos abri o armário e alcancei um prato. Com a outra, levei a xícara de café a boca. Estalei a língua em satisfação ao sentir a bebida forte e sem açúcar descer por minha garganta. Nada melhor do que um café forte para começar a semana.
Coloquei as torradas no prato e me sentei à mesa, ouvindo o noticiário enquanto continuava a beber minha bebida. Uma leve chuva caía do lado de fora, me fazendo resmungar mentalmente. Teria que providenciar um guarda-chuva, visto que o meu antigo foi esquecido em algum lugar. Talvez eu devesse comprar uma capa para chuva. Odiava carregar coisas, ainda mais um guarda-chuva. Era tão incômodo.
"Mais dois corpos foram encontrados nesta manhã a beira do Rio Tamisa. Assim como das outras vezes, os corpos pertencem a mulheres da mesma faixa etária. Ambas eram jovens, por volta de vinte e cinco anos, e trabalhavam em bares. A polícia investiga o caso juntamente com os anteriores e tenta juntar pistas que revelem alguma relação entre os casos. Suspeita-se que um possível serial killer esteja atrás dessas mulheres enquanto voltam para a casa à noite. A polícia recomenda que todos tomem o máximo de cuidado e evitem sair à noite enquanto o assassino esteja à solta."
Não pude evitar de revirar os olhos enquanto levava uma das torradas a boca, sentindo-me frustrada ao ouvir as palavras da apresentadora. Realmente, não há um segundo de paz enquanto idiotas como esse continuam a solta. Agora todos devem tomar cuidado porque um imbecil está matando pessoas por prazer.
— Psicopata de merda.
Era inevitável para mim, toda a vez que me deparava com situações como essa, ignorar os pensamentos que inundavam a minha mente. Esse tipo de coisa, embora um pouco diferente, me trazia lembranças da minha triste infância. Pensar no quanto aquelas duas mulheres devem ter sofrido na noite passada, gritando por socorro, me faziam lembrar dos berros desesperados de minha mãe.
Parei subitamente de mastigar, sentindo todo aquele meu apetite desaparecer. Larguei a torrada mordida no prato e me levantei, caminhando ate a televisão e a desligando. Por mais que fosse importante se atentar as notícias, estava farta de tanta porcaria. Farta de remoer todos aqueles acontecimentos. Talvez eu devesse dar um tempo dos jornais.
Depois de passar tantos anos sofrendo, eu consegui sair daquela casa e daquela cidade. Estava cansada dos dias monótonos e sofridos. Acordar, ir para a escola e voltar apenas para ouvir aquele homem espancar minha mãe era deprimente. Felizmente, depois de vinte e dois anos "vivendo" desta forma, consegui mudar para Londres. Eu morava em Ligonier, Pennsylvania, uma cidade com aproximadamente 1.500 habitantes. Conhecia praticamente todas as pessoas e vice-versa. E isso era um saco.
Todos acreditavam que aquele homem, vulgo meu pai, era uma boa pessoa. Ou pelo menos fingiam que acreditavam. Acho que a maioria sabia o tipo de desgraçado que ele era, mas pelo fato de ele ter muito dinheiro e muita influência na cidade, jogavam tudo para de baixo do tapete e ignoravam a nossa situação. Esse foi um dos motivos que me fizeram largar tudo para trás. O fato de passarem pano para aquele homem me enojava mais do que tudo.
Para ser honesta, me sentia extremamente mal e culpada por deixar minha mãe. Eu tentei a todo custo leva-la comigo, mas ele me ameaçou. Lembro-me perfeitamente quando me disse que não se importava comigo. Ele disse: "Você pode desaparecer e eu não darei a mínima, mas a vadia da sua mãe permanecerá ao meu lado. Se me desobedecer, pode ter certeza que farei de você a prisioneira desta casa."
Minha mãe temia que isso realmente acontecesse e então me mandou ir embora e construir a minha vida. Nós conversamos com frequência, porém, recentemente as suas ligações estão ficando raras e curtas. Não conversamos mais do que dez minutos, o que é pouco, visto que normalmente nos falamos por mais de uma hora. Não posso deixar de me preocupar. Tenho medo que ele a esteja ameaçando.
Fechei os olhos e suspirei em desaprovação, levando uma das mãos até a testa. Eu prometi que iria me vingar dele, mas como farei isso? Estou com vinte e cinco anos e até agora não consegui ajudar minha mãe a se livrar das garras daquele monstro. Tento não pensar nisso, mas às vezes, em momentos como esse, me pego me perguntando se realmente serei útil algum dia.
...|...|...
— O quê? Por que o café expresso aqui é tão caro? Na outra cafeteria está bem mais barato, sabia?
Ao ouvir tais palavras, todo o meu esforço para sorrir de maneira minimamente decente foram por água abaixo. Deixei que o meu sorriso forçado desaparecesse, dando lugar a minha habitual expressão de mau humor. Fechei os olhos por alguns segundos, sabendo o que estava por vir.
— Ah, é mesmo? — Encarei a mulher com desdém. — Então por que não vai comprar o seu maldito café na outra cafeteria?
— C-Como?
Eu sabia que deveria ficar quieta. Sabia que bem possivelmente eu estava encrencada, mas eu sinceramente não dava a mínima para isso.
— Está com algum problema de audição, senhora? — Enfatizei a palavra, erguendo as sobrancelhas no processo.
— Jesus, como pode alguém tão mau educado trabalhar aqui? Não lhe ensinaram que deve respeitar os clientes, menina?
— Ah, me ensinaram, sim. Mas que eu me lembre, devemos respeitar aqueles que nos respeitam. Não sou obrigada a ser educada com alguém que não tem o mínimo de senso.
— Vou reportar isso ao seu chefe! Pode ter certeza que será demitida, garota mau educada!
Dito isso, a mulher se virou e correu para a saída, deixando-me finalmente em paz ao sair. Bufei enquanto pegava um pano para limpar o balcão, sentindo-me um pouco aliviada por ter respondido as suas indelicadas palavras. Sabia que me culparia se tivesse ficado quieta. Já tinha feito isso uma dezena de vezes só hoje.
— Cara, você está ferrada!
Spencer, minha colega de trabalho, se aproximou e parou ao meu lado, encarando-me com os olhos azuis incrédulos e divertidos.
—É, eu sei.
— Ei, você deveria tomar cuidado. Sei que essa gente é um saco, mas você me disse que esse é o terceiro emprego neste mês, não é? — Assenti. — Se continuar com isso a Jean vai acabar te demitindo.
— Sim, eu sei, mas droga, Spencer, esta foi a décima vez que ouvi as mesmas palavras. Estou farta desses riquinhos exibidos que acham que podem mandar em tudo!
Spencer colocou uma mão em meu ombro e assentiu, murmurando um "eu entendo perfeitamente". Aquilo não ajudava muito, mas eu sabia que ela entendia. A questão era que Spencer conseguia ser paciente com esse tipo de pessoa. Talvez seja por isso que ela é a empregada mais velha de Jean, nossa chefe. Foi a única a aguentar ficar aqui mais de 2 meses. Eu me pergunto se conseguirei também.
Bom, com exceção dos clientes sem noção, aqui não era um local de trabalho ruim. A cafeteria era refinada e o salário também não era ruim. Jean era séria, mas conseguia ser compreensiva. Spencer me fazia companhia e acho que por causa dela eu consegui suportar algumas pessoas. Conversamos bastante e às vezes saímos para beber e jogar conversa fora. Ela é uma boa pessoa, apesar de também ser um pouco estressada. Acho que é por isso que nos demos bem. Ela meio que me entende.
— Ei, você viu o noticiário hoje? — Perguntou assim que terminou de atender um cliente.
— Infelizmente.
— Estão falando sobre um possível serial killer, não é? Viu a recomendação da polícia? — Bufou, indignada. — Talvez seja o certo a se fazer, por precaução, mas como posso evitar de sair à noite? Quer dizer, nós fechamos às oito!
— Não acho que seremos tão azaradas a ponto de isso acontecer com a gente. Mas que é uma situação complicada é. — Revirei os olhos, começando a lavar alguns copos. — Felizmente não moramos tão longe do trabalho.
— Bom, eu não moro tão longe, mas você precisa andar por um bom tempo.
Ela estava certa. Mas eu ainda acreditava que não seria tão azarada a ponto de algo deste tipo acontecer comigo. Não é que eu não estivesse preocupada, mas sejamos sinceros: quais são as chances? Uma em cem, talvez?
— As ruas que percorro são tranquilas. Vai ficar tudo bem. Logo a polícia irá pegar esse maluco.
Spencer pareceu pensativa por um momento, mas logo concordou com a cabeça e sorriu compreensiva.
— Hoje seria um dia perfeito para passar no bar depois do trabalho, não é? Esquecer um pouco dos clientes irritantes com a bebida. — Suspirou, desapontada. Ela adorava uma bebida.
— Hoje é segunda-feira. Como tem vontade de beber no início da semana?
— É justamente por ser segunda-feira! Nada melhor do que encerrar o pior dia da semana com um alcoolzinho. — Riu, dando de ombros.
— Tem certeza que é por isso mesmo? Não está querendo ver como a Nancy está?
Spencer fechou a boca imediatamente e, aos poucos, suas bochechas ficaram ruborizadas. Pude perceber que ficou levemente desajustada, como se eu tivesse atingido o seu ponto fraco. Chegava a ser engraçado a forma como ela reagia, mas eu não podia negar que sentia um pouco de pena. Spencer não lidava bem quando se tratava de falar sobre seus sentimentos.
Me aproximei, colocando uma mão em seu ombro como forma de "consola-la". Ela desviou o olhar, como se quisesse mostrar que não ligava para o que eu havia dito, mas eu sabia que não era bem assim.
— Podemos passar lá hoje, ok? Veja como ela está. Tenho certeza que ela gostará da sua visita.
— Para com isso, Brooke. Nós não... não temos esse tipo de relacionamento. — Ela corou ainda mais.
Me senti um pouco mal por ter tocado no assunto. Talvez eu devesse ter ficado de boca fechada. Com a culpa me envolvendo, engoli em seco enquanto me afastava, murmurando um pedido de desculpas.
— Não, não precisa se desculpar. A verdade é que... — Respirou fundo, tomando coragem para começar a falar. — É unilateral. Ela me vê como amiga, entende? Então não temos nada além de uma amizade.
— Você não tentou conversar?
— Não. Estava bem explícito, desde o começo, que seríamos apenas amigas. Mas está tudo bem, sério. — Ela sorriu, fechando os olhos no processo. Spencer era realmente muito bonita, tanto por dentro quanto por fora. Por algum motivo, eu sentia que Nancy estava perdendo uma ótima pessoa.
Permanecemos em silêncio depois disso. Clientes começaram a adentrar a cafeteria, nos deixando ocupadas demais para jogar conversa fora. Quando me dei conta já havia anoitecido e estava quase na hora de fecharmos. Antes de sairmos eu dei uma última olhada para Spencer, vendo esta encarar o nada, perdida em pensamentos com um olhar tristonho.
...|...| ...
Segurei a alça da minha bolsa com força, fechando os olhos por alguns segundos enquanto tentava me manter calma. Estava tudo bem. Não era nada demais. Não passava de coisas da minha cabeça. Talvez eu estivesse envolvida demais com as notícias ao ponto de estas começarem a me afetar. Sim, certamente é isso.
Minha mente está tentando pregar alguma peça.
Soltei o ar lentamente pela boca, olhando pela rua deserta à minha frente. Alguns postes de luz piscavam incansavelmente e eu sentia, por algum estranho motivo, que eventualmente iriam se apagar.
Pela primeira vez em muito tempo eu senti medo.
Arrisquei olhar para trás, sentindo um calafrio percorrer a minha espinha enquanto via a rua inteiramente escura. De repente, passos começaram a soar sobre o asfalto, causando ecos enquanto pareciam se aproximar. Estava escuro demais para que eu pudesse enxergar alguma coisa e aquilo me deixou ainda mais nervosa. Voltei a fitar a rua à minha frente, desta vez me certificando de apressar o passo.
Repentinamente pensamentos relacionados aos assassinatos começaram a surgir, me fazendo suar frio. Talvez eu estivesse errada, afinal. Talvez eu realmente seja azarada ao ponto de ser o próximo alvo. Como as chances foram de um a cem para oitenta a cem?
Como se não bastasse o som de passos, um assobio sombrio começou a soar pela rua. Era calmo, porém eu sabia que também era perigoso. Me transmitia uma sensação mortífera. Imediatamente abri a boca e inspirei com força, sentindo minhas pernas bambas devido ao nervosismo que aumentava a cada segundo. Essa maldita sensação de estar sendo seguida me aterrorizava dos pés a cabeça. Eu só queria acreditar que não passava de uma ilusão, mas a este ponto eu tinha consciência de que não era.
Arregalei os olhos assim que um poste de luz acima de mim repentinamente se apagou, fazendo o meu coração errar uma batida. Para piorar a situação, os passos pareceram se aproximar e, antes que eu percebesse, eu estava correndo. Não tardou para sentir as minhas pernas queimarem e implorarem por um descanso. Novamente arrisquei olhar para trás, e desta vez vi ao longe uma silhueta. Não consegui visualizar a cara do indivíduo, mas sabia que se tratava de um homem com roupas pretas.
Assim que percebeu que eu o vi, o homem começou a correr, fazendo-me soltar um grito enquanto sentia que meus pulmões iriam explodir. Se a situação continuasse nesse ritmo, eu sabia que não teria muito tempo. Se continuasse desta forma, em poucos minutos estaria morta.
O pensamento me assolava de uma forma assustadora.
Acabei por me assustar assim que faróis de um carro apareceram subitamente, iluminando-me por completo. Parei de correr imediatamente, temendo ser atingida pelo veículo em alta velocidade. Fechei os olhos e esperei pelo impacto, mas este nunca veio. Quando tornei a abrir as pálpebras, vi que o automóvel estava à minha frente. Levei as costas das mãos aos olhos, tentando tapar a visão por causa da forte luminosidade do farol.
Foi então que me lembrei da situação em que me encontrei e me virei rapidamente, apenas para ver que o homem que antes me perseguia havia desaparecido. Alivia inundou meu corpo enquanto eu me curvava e apoiava as mãos nos joelhos, respirando fortemente.
Fechei um dos olhos e tentei enxergar a pessoa atrás do para-brisa, aquele que havia me salvado, mas devido a luz dos faróis não consegui ver nada. Estava prestes a abrir a boca para agradecê-lo quando o carro subitamente se afastou e seguiu a direção direita, deixando-me sozinha novamente.
Felicidade preencheu o meu peito assim que vi a minha casa a poucos metros de distância. Não hesitei em correr até ela, destrancar a porta e adentrar. Estava tão desesperada que sequer reparei que estava perto de casa. Mas talvez, apenas talvez, eu não fosse ter a chance de chegar até a porta se não fosse pelo motorista misterioso.
Tranquei a porta e então escorreguei até o chão, passando as mãos no cabelo enquanto suspirava. Hoje havia sido um dia e tanto.
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Atualizado até capítulo 49
Comments
Zamasu
Emocionante do começo ao fim! 😭
2024-06-19
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