Olhei para o closet, depois para a minha coxa enfaixada e suspirei. Hope havia dito que seria melhor vestir um vestido para me ajudar. No momento, eu apenas usava uma camisola roxa de cetim. Com ajuda das muletas eu adentrei o closet e fui para a área de vestidos, procurando algum que me agradasse. Bufei um pouco estressada, percebendo que nenhum me agradava. Alguns eram floridos, outros possuíam algumas rendas, e outros eram coloridos demais. Acho que estou a fim de uma cor mais neutra, ou talvez um preto.
Encontrei um vestido preto, básico e que tinha mangas compridas. Ele ia até metade do meu joelho e era solto, o que me dava bastante liberdade e conforto. Sem pensar muito o tirei do cabide e me apoiei em uma das portas, retirando a camisola e vestindo o vestido. Felizmente, Nora havia me ajudado a tomar banho e tudo o que eu precisava agora era de um bom café da manhã.
Caminhei para fora do quarto, ouvindo novamente aquele silêncio da casa. Nora comentou que precisava sair junto de Elizabeth e Christine. Elas iriam fazer compras, mas disse que, caso eu precisasse de algo, Dominic estaria em casa.
Por falar nele, fazem dois dias que eu não o vejo. Talvez ele realmente estivesse irritado comigo, ou talvez estivesse ocupado demais. Qualquer que seja o motivo, eu apenas deixei isso para lá. Me convenci de que deveria parar de ter quaisquer pensamentos em relação a Dominic e o fato de eu, talvez, ser especial para ele. Estávamos apenas trabalhando juntos.
Depois de caminhar uma eternidade pelo corredor, eu parei no topo da escada. Olhei para esta e depois para as muletas. Eu sabia que aquilo seria perigoso, mas sem Nora por aqui, acho que eu deveria arriscar. Estava me sentindo um pouco envergonhada por chamar Dominic, então, tudo o que fiz, foi começar a descer.
Consegui o primeiro degrau, depois o segundo. Eu estava indo bem. Se continuasse daquela forma, logo, logo eu estaria no fim.
Tentei descer o terceiro e vi, em câmera lenta, a muleta escorregar. Meus olhos se arregalaram e então soltei um gritinho, deixando as muletas caírem enquanto me apoiava no corrimão. Vi estas rolarem escada abaixo enquanto meu coração batia fortemente em meu peito. Olhei para a minha coxa, vendo que, aparentemente, o ferimento não havia sido aberto. Apenas senti uma pontada devido ao susto. Tentei deixar a perna solta enquanto firmava o peso do meu corpo na outra perna. Meu Deus, eu quase caí. Talvez eu não estivesse indo bem, como pensei.
— Brooke?
Ouvi uma voz masculina atrás de mim, seguida de passos apressados. Uma mão passou em volta da minhas costas, me segurando firme, enquanto a outra segurou em meu ombro. Dominic apareceu em meu campo de visão, olhando-me preocupado, assustado.
— Você tentou descer sozinha?
— Eu...
— Por que não me chamou?
Olhei diretamente em seus olhos, sentindo a minha garganta ficar seca. Desviei o olhar, balançando a cabeça de um lado para o outro, sentindo-me estranhamente sem graça.
— Pensei que estivesse ocupado.
O loiro suspirou, fechando os olhos por alguns segundos. Ele pareceu se recompor assim que falou:
— Para você nunca estou ocupado. Ainda mais sabendo que você está machucada. — Ele me puxou para perto, pegando-me de surpresa quando levantou-me em seus braços. Soltei mais um gritinho antes de passar os braços por seu pescoço.
— Dominic, você não... não precisa. — Nós nos olhamos antes de ele começar a descer a escada, tomando o devido cuidado. Acabei por suspirar, derrotada. — Você pode me levar para a cozinha? Estou com um pouco de fome.
Ele assentiu e me levou diretamente até lá, me colocando cuidadosamente no banco. Depois, saiu e voltou as minhas muletas em mão. Só de olhar para elas senti a vergonha me atingir. E pensar que quase me machuquei novamente por causa de uma bobeira minha.
— O que deseja comer?
A voz do rapaz me tirou de meus devaneios. Eu o olhei e pisquei algumas vezes, pensando no que falaria. Droga, eu estava parecendo uma idiota.
— Eu não sei. Torradas, talvez?
— Ok.
Olhei para a máquina de café guardada ao canto, sentindo uma imensa vontade de tomar algo diferente. Me levantei, peguei as muletas e caminhei até ela. Do lado havia um pote com vários e vários sabores de café e eu não posso negar que me senti atraída por aquilo. Fascinada. Segurei em uma cápsula que tinha o sabor de baunilha e sorri, abrindo o armário para pegar uma caneca. Infelizmente a que eu queria estava em uma prateleira alta demais, o que dificultou com que eu a pegasse.
Foi então que, sendo pega de surpresa, eu senti um corpo atrás do meu. E eu sabia muito bem de quem se tratava. Seu cheiro inundou minhas narinas, me inebriando, me extasiando. Meu Deus, não fazia sentido um homem ser tão cheiroso dessa forma.
— Era essa que você queria? — Dominic perguntou com a voz baixa e calma, sua respiração causando arrepios em minha nuca.
Assenti levemente, vendo-o me entregar a caneca. Eu me virei para Dominic, sentindo minha garganta ficar seca ao ver a proximidade de nossos corpos. Abri a boca para falar alguma coisa, mas desta nada saiu. Vi o olhar do loiro se dirigir para ela, demorando um pouco, analisando-a intensamente até que ele desviasse o olhar, parecendo voltar a si. Fechando os olhos por alguns segundos, como se dissesse a si mesmo que aquilo era algo proibido.
— Obrigada.
— Disponha.
E então nós ficamos ali, não tão perto quanto anos, mas perto. E eu senti de repente que não queria continuar com aquele clima estranho pairado sobre nós.
— Sabe, sobre as coisas que eu disse. —Comecei, segurando com um pouco de firmeza a caneca em minhas mãos. — Eu imagino que tenha ficado irritado com aquelas palavras. Acho que passei dos limites. Eu não estava pensando direito e falei da boca para fora. — Olhei dentro de seus olhos, vendo a sua pupila dilatar lentamente. — Me desculpe.
Dominic suspirou por alguns segundos antes de apoiar uma das mãos no balcão atrás de mim. Ele me olhou e eu vi que queria dizer tantas coisas, mas algo o impediu. Ele estava se segurando e eu me perguntava como ele suportava.
— Eu não fiquei irritado com você. Nunca ficaria. — Ele suspirou mais uma vez, parecendo procurar formas de proferir as palavras. — É só que... Você não entenderia.
— Por que não tenta me explicar?
Eu me aproximei involuntariamente, vendo o rapaz engolir em seco e abaixar o olhar novamente para os meus lábios. A forma como Dominic olhava fez um frio surgir em minha barriga, como se borboletas estivessem dançando nela. Ele olhou novamente em meus olhos e senti toda aquela tensão entre nós. Algo surreal. Algo único.
— Eu fiquei preocupado quando você se machucou na casa do Carlos. Fiquei ainda mais quando ouvi seus gritos e quando vi seu curativo cheio de sangue. E depois... Ouvir todas aquelas coisas. Ouvir você dizer que deveria morrer, de certa forma, me deixou mal. Porque eu devo te proteger e...
— Sim, eu sei que é sua obrigação. — Suspirei, me afastando e desviando o olhar. Por que e pensei que era algo além do seu dever? — Fique tranquilo, você está fazendo um bom trabalho. Eu tomarei mais cuidado a partir de agora e me certificarei de não falar mais coisas como aquelas.
Deixei a caneca de lado, de repente perdendo a vontade de tomar o café. Eu me sentia um pouco estressada por, no fundo, continuar achando que Dominic realmente se importava com algo além do dever de me proteger e cumprir com o favor a minha mãe. Por que eu continuava sendo tão idiota?
Quando me sentei novamente no banco eu o observei de soslaio, vendo-o permanecer no mesmo lugar por mais alguns segundos. Dominic fechou uma das mãos em punhos, e eu podia jurar ter visto esta tremer. Depois, ele apenas se virou de costas para mim e pegou as torradas que saltaram para fora da torradeira. Me entregou estas e saiu da cozinha, deixando-me sozinha novamente.
...|...|...
Idiota! Idiota! Idiota! Mil vezes idiota!
Tudo tinha acontecido tão rapidamente que eu sequer consegui pensar em minhas palavras. Disse aquelas coisas para o Dominic com um tão impaciente, quase desdenhoso. Onde eu estava com a cabeça para dizer aquilo? Por que diabos eu fui tão infantil? Ele estava sendo gentil e me explicando e eu de repente estraguei tudo.
Eu realmente me sinto a pior pessoa do mundo.
Apertei a almofada contra o meu rosto, me odiando de uma forma inexplicável. E tudo por que eu havia me arrependido depois de ver Dominic fechar as mãos trêmulas. Eu sabia, eu sentia, que ele havia ficado chateado — e não tirava a sua razão —. Agora eu precisava pensar em algo para dizer. Precisava tentar consertar aquela situação.
— Brooke?
Uma voz fina e baixa me chamou, levando-me a retirar a almofada de cima do meu rosto. Eu estava na sala, ouvindo o crepitar da lenha com o fogo. E à minha frente, encarando-me com uma expressão confusa, estava Elizabeth.
— Está tudo bem? Sente alguma dor? — Sua voz transmitia preocupação.
— Não, não sinto dor. Apenas me arrependi de algo que eu disse. — Suspirei enquanto passava as mãos pelo cabelo.
— Quer me contar o que aconteceu? — Ela se sentou ao meu lado, sorrindo gentilmente. — Ás vezes posso ser uma boa ouvinte.
Eu a observei por alguns segundos, não conseguindo conter o sorriso que se formou em meus lábios. Elizabeth era gentil como a minha mãe. Apenas o fato de ela estar ali me transmitia um pouco de paz, como se minha mãe estivesse comigo. Era algo tão surreal e ao mesmo tempo reconfortante.
Eu permiti que mais um suspiro escapasse. Encarei meus pés, depois o fogo na lareira. Ás vezes era um pouco difícil desabafar, ainda mais quando eu me sentia uma tola. Talvez fosse a culpa.
— Eu desdenhei do Dominic e das suas atitudes. Eu fui desnecessária com ele, sendo que ele só estava se explicando para mim. — Fechei as mãos em punhos, frustrada. — Agora estou arrependida pelas coisas que falei. Gostaria de poder consertar, mas, sinceramente, eu não sei por onde começar.
Elizabeth assentiu e então deixou a sacola que segurava no chão. Ela me encarou novamente, mantendo seu sorriso amável em seus lábios.
— Eu não estou aqui há muito tempo, Brooke. Não conheço vocês dois para poder dizer como são. Contudo, pela forma como vejo vocês se tratando, conversando, eu acredito que você deveria chamá-lo para conversar e apenas ser sincera. Da mesma forma que você me disse que está arrependida, você pode dizer a ele. Eu acredito que ele irá desculpá-la. — Sorriu, segurando a minha mão. — Não fique se culpando por algo que ás vezes deixamos escapar. Eu já disse muitas coisas pelas quais me arrependi, mas sempre busquei me redimir. O que importa de verdade é que você está disposta a consertar tudo.
— Eu... — Abaixei o olhar, me sentindo um pouco nervosa. — Eu estou um pouco envergonhada. Na verdade, me sinto assim quando fico perto dele. Sem contar que estou pensando coisas demais e tudo isso provavelmente influenciou nas minhas atitudes. Eu não pensei direito quando falei.
Elizabeth me olhou como se tivesse entendido tudo, como se entendesse o por quê de eu estar envergonhada, quando nem eu mesma entendia. Porém, o que quer que ela tivesse pensado, ela apenas guardou para si. Assentiu mais uma vez, apertando carinhosamente a minha mão, como com certeza minha mãe faria.
— Seja você mesma, Brooke. Diga a ele o que sente. Diga que está arrependida. Você vai ver que ele a perdoará mais fácil do que imagina.
Após isso Elizabeth pegou a sacola e se levantou, pronunciando um "estarei na cozinha" antes de sair. Neste momento eu senti o meu celular vibrar e vi que havia uma nova mensagem de Dominic. Engoli em seco enquanto a lia, sentindo meu coração se acelerar em cada palavra.
"Não é só pela sua mãe."
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Atualizado até capítulo 49
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