09

Abri os olhos lentamente, tentando me acostumar com a claridade que invadia o quarto. Já fazia três dias que Spencer havia falecido. Nesses últimos três dias eu apenas fiquei em minha cama, tentando lutar contra o luto. Foram os dias mais angustiantes de minha vida, até o momento. Não tenho conseguido parar de chorar. É uma dor inexplicável. É como se ela rasgasse o meu corpo no meio, enquanto me fazia relembrar as tenebrosas cenas da morte de minha amiga.

Dominic traz, todos os dias, meu café da manhã, almoço, café da tarde e jantar. Ele sempre diz a mesma frase: ''Espero que tenha um bom apetite.''. Depois que perdi a consciência no dia da morte de Spencer, acordei em minha cama e com Dominic sentado em uma cadeira ao lado desta, me observando. Até arrisco dizer que ele parecia preocupado, mas acho que, na verdade, minha mãe já deve saber de tudo e por isso pediu para que ele cuidasse de mim. Ele provavelmente não faria isso por vontade própria, sendo um homem ocupado.

Me virei, abraçando o travesseiro enquanto uma lágrima solitária rolava por meu rosto. Por mais que eu tentasse ser forte eu não conseguia. Talvez por me sentir culpada. Spencer morreu por minha causa. Ela nem sequer sonhou que Joseph existia. Ela vivia uma vida tão boa e alegre. Estava prestes a contar para Nancy os seus sentimentos sobre ela e, de repente, sua vida é interrompida de uma forma tão triste e dolorosa. Saber que ela sofreu aquela tortura antes de partir faz o meu coração se quebrar em pedacinhos. Eu sinto tanta a falta dela.

Mais lágrimas saíram e logo tudo se transformou em um choro deprimido. Enterrei o rosto no travesseiro e gritei. Eu não podia fazer nada além daquilo. Eu não tinha forças para levantar. Toda essa culpa está me matando.

Foi então que ouvi duas batidas suaves na porta e já sabia de quem se tratava. Dominic entrou no quarto, murmurando um ''com licença'', antes de fechar a porta atrás de si. Não me atrevi a olhar, pois sabia que ele iria embora logo. O ouvi colocar a bandeja com o café da manhã em cima da mesa de centro e então, de repente, o silêncio reinou. Ele não vai embora?

— Coma um pouco. Ontem você nem sequer tocou na comida. — Murmurou, a voz calma como sempre.

— Não estou com fome. — A voz chorosa denunciava a minha tristeza.

— Eu... — Ele se interrompeu, suspirando em seguida. — Sua mãe está preocupada com você. Por favor, coma um pouco.

Depois de, acho eu, um minuto eu me sentei, limpando as lágrimas. Encarei Dominic, vendo-o me olhar com sua famosa indiferença, mas hoje parecia ter um resquício de sentimento bem no fundo de sua íris. Parecia-se com tristeza.

— Eu me sinto culpada. — Desabafei, encarando minhas mãos. — Eu não sinto forças para levantar, Dominic. É como se eu não merecesse.

— Entendo como se sente, senhorita.

— Brooke. — O encarei diretamente nos olhos. — Me chame de Brooke.

Me surpreendi por ver o rapaz desviar o olhar, parecendo ser pego de surpresa. Ele engoliu em seco antes de se recompor e assentir lentamente.

— Entendo como se sente, Brooke. Sei que pensa que é a sua culpa, mas acho que, no fundo, você sabe que não se tratava dela. Joseph só queria um alvo fácil para te machucar. Se fosse eu no lugar dela, ele também me mataria. Não tem a ver com você, nem com ela. — Ele se virou para a bandeja, despejando cuidadosamente o chá em uma xícara. — Ele simplesmente quer tirar a vida das pessoas, pois esse é o maior prazer dele.

— Mas ela... ela não merecia. — Chorei, desabando. Tapei o rosto com as mãos e me permiti chorar desesperadamente. Soluços escapavam por meus lábios enquanto meu corpo tremia violentamente. — Spencer era tão boa, tão amável. Ela merecia ser feliz. Eu a queria feliz!

Eu o ouvi suspirar, colocando o bule de chá novamente na bandeja. Retirei as mãos do rosto e vi quando ele se voltou para mim e caminhou até a cama, parecendo não saber muito o que fazer. Me surpreendi ao vê-lo se sentar na beira desta e me olhar com um olhar tão calmo e paciente que, aos poucos, me fez parar de chorar.

— Não é sua culpa, Brooke.

Suas palavras, agora gentis e calmas, me fizeram abraçá-lo em um impulso. Me permiti derramar todas as lágrimas deprimidas que estavam guardadas dentro de mim. Solucei em seu ombro como um bebê que acaba de cair e machucar o joelho.

Dominic estava estático, com os braços abertos e, possivelmente, com os olhos arregalados. Porém, aos poucos o rapaz envolveu os seus braços a minha volta, me apertando contra si. Ele colocou uma mão em minha cabeça e a acariciou, como se dissesse ''está tudo bem''. Naquele momento eu me senti protegida. Senti que nada e nem ninguém poderiam me machucar.

Eu não fazia ideia de que seu abraço poderia ser tão acolhedor e caloroso.

... |...|...

A chuva forte caía sobre o guarda-chuva. O dia estava em um tom cinza escuro. O cemitério encontrava-se vazio, contando apenas comigo e com Dominic.

Dominic encontrou o paradeiro do corpo de Spencer e cuidou dos preparativos para o funeral. Eu me sentia em paz por saber que minha amiga teria um enterro digno. Também me sentia em paz por ter Dominic ao meu lado. Desde que ele me permitiu chorar em seu ombro, eu tenho me sentido melhor. O agradeci por aquele dia, percebendo que, apesar de ser uma pessoa quieta, posso sempre contar com ele.

Encarei a lápide de Spencer com uma tristeza profunda. Meu peito estava pesado. A chuva representava as minhas lágrimas que se encontravam presas em meu corpo. Engoli em seco antes de me abaixar e depositar uma rosa branca em frente a lápide, lendo as palavras que pedi para Dominic registrar nesta.

''Aqui jaz uma amiga, companheira, e uma mulher incrível. Sentiremos sua falta, nossa amada Spencer.''

Fechei os olhos, me despedindo de minha amiga. Estava pronta para ir embora quando ouço um grito cheio de dor e desespero.

— Não! Não pode ser verdade! Não pode!

Me viro rapidamente, vendo Nancy correr embaixo da chuva com lágrimas escorrendo pelas bochechas rosadas. Ela para em frente a lápide de Spencer, olhando descrente para as palavras registradas.

— Não, Brooke, me diga que é mentira! Me diga que não é a minha Spencer que está enterrada aí! — Se virou e agarrou meus ombros, gritando enquanto soluçava violentamente.

— Me desculpe, Nancy... — Fechei os olhos, falhando em segurar as lágrimas. — Eu queria que não fosse ela.

Nancy se afastou, os olhos arregalados e a boca aberta. Ela gritou novamente, antes de segurar os cabelos com força e se abaixar. Ver aquela cena me deixava desesperada. Tudo por causa daquele homem maldito. Olhe só para todo o sofrimento que ele causou. Como pôde se divertir com isso?

— Não, minha Spencer! — Ela continuou gritando. — Eu nem consegui me declarar! Nem consegui dizer o quanto a amo! — Seus soluços apenas aumentavam. — Nós íamos nos encontrar e de repente ela desapareceu. Não respondeu mais as minhas mensagens. E agora fico sabendo que ela morreu? Meu amor... meu amor está morto!

Tentei me abaixar para consolá-la, mas Nancy estava fora de si. A garota se aproximou da lápide, encostou a cabeça nesta e continuou a chorar.

— Meu amor, como pôde partir e me deixar aqui? Eu estava planejando um futuro com você. Você me fez feliz, mesmo quando éramos apenas amigas. — Abraçou a lápide. — Como pôde me deixar aqui? Eu queria tanto olhar em seus olhos e dizer que sempre amei você. Mas agora... agora eu nunca mais poderei vê-la. Isso não é justo!

— Nancy...

— Eu sei, Brooke, eu sei que está sofrendo tanto quanto eu. Vocês eram tão próximas. Por que isso foi acontecer justo com a nossa Spencer?

Segurei o guarda-chuva com mais força, fechando os olhos e derramando algumas lágrimas. Eu não podia dizer a verdade. Não podia dizer que aquilo tinha a ver com aquele homem. Não podia dizer que ele a matou apenas para me atingir.

— Nancy, a Spencer não teve a oportunidade de lhe dizer, mas eu tenho certeza que ela ficaria feliz que você soubesse que ela sempre amou você. — Comecei, tentando sorrir, mas falhando miseravelmente. — Ela nunca teve coragem de dizer, porque tinha medo que você não sentisse o mesmo, mas saiba que você sempre esteve no coração dela. E no dia em que vocês marcaram de se encontrar, ela estava planejando se declarar.

Nancy chorou ainda mais, abraçando a lápide com mais força. Aquela cena estava acabando comigo. Eu não sei por quanto tempo irei aguentar. Ver Nancy caída ao lado da lápide de Spencer me fazia querer desaparecer. Elas não mereciam isso. Não mereciam tamanha injustiça e crueldade.  

— Precisamos ir embora. — Dominic sussurrou, me fazendo assentir tristemente.

— Nancy...

— Pode ir, Brooke. Ficarei mais um pouco. — Ela me olhou, sorrindo agradecida. — Obrigada por ter cuidado dela por todo esse tempo, e por ter sido amiga dela. Ela sempre falou muito bem de você e sempre deixou claro que você era a melhor amiga dela. Obrigada por todo esse tempo.

Sorri agradecida, mas, por dentro, desejava desaparecer. A dor que me assolava era demasiada. Eu realmente não estava suportando.

Me despedi de Nancy e caminhei ao lado de Dominic com a cabeça abaixada. Sem pensar, entrelacei o meu braço com o seu, como um silencioso pedido de ajuda. Ele nada falou, apenas aceitou e caminhou ao meu lado até o seu carro.

Antes de sair do cemitério, me virei e dei uma última olhada para trás. Nancy permanecia na mesma posição. Podia ver que ela estava falando algumas coisas com um olhar repleto de tristeza.

E foi naquele momento, vendo toda aquela dor e sofrimento, que prometi aos céus que vingaria a morte de Spencer e também o sofrimento que foi causado a Nancy.  

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