A noite caótica havia terminado de uma maneira simples e amenizada. Depois que Dominic me contou a história por trás das ordens de minha mãe, eu apenas me deitei e apaguei em questão de segundos. Quando acordei, por voltas das sete horas da manhã, me deparei com o café da manhã em cima da mesa, a minha espera. O loiro o havia providenciado para mim antes de sair do quarto. Neo apareceu alguns minutos depois, trazendo consigo roupas novas, dizendo terem sido compradas por Dominic. Além disso, ele também contou que estava um terrível frio lá fora e que eu precisava me agasalhar.
Tomei um banho rápido depois do café e vesti as roupas, percebendo que ficavam perfeitamente ajustadas em mim. Ele tinha um bom gosto para cor e tamanho. A combinação de roupas pretas e sobretudo cinza pareceu me deixar levemente diferente.
Neo disse para descermos, pois Dominic estava a nossa espera. Enquanto estávamos no elevador chequei o meu celular e percebi que a tela deste estava trincada, mas, felizmente, o aparelho ainda funcionava. Não pude evitar de me sentir culpada assim que vi várias mensagens e ligações perdidas de Spencer. Ela deve estar extremamente preocupada, visto que desde ontem não encontrei em contato. Sei que, devido aos recentes acontecimentos, ela deve estar pensando o pior.
Mandei a ela uma mensagem rápida, dizendo que estava bem e em segurança. Também não tive outra escolha senão mentir e dizer que precisei sair da cidade por um tempo. Eu tinha consciência de que aquela não era a melhor das mentiras e que Spencer provavelmente desconfiaria, mas foi o máximo que consegui dizer.
Quando chegamos ao saguão do hotel, Neo segurou firmemente em minha mão e me enviou para uma porta distante. Quando passamos por esta, avistei uma escada que aparentava levar para o estacionamento subterrâneo. A descemos rapidamente e então vi uma Lamborghini Huracan preta a nossa espera. Neo me guiou diretamente para ela, abrindo a porta para mim e me esperando entrar para fechá-la. O rapaz se despediu apenas com um aceno e então o carro saiu em disparada até a saída.
Olhei de relance para Dominic, vendo este extremamente concentrado nas ruas a sua frente. Seu rosto continuava sério e eu me perguntava se ele era assim o tempo todo.
Me virei para a janela, observando as pessoas que caminhavam calmamente. E pensar que há alguns dias eu era como elas. Andava com tranquilidade, sem imaginar que algo ruim estava por acontecer, sem sequer pensar que minha vida mudaria da noite para o dia.
Minha mente só conseguia pensar em minha mãe e em sua situação. Estava preocupada que Joseph estivesse suspeitando dela. Tinha receio de que ele a machucasse ainda mais se descobrisse que tudo foi um plano arquitetado por ela. Apenas imaginar a cena me causava náuseas e uma profunda ira.
Pelo menos agora que sei de toda a verdade, posso me preparar adequadamente. Se eu trabalhar com Dominic, tenho certeza que ficarei mais forte e assim poderei libertar a minha mãe das garras daquele monstro.
Só espero que ele não a mate até que esse dia chegue.
...|...|...
A viagem demorou mais tempo do que eu esperava. Isso porque descobri que Dominic morava em uma casa de campo há algumas horas de Londres. Quando os imensos portões foram abertos, percebi que a casa possuía dois andares e tinha uma estrutura antiga. Estava pintada na cor bege e aparentava ter algumas partes descascadas, provavelmente devido ao tempo. O jardim era lindamente verde e extenso e possuía várias árvores e flores. Não pude evitar de me sentir acolhida por aquele lugar, mesmo sendo a primeira vez que o visito.
O carro passou por um chafariz que ficava em uma rotatória em frente a casa e então parou. Dominic e eu saímos rapidamente do carro e só então avistei uma imensa escada que levava até à porta de entrada. Tudo naquele lugar era estupidamente lindo.
Segui o loiro escada acima, dando uma última olhada à minha volta antes de parar e esperar a porta ser destrancada. Dominic abriu espaço para que eu entrasse primeiro e assim o fiz, agradecendo em seguida. Observei o saguão da casa, percebendo que havia um gigantesco lustre acima de nós. À esquerda da porta ficava uma escada enorme, feita de madeira e que ia em forma de espiral até o segundo andar, ao lado dela uma enorme poltrona feita de couro estava posicionada. À direta, um pilar separava uma pequena sala. Três sofás de cor creme ocupavam o ambiente e um lareira ficava em frente a estes. Percebi que, ao fundo, uma porta conectava o fundo da casa. O carpete também era na cor creme e ocupava todo o local.
Me aproximei do corrimão da escada, vendo o quão sofisticado era. Coloquei uma das mãos sobre este, percebendo que nem se trabalhasse por anos e anos eu teria a chance de ter uma casa como esta.
— Você mora sozinho?
Virei-me para Dominic, percebendo que o rapaz esteve me observando o tempo todo com as mãos escondidas nos bolsos do casaco. Ele apenas assentiu como resposta antes de caminhar até à escada e começar a subir.
— Irei lhe apresentar o seu quarto, senhorita.
Levantei uma das sobrancelhas, me perguntando o porquê de ele ser tão formal. Está um pouco óbvio que ele não é acostumado a isso, então por que parece que está se esforçando? Talvez minha mãe tenha falado algo a ele?
Dominic parou no topo da escada, me encarando enquanto esperava que eu começasse a andar. Rapidamente o fiz, espantando tais pensamentos. Perguntaria sobre isso mais tarde, quando estivéssemos no clima de conversar. O segui por um corredor, passando por várias portas. Observei o imenso jardim nos fundos da casa através das inúmeras janelas que estavam distribuídas, me perguntando se aquilo tudo era real. Aquele lugar era incrivelmente belo e parecia-se com um sonho, daqueles que desejamos vivenciar para toda a eternidade.
Dominic abriu a penúltima porta do corredor, mais uma vez dando-me espaço para entrar. Pisquei algumas vezes, em completa surpresa, assim que vi o quarto que me foi designado.
As paredes estavam pintadas como o resto da casa, na mesma cor creme. O chão estava revestido por um carpete marrom. Havia duas janelas enormes que davam uma bela vista para o jardim. Uma lareira estava posicionada a direta do quarto, com duas poltronas voltadas para ela. Uma pequena mesa ficava ao lado destas. A cama estava mais afastada, mas voltada para a lareira. Esta era enorme e possuía cobertores que pareciam custar os olhos da cara. Passei a mão por estes, me surpreendendo com a incrível maciez.
Caminhei até uma escrivaninha que ficava perto da cama, vendo que duas cartas com o meu nome me esperavam. Engoli em seco ao entender que se tratavam de cartas de minha mãe.
— Diga-me o que tenho que fazer enquanto viver aqui. — Me virei para o rapaz. — Precise que eu faça a comida? Limpe a casa?
— Não.
— Então o que?
— Você não precisa fazer nada. Enquanto estiver sob meus cuidados, providenciarei a comida e roupas limpas. Não precisará se preocupar com nada além de sua segurança.
— Mas eu quero ajudar, Dominic.
— Você ajuda a mim e a sua mãe apenas ficando nesta casa. — Ele respirou fundo e então se virou, caminhando até a porta. — Se precisar falar comigo, vá até a última porta do corredor. Estarei em meu escritório.
Então ele saiu, fechando a porta atrás de si. Balancei a cabeça, deixando um suspiro escapar e então me sentei no banco em frente a escrivaninha. Segurei em uma das cartas, abrindo esta cuidadosamente como se fosse uma relíquia.
"Minha querida, Brooke:
Sei que os últimos acontecimentos provavelmente a deixaram assustada. Desculpe não poder estar ao seu lado para lhe consolar. Honestamente, gostaria de me desculpar por todos estes anos banhados em sofrimento. Mesmo que eu tentasse ao máximo, nunca consegui protegê-la de fato das garras desse monstro. Espero que agora eu tenha a oportunidade de mantê-la a salvo com a ajuda de Dominic.
Lembra-se quando pedi a você para ter paciência? Pois bem, eu estava me referindo a ele. Dominic costuma ser uma pessoa extremamente reservada e calada. Portanto, haverá momentos que você exigirá explicações e ele simplesmente não dará a você, pois é a forma como ele lida com as situações. Não o entenda mal, por favor, querida. Assim como você, ele também sofreu e a maneira que encontrou de lidar com o passado foi se fechar para todos. Mas acredite quando digo que este rapaz é uma boa pessoa. Confie nele e pode ter certeza que estará sempre segura.
Se possível, gostaria de pedir para que confie em mim também. Dominic deve ter lhe contado a história, mas eu quero ressaltá-la. Tenho homens que trabalham para mim espalhados por Londres. Recentemente, fui informada que havia uma atividade suspeita em torno de sua casa e logo descobriram que se tratavam de homens do Joseph. Eles planejavam sequestrá-la e levá-la para ele. Por isso mandei Dominic a vigiar e, assim que possível, a levar para a sua casa antes que fosse tarde demais. Espero que aqueles homens não a tenham machucado, minha querida. Por favor, lembre-se de se alimentar corretamente, está bem? Cuide-se sempre, meu bem, e não se preocupe comigo. Aguentei este homem desprezível por anos e não será agora que desistirei.
Com amor, de sua mãe."
— Mamãe, você sempre me protegeu da melhor maneira possível. Mesmo sofrendo você não desistiu de mim. Como poderia não confiar minha vida a você? — Murmurei sozinha, desejando que minha mãe pudesse me ouvir. — Farei tudo o que quiser, contanto que seja livre.
Guardei o papel dentro do envelope e puxei uma das gavetas, escondendo a carta dentro desta. Me levantei e observei o quarto, finalmente aceitando que a partir de hoje aquele era o meu aposento, e esta era a minha nova casa. E, é claro, aceitando também que Dominic era o meu novo "colega".
Acabei por me assustar assim que meu telefone começou a tocar. Quando o peguei, sorri ao perceber que Spencer estava fazendo uma ligação por vídeo. Me sentei novamente a escrivaninha e atendi a ligação, me surpreendendo com a preocupação estampada na face da garota.
—Brooke, como pôde sumir desse jeito? Sabe o quão preocupada eu fiquei quando fui até a porta da sua casa e não a encontrei?
— Me desculpe, Spencer, foi realmente um imprevisto. Eu não tive tempo de avisá-la.
Senti a culpa me invadir assim que lágrimas começaram a rolar por suas bochechas. Spencer tentou controlá-las, mas não obteve sucesso. A garota soluçou e começou a tentar secá-las, mas, quanto mais ela tentava, mais ela chorava.
— E-Eu pensei que você tinha desaparecido para sempre. Os vizinhos disseram que havia uma mulher gritando por socorro à noite e, para piorar, a polícia encontrou o corpo de um homem próximo a sua casa e eu entrei em pânico ao pensar que algo poderia ter acontecido com você. — Um soluço a interrompeu. — Eu bati inúmeras vezes na porta da sua casa, mas você não apareceu. Me desculpe, Brooke, não pude evitar de pensar o pior.
— Eu que peço desculpas por preocupá-la, Spencer. Não tive a intenção deixá-la sem notícias.
Spencer assentiu com a cabeça e respirou fundo, abrindo um sorriso aliviado. A garota controlou as últimas lágrimas e então voltou a me encarar, falando alegremente:
— Ok, vamos deixar as desculpas para depois. O importante é que você está bem. Vi a sua mensagem, a propósito. Confesso que fico triste por sua partida repentina, mas sei que logo voltará! Fique tranquila, já falei com a Jean sobre isso.
— Spencer, na verdade... — Olhei para o lado, pensando na melhor maneira de dizer que não nos veríamos mais, pelo menos não pessoalmente. — Diga a Jean para encontrar outra pessoa. Eu não voltarei para a cafeteria.
— Como? Mas por quê?
— Esta viagem que fiz é permanente. Não voltarei mais.
— Mas e a sua casa?
— Falarei com o proprietário sobre isso. —Apertei o maxilar ao ver a decepção invadir seu olhar. — Me desculpe por deixá-la, Spencer, mas foi o melhor a se fazer.
Vi a garota assentir, parecendo tentar digerir minhas palavras. Ela me enviou um olhar compreensivo, mas eu sabia que, no fundo, ela estava um pouco chateada. Mas não é como se ela fosse me dizer aquilo. Spencer era boa demais para falar qualquer coisa negativa a alguém.
— Não irei questioná-la do porquê. Acredito que você tem seus motivos e por isso não a julgarei. Apenas mantenha contato, ok? Não deixe de mandar mensagem e ligar para dizer como estão as coisas.
— Obrigada por entender. E fique tranquila, todos os dias eu mandarei uma mensagem a você. Não se esqueça de me contar sobre como estão as coisas com a Nancy, está bem?
Spencer riu envergonhadamente, assentindo em seguida. Foi naquele momento que percebi que havia ganhado uma amiga valiosa e pura, e por um segundo eu desejei trazê-la comigo.
— Ok, combinado! Espere por minha ligação amanhã. Agora preciso desligar, pois estou no banheiro da cafeteria. — Riu, me levando a acompanhá-la. — Até depois, Brooke!
— Até. Cuide-se, por favor.
A ligação foi encerrada e o sorriso em meus lábios se desfez com o silêncio do quarto. Deixei o celular em cima da escrivaninha e caminhei até a janela, observando alguns pássaros voarem alegremente, enquanto outros pousavam nas flores e árvores. Entrelacei as mãos atrás de minhas costas e pensei em como as coisas seriam a partir de agora. Já não teria Spencer ao meu lado todos os dias. Não tenho mais um trabalho e não posso sair para beber quando bem entender. Agora esta é a minha nova vida, com uma nova pessoa também.
O que mais poderá me aguardar no futuro?
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Atualizado até capítulo 49
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