16

N/a: O capítulo contém cenas brutais de violência e morte. Caso seja sensível, não leia! 

— Brooke, me ajude! 

Eu vi Spencer gritar. Olhei para ela e observei enquanto Joseph se aproximava por trás da garota. Tentei falar, gritar, mas nada saía. Meus lábios sequer se abriam. Meu coração se acelerou e eu senti o medo dominar a minha espinha. Era uma sensação sufocante. 

— Por que está parada aí? Me ajude! 

Joseph a segurou pelos cabelos e enfiou uma faca em suas costas. Eu tentei gritar, tentei me mexer, mas era inútil. Eu estava presa. Estagnada. Senti minha garganta se fechar enquanto eu via a minha amiga, minha querida amiga, berrar em desespero e dor. Joseph começou a tirar e colocar a faca em seu corpo e em diferentes lugares. Seus gritos eram incessantes. Seus olhos imploravam por alguma ajuda, alguém que pudesse salvá-la de seu terrível destino. 

Mas eu não podia fazer nada para salvá-la. Eu não conseguia. 

— Brooke, por que você está fazendo isso comigo? —  Ela gritou em meio as lágrimas. —  Pensei que fôssemos amigas! Por que está deixando ele me matar?

Meu corpo começou a tremer e as lágrimas rolaram por minhas bochechas. Minha garganta se fechou e eu senti a necessidade de respirar, mas o desespero era tanto, a angústia e a tristeza eram demais para mim. Estavam me sufocando pouco a pouco. 

Spencer, eu queria poder morrer em seu lugar. Me perdoe, me perdoe por não poder fazer nada. 

Vi Joseph erguer a faca e a colocar no pescoço da garota e então, em um único movimento, o cortar. Desta vez eu consegui gritei e tentei correr até ela, mas, em um piscar de olhos, eu já não estava mais ao lado de minha amiga, mas sim na casa de Carlos. Eu estava vendo a família reunida, a mãe com a filha no colo enquanto Carlos contava uma história para as duas. Eles sorriam. Gargalhavam. Brincavam. Mas de repente tudo mudou. Tiros soaram e a porta da casa foi escancarada. Vários homens entraram e os renderam. Pegaram a mulher e começaram a jogá-la de um homem para o outro, dizendo que fariam bom proveito antes de matá-la. 

A bile subiu em minha garganta e eu senti a imensa vontade de vomitar. Aquilo era um pesadelo. E dos mais terríveis que já tive em minha vida.

A filha de Carlos chorava, chamando pelos pais enquanto via os homens os espancando. A mulher chorava, implorando para que parassem. Carlos tentou lutar para salvar sua esposa e sua criança, mas foi apunhalado pelas costas com um golpe de faca. Outra no braço. Coxa. Estômago. Ele gritou e caiu no chão enquanto três homens o chutavam. Espancavam. Foram tantas agressões que eu já não conseguia reconhecer o rosto do rapaz. Estava desfigurado. Ele já estava inconsciente quando atiraram uma, duas, três vezes em sua cabeça. O barulho dos tiros era ensurdecedor. 

A filha foi a próxima. Eles a espancaram, tal como fizeram com o pai. A criança não aguentou por muito tempo. Ficou inconsciente em questão de segundos e então eles vieram com as facas. Eu tentei fechar meus olhos, não querendo ver aquela triste cena, mas não consegui. Eu estava paralisada, sendo forçada a observar tudo sem poder fazer nada. 

Eles a esfaquearam mais de cinquenta vezes antes de deixar o corpo de lado. Uma poça de sangue foi se formando, juntando-se com o de Carlos. 

Nessa altura eu já não conseguia mais segurar as lágrimas. Soluçava de dor e desespero e tristeza. Eu estava arrasada. Todos morreram por minha causa. Por causa daquele monstro. E eu não fui capaz de impedir nada. 

A mulher tentou correr, mas eles a derrubaram. A chutaram antes de começarem a tirar as suas roupas. ''Não, Deus, por favor.'', eu implorei, sentindo a bile voltar a subir pela minha garganta. 

— Brooke! 

''Tire-me daqui. Alguém, por favor!''

— Brooke!

''Eu não aguento mais! Eu não quero mais ver isso!''

—  Acorde, Brooke!

Abri os olhos assustada, sentindo as lágrimas rolarem incansavelmente por meu rosto. Minha coxa doía como o inferno e, quando olhei, vi que a enfermeira a segurava, junto de Hope. Sangue havia encharcado o curativo e escorria pela cama. Dominic estava ao meu lado, segurando meus ombros. Seu olhar era de preocupação e desespero. 

— Brooke, o que aconteceu? —  Ele perguntou, olhando-me desesperadamente em busca de uma resposta. Mas tudo o que fiz foi chorar e o abraçar, sentindo as memórias dos sonhos voltaram com tudo. Me atingindo, perfurando, me machucando.

Eu me permiti chorar como nunca, soluçar e soltar gemidos de dor e angústia. Pela Spencer, pelo Carlos e por sua família. 

— Está tudo bem, já passou. —  Dominic sussurrou, acariciando meus cabelos. 

— Foi horrível! — Eu chorei, sentindo-o me apertar mais contra si. 

— Eu imagino, Brooke. Mas preciso que você se acalme. O seu ferimento abriu e você está perdendo sangue. 

— Eu deveria ter morrido no lugar deles! 

Eu me afastei, me permitindo cair na cama novamente. Dominic pareceu prender a respiração quando me ouviu. Como se não quisesse ouvir aquele tipo de coisa. 

—Não, Brooke, não deveria. —  Ele estava sério desta vez. 

— Ele é um monstro e eu sou filha dele. Eu devia estar morta. —  Sussurrei, sentindo tudo a minha volta girar. —  Eu devia morrer. 

— Dominic, ela continua perdendo sangue. Isso a está afetando. — Ouvi Hope falar, séria. 

O loiro respirou fundo e passou a mão no cabelo, antes de tomar a sua decisão. E neste momento, um homem entrou no quarto. Dominic se voltou para ele e falou: 

— Preciso que cuide dela. Dê algo para acalmá-la.

— Sim, Dominic. 

O loiro me olhou uma última vez e pude jurar ver um vislumbre de mágoa em seu olhar antes deste se virar e sair do quarto. Senti uma picada em meu braço e, em poucos segundos, tudo se tornou escuro e calmo. 

...|...|...

— Brooke, você precisa comer. 

Ouvi a voz de Hope, mas decidi ignorá-la. Eu continuei estática, olhando a chuva através da janela. Estava deitada na cama, a coxa com um novo curativo. Aparentemente, me debati demais durante o pesadelo e por isso o ferimento abriu. Além disso, segundo Hope, eu estava gritando incessantemente em meio as lágrimas. Todos na casa puderam ouvir. 

Aquilo foi tão real. Lembrar dos choros e gritos e pedidos de socorro. A forma como morreram, como vi suas peles sendo perfuradas por facas e como o sangue jorrava. Foi traumatizante. Eu sentia a tristeza em cada célula do meu corpo. Me sentia tão incapaz e tão culpada. É como se, tudo o que mascarei durante esses dias, tivesse vindo a tona durante o pesadelo. Todas as emoções me inundaram, como um tsunami vindo em minha direção.

Durante aquele tempo pensando eu estava me perguntando: Eu deveria ter morrido também?

 — Brooke, por favor. 

— Eu não estou com fome. 

— Só faça um esforcinho. Apenas para não ficar com o estômago vazio.

Decidi encará-la, por fim, vendo a garota sorrir gentilmente para mim. 

— Eu dei muito trabalho? 

— Só um pouquinho. — Fez sinal com o dedo indicador e o polegar próximos, rindo baixinho em seguida. — Você nos assustou. 

— Desculpe. — Suspirei, sentindo-me envergonhada. — É só que foi tão difícil. Tão doloroso. 

— Eu imagino, Brooke. A morte é cruel. Muito cruel. Ela nos assombra, até mesmo em nossos sonhos. 

— Você já passou por isso? Digo, por esses sonhos. 

—  Ah, com certeza. Eu sofri muito com eles. Durante dias. Meses. —  Suspirou, colocando a bandeja de comida no criado ao lado. — Até a Angelique sofreu, mesmo ela sendo, você sabe, a Angelique. —  Riu baixinho.

Eu tentei acompanhá-la na risada, mas apenas sorri. Eu não gostava de Angelique. Eu não a suportava. Porém, eu não conseguia deixar de imaginar como Hope e ela se sentiram. Como ambas sofreram. Como enfrentaram a dor da perda. E tudo se voltava àquela maldita questão de que eu estava indiretamente ligada pelo fato de Joseph ser a droga do meu pai.

— Olha, eu sei que pedir desculpas não vai apagar da sua memória o que a Angelique disse, mas... — Hope atraiu a minha atenção, olhando-me com tristeza. — Me desculpe. Desculpe pela forma como ela tratou você, Brooke. Pela forma como ela te culpou por algo que obviamente não era sua culpa.

— Não precisa se desculpar, Hope. Eu sei que você não me culpa. E sinceramente, eu já não espero um ato empático vindo da sua irmã. Nada me surpreende mais. — Sorri para ela, tentando reconfortá-la.

— Eu não a culpo, como você mesma disse, e acho que você não deveria se culpar também, Brooke. — Hope se aproximou, segurando minhas mãos. — Não foi você quem fez aquilo com a Spencer. Não foi você quem matou a família do Carlos. Então por que continua achando que este fardo está em suas costas? Você, sua mãe, Dominic, eu e os demais fomos vítimas de Joseph. Todos nós temos um sofrimento para lidar. E todos estamos reunidos para nos vingarmos.

— Eu...

— Brooke, quando sequer pensar que é tudo culpa sua e que deveria morrer, pense que precisa se manter viva pela sua mãe e pela Spencer. Você precisa vingá-las. Precisa fazer Joseph pagar por tudo e da pior maneira possível. — Ela sorriu de uma maneira tão amável que, por alguns segundos, eu senti vontade de abraçá-la e agradecer por estar sendo tão paciente. — Quando precisar desabafar pode me chamar. Estarei aqui para você. E o Dominic também, apesar dele ter aquele jeito inexpressivo e durão.

Acabei rindo e Hope me acompanhou. Ela se afastou e colocou a bandeja de comida em meu colo. Por sorte, aquela era a bandeja que vinha com os próprios pés e eram apoiados na cama. Eu encarei um pote cheio de morangos, um prato com panquecas e mel e uma xícara de chá. Tomei um gole e suspirei, sentindo o líquido aquecer meu corpo.

— Por falar no Dominic. — Comecei. — Se bem me lembro, ele pareceu ter ficado irritado com as minhas palavras. Você sabe como ele está?

— Hum, eu não consegui falar com ele. Ele se trancou no escritório e ainda não saiu de lá. — Ela deu leves batidinhas em sua bochecha com o dedo indicador, pensando. — Mas sim, ele definitivamente ficou um pouco irritado, eu acho. Nunca o vi daquela forma.

— Espero que não fique assim por muito tempo.

— Ah, fique tranquila. Acho que, quando se trata de você, ele não consegue ficar bravo.

— Como assim?

Hope riu, dando de ombros enquanto o fazia.

— Eu não sei, é só um pressentimento. Ele só parece diferente às vezes.

Optei por ficar quieta e terminar de comer. Levei um morango a boca, pensando nas palavras de Hope. Tudo bem que Dominic sempre me tratou bem e que, nos últimos dias, ele esteja mais comunicativo, mas não acho que isso quer dizer que ele esteja diferente demais ou que seja algo causado por mim. Talvez ele só tenha decidido conversar um pouco mais, afinal, precisamos fazer isso para conseguirmos trabalhar juntos.

Apenas deixei de lado quaisquer pensamentos que me levavam a acreditar que era especial. Eu era apenas uma colega de trabalho. Dominic e eu trabalharíamos para nos vingar e, depois... depois nós...

O que nós faremos depois? Tomaremos caminhos diferentes? Eu sequer o verei novamente depois do fim? 

Deus, eu estou pensando tanto em Dominic. Por algum motivo ele tem tomado conta dos meus pensamentos e eu, sinceramente, me pergunto até quando isso vai durar. 

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