— Olha só para você, toda animada. — Ri, observando Spencer balançar um vestido em frente ao celular na sua tentativa de "dançar".
— Não ria. Você sabe como estou nervosa. — Um beicinho se formou em seus lábios enquanto ela jogava o vestido em cima da cama. — Você acha que ela irá pensar que estou exagerando?
— Por que estaria exagerando? É um encontro, afinal.
— Bom, para mim é um, mas não sei se ela pensa o mesmo.
Balancei a cabeça, deixando escapar uma risada baixa. A forma como Spencer ficava nervosa quando pensava em Nancy era surpreendente. A observei falar distraidamente enquanto tomava um gole de chá. Spencer estava sendo a minha companhia desde o início do dia. Não tinha visto Dominic e, por conta disso – e do extremo silêncio da casa -, eu me sentia levemente sozinha. Agradeci mentalmente quando a garota me ligou.
— Eu tomei a decisão de ser sincera com ela, Brooke.
Arregalei os olhos, não esperando por tais palavras. Acabei me engasgando com o chá, tossindo algumas vezes até que o incômodo passasse.
— Está falando sério?
— Sim. Eu finalmente decidi me confessar para ela. Consegue imaginar o quão nervosa estou? — Assenti, esperando que continuasse. — Mas, se quer saber, não vejo a hora de isso acontecer. Quero tirar esse peso dos meus ombros. Ela precisa saber.
— E você já pensou em qual ocasião irá se confessar?
— Quero preparar tudo antes de falar o que sinto. Talvez um jantar? — Olhou para o nada, pensativa.
— Eu acho uma ótima ideia.
Sorrimos uma para a outra e continuamos a conversa. Spencer continuou compartilhando as ideias que tinha para o seu encontro, enquanto eu apenas ouvia e palpitava em determinado momento.
Depois de alguns minutos sentada, decidi me levantar e lavar a xícara em que se encontrava o chá. Como estava na cozinha, seria uma tarefa rápida. Apoiei o celular na janela para que continuasse a ver Spencer e então fiz o meu afazer. Olhei de relance para minha amiga, piscando algumas vezes ao vê-la estática. Spencer olhava fixamente para a tela do celular, com a boca entreaberta, parecendo inesperadamente surpresa.
Confusa, sem saber o porquê de sua reação, me virei e só então pude ver Dominic na entrada da cozinha. Ele vestia suas habituais roupas sociais pretas e o cabelo continuava amarrado. Como sempre, mantinha uma expressão indecifrável. Abri a boca para perguntar se ele precisava de algo, mas este apenas caminhou até a geladeira, em completo silêncio. Fazia parecer que eu não estava ali.
Encarei Spencer de relance, vendo que ela também me encarava. A garota sorriu levemente sem graça e então mexeu os lábios formando as seguintes palavras: "Conversamos depois." Sem aviso prévio a ligação foi encerrada.
Vi Dominic olhar para mim por cima do ombro antes de observar o aparelho.
— Eu atrapalhei a sua conversa?
— Não, não se preocupe.
Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de fechar as portas da geladeira e caminhar para fora da cozinha.
— Sinto muito.
— Dominic, espera! —O loiro parou e então se virou para me encarar, esperando que eu continuasse. — Sei que acabamos de nos conhecer e que tudo isso é novo, mas acho que não precisamos manter essa distância. Quero dizer... — Suspirei, secando minhas mãos enquanto pensava em como me dirigir a ele. — Você não precisa pedir desculpas por algo assim, nem precisa se manter afastado. Podemos conversar às vezes, sabe? Como colegas de trabalho.
Esperei por sua resposta, sentindo-me levemente desajeitada ao vê-lo permanecer em completo silêncio enquanto me olhava fixamente. Parece que ele sempre faz isso.
— Como quiser.
Então Dominic saiu, deixando-me novamente sozinha. Uma risada baixa escapou por meus lábios enquanto eu cruzava os braços e balançava a cabeça. Acho que estou começando a entender porque mamãe mandou ter paciência com ele.
...|...|...
Abri os olhos repentinamente, encarando o teto acima de mim. O som baixo da televisão soava ao fundo, lembrando-me de que me encontrava na sala. Olhei em volta, vendo que o ambiente estava parcialmente tomado pela escuridão. Me sentei no sofá, no qual estava deitada há segundos. Um bocejo saiu por meus lábios enquanto eu me espreguiçava, sentindo a sonolência me abandonar aos poucos.
Procurei meu celular, vendo que já passava das 23h. Dominic provavelmente estava no escritório, ou talvez em seu quarto. De qualquer forma, eu precisava ir para o meu. Liguei a lanterna e desliguei a televisão, caminhando para fora do cômodo. Me dirigi até a escada, contudo, um barulho vindo do lado de fora me fez parar. Virei-me lentamente, encarando a janela. Obviamente, era impossível enxergar alguma coisa, mas aparentemente havia algo do lado de fora da casa.
O barulho soou novamente, desta vez um pouco mais alto. Parecia-se com pedras se chocando contra o vidro. Arqueei uma sobrancelha enquanto caminhava em direção ao som, mas outro ruído me fez estacar.
Desta vez, toques começaram a soar contra a porta, no início lentos, mas que gradualmente foram aumentando a velocidade. Pisquei algumas vezes, me perguntando se aquilo estava realmente acontecendo, ou se apenas se tratava de um sonho.
Me surpreendi quando uma forte e espessa chuva começou a cair, sendo acompanhada por raios e trovões. Por conta dos relâmpagos, vez ou outra conseguia ver o jardim sendo iluminado. Em uma destas vezes, vi uma sombra passar pela janela, desaparecendo tão rapidamente que acreditei ser apenas uma ilusão.
— O que diabos está acontecendo? — Sussurrei para mim mesma, me virando para a escada enquanto a imagem de Dominic me vinha a mente.
Voltei a encarar a janela, sentindo um calafrio percorrer a minha espinha enquanto eu tomava coragem para ir até lá. Segurei firme em meu celular, tanto que sabia que os nós de meus dedos estavam brancos. Os sons continuaram e agora aumentavam conforme eu me aproximava da janela. Mais um raio iluminou o jardim, me dando um vislumbre de uma silhueta mais ao fundo.
Arregalei os olhos ao ouvir o barulho de algo caindo da escada e rapidamente me virei, mas, para o meu espanto, não havia nada. Prendi a respiração, não entendendo o que estava acontecendo. Abri a boca para chamar por Dominic, mas nenhum som saiu. Eu estava paralisada.
A lanterna começou a falhar antes de finalmente se apagar. Como diabos a lanterna de um celular poderia falhar tão facilmente?
Isso só pode ser brincadeira.
Tentei ligá-la novamente, mas não obtive sucesso. Então, parada em meio a escuridão, ouvi uma respiração atrás de meu corpo. E logo uma voz aterrorizante sussurrou em meu ouvido:
— Eu irei te encontrar e irei te matar, filhinha.
Um grito escapou por meus lábios enquanto eu me sentava assustada, sentindo gotas de suor escorrerem por meu rosto. Olhei ao redor, vendo que ainda estava deitada no sofá. Então tudo não passou de um sonho? Como? Parecia... Parecia tão real.
Suspirei, levemente irritada, enquanto fechava os olhos e esfregava as têmporas. Depois deste maldito sonho, sinto que não conseguirei dormir tão facilmente. Talvez eu devesse tomar um banho para relaxar.
Quando abri os olhos e me virei para a porta, percebi a presença de Dominic, que se encontrava em pé e com os braços cruzados. Metade de seu rosto estava iluminado pela luz da televisão, deixando a outra metade perdida nas sombras. Ele esteve ali o tempo todo?
— Há quanto tempo está aí? — Questionei, limpando algumas gotas de suor com as costas das mãos.
— Desde o começo.
— Então esteve me observando? — Ele não respondeu. Não é como se aquilo realmente importasse. — Bom, acho que não foi uma das melhores cenas.
Me levantei, pegando em meu celular. Me surpreendi ao ver que eram exatamente 03h00 da manhã. Por que ele ainda estava acordado?
De repente o meu olhar foi de encontro a mesa de centro da sala, onde uma pequena e redonda xícara de chá repousava. Havia vapor saindo deste, indicando que havia acabado de ser feito. Encarei Dominic, vendo o rapaz se sentar em uma poltrona. Ele permaneceu em silêncio, apenas olhando o chão. Acabei me sentando também, pegando a xícara e bebericando um gole do chá.
— Sua mãe me enviou uma mensagem. — Lhe dei total atenção assim que este a mencionou. — Ela disse que queria saber como você estava. Me pediu para que a checasse.
— Agora? — Ele assentiu. Por que algo me dizia que Dominic não estava sendo sincero? — Bom, eu estou bem. Mas por que ela não me contatou? Não seria mais fácil?
Dominic me encarou em completo silêncio, sustentando meu olhar com indiferença. Pensei que ele estava tentando procurar alguma resposta, mas me enganei, pois o rapaz continuou em silêncio pelos próximos segundos. Eu decidi esquecer a pergunta e foquei em terminar o chá, ainda sentindo que havia algo de estranho em suas palavras.
Coloquei a xícara de volta na mesa, sentindo toda a tensão de minutos atrás desaparecer. Olhei de relance para Dominic, vendo que ele ainda vestia suas roupas de hoje mais cedo. Então ele realmente estava acordado. Se Dominic é acostumado a dormir tão tarde da noite, por que ele sempre acorda tão cedo?
— Se me permite perguntar, por que está acordado a essa hora?
Ele desviou o olhar, parecendo pensar se deveria ou não responder à pergunta. Por fim, seus olhos voltaram a me encarar, frios como sempre.
— Meu remédio acabou. Não consigo dormir sem ele.
— Há quanto tempo acabou?
— Três dias.
— Você está sem dormir há três dias?
O encarei em completo incredulidade, não conseguindo esconder o espanto em minha voz. A minha reação pareceu incomodá-lo, pois este logo tratou de se levantar, evitando me olhar nos olhos.
— Três dias não significam nada para mim. — Murmurou, me dando as costas. — Boa noite, senhorita.
Balancei a cabeça em negação, suspirando enquanto me levantava e levava a xícara comigo para a cozinha. A lavei e guardei, ainda pensando na reação de Dominic. Talvez eu devesse ter me controlado melhor, mas foi algo inevitável. Não entendo como ele pôde simplesmente ficar sem dormir por três dias.
Dei de ombros, saindo da cozinha enquanto mexia em meu celular. Enviei uma mensagem para minha mãe, assegurando de que estava tudo bem e que eu sentia imensas saudades. Subi a escada e fui diretamente para o banheiro, pensando no maravilhoso banho quente que me aguardava. Depois daquele pesadelo, eu precisava de algo para acalmar meus pensamentos.
Por algum motivo, não conseguia parar de pensar em Dominic. As suas ações às vezes são, de certa forma, estranhas. Gostaria de poder entendê-lo melhor. Sei que ainda estamos nos conhecendo, mas ele não parece ter intenções de abrir um espaço para que eu o conheça melhor. Ele age de forma totalmente profissional e isso acaba por me deixar hesitante. Talvez eu devesse manter distância?
Minha mãe disse que preciso ficar sempre ao lado dele, porém, como posso passar tanto tempo ao lado de uma pessoa agindo tão formalmente e profissionalmente? Eu sinceramente não sei se tenho a devida paciência para isso.
Balancei a cabeça de um lado para o outro, espantando tais pensamentos. Acho que ainda não sou capaz de compreendê-lo. Dominic certamente tem seus motivos e não devo julgá-lo antecipadamente. Se mamãe confia nele, então eu também confio.
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Atualizado até capítulo 49
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