Tem noites que parecem intermináveis; há momentos em que tudo o que você deseja é dividir um pouco dos seus medos, quando não se sente tão forte. Em momentos assim, tudo o que eu queria era ter alguém para me dizer que, mesmo que não fique tudo bem, estará ao meu lado e me ajudará a passar por isso.
Alguém que me diga que nem tudo é culpa minha e que as coisas que minha mãe diz, nos momentos em que o álcool fala mais alto, não são o que ela realmente sente. Tento me convencer disso.
Mas a verdade é que, em momentos como esses, quando me deito na cama e me sinto tão quebrada, tão sozinha e imperfeita, no meio da escuridão do meu quarto ouço sussurros que ecoam na minha mente, relembrando cada palavra que saiu dos lábios dela, cada olhar e todas as frustrações pelas quais levo a culpa. E dói porque sempre me lembro do ditado popular que diz que as crianças e os bêbados falam a verdade. E por mais que me doa, sei que em cada olhar magoado, em cada palavra que me fere, há o reflexo do que dói nela, e ela só tenta externizar esses momentos, despejando suas frustrações em mim.
Mal dormi durante a noite; em alguns momentos, eu simplesmente ficava escorada no batente da porta, observando-a dormir.
Quando o sol começou a surgir, fui até o banheiro e, quando me olhei no espelho, meu reflexo denunciava a noite mal dormida; havia olheiras enormes. Joguei água gelada no rosto para espantar o cansaço e o sono, caminhei até a cozinha e preparei um café forte e um belo café da manhã com os itens disponíveis. Terminei de preparar tudo e me sentei na sala, esperando minha mãe acordar.
Eu não poderia ir para a escola e deixar minha mãe nessa situação, então nem me preocupei com isso. Tem uma sequência de presença, não me atraso, minhas notas sempre estão boas, me dou muito bem com todos os professores e nunca levei uma única advertência na vida. Sempre acreditei que, quanto mais eu me esforçasse e melhor fosse meu desempenho, não haveria motivos para reclamação. Seria uma excelente aluna e minha mãe teria orgulho de mim. Enfim, esse era um dos meus sonhos ingênuos aos doze anos. Enquanto alguns tentam chamar a atenção dos pais sendo rebeldes, eu seguia o caminho oposto, tentando ter um bom desempenho para atrair a atenção. Nem preciso dizer que isso não surtiu muitos efeitos. Afastei essas lembranças e apenas fiquei sentada esperando por ela.
Quando deu às 11 da manhã, ela se levantou, com passos arrastados e cabeça baixa. Ela passou por mim e me olhou por breves segundos, depois seguiu direto para a cozinha.
Ela não disse nada, e eu também não puxei assunto; apenas me levantei e a segui até a cozinha.
A mesa estava posta, e o cheiro agradável exalava pelo cômodo. Acho que essa é uma das vantagens de trabalhar em uma padaria; dá para aprender muito.
Minha mãe olhou para a mesa e depois para mim.
— Por que você não foi para a aula, Alice? — Ela perguntou.
Pensei por um breve momento antes de responder.
— Hoje não tinha nada de importante — menti, e ela assentiu. — E também não queria te deixar sozinha. Pensei que a senhora pudesse precisar de algo.
Falei dando de ombros, lançando-lhe um sorriso que julguei ser o mais gentil e acolhedor que eu poderia ter.
A verdade é que eu só quero cuidar dela e me certificar de que ela vai ficar bem.
Ela forçou um leve sorriso e passou pela mesa, indo em direção à geladeira. Ela abriu a porta e começou a procurar algo.
— As cervejas já acabaram? — Ela perguntou, olhando para mim, e eu me assustei.
Como assim? Ela não está pensando em beber a essa hora, né?
— Ontem, quando eu cheguei, havia muitas garrafas quebradas pelo chão. Mas eu fiz café, e acho que isso pode te ajudar, vai te fazer bem — falei, puxando uma cadeira de madeira e lhe lançando um olhar como se fosse um convite.
— Ai, Alice, você e essa mania de achar que sabe o que é melhor para mim — ela disse rindo. — A melhor forma de curar uma ressaca é continuar bebendo — disse, piscando para mim de forma divertida.
É inacreditável como ela trata um assunto que abala e destrói nossa relação de mãe e filha como se fosse um simples divertimento.
Será que ela não percebe que todo esse descaso machuca? Será que ela não nota que eu tento ao máximo cuidar dela, mas às vezes parece que ela busca algo nesse vício? Às vezes, parece que ela busca uma fuga da realidade, e isso me deixa triste porque eu sou peça essencial dessa realidade que ela tanto tenta escapar. E dói não ser motivo suficiente para ela querer melhorar e lutar contra isso que a mata aos poucos.
Deixo meu olhar se perder em um canto qualquer do cômodo, olhando para a parede e mordendo o lábio inferior.
— Tudo bem, Alice, você venceu. Já que não temos cervejas, vamos de café — disse, caminhando até mim.
Antes de sentar na cadeira, ela deixou um beijo na minha bochecha esquerda. Sabe, esses gestos parecem tão mecânicos e vazios.
Às vezes me sinto como um cachorrinho que fica mendigando atenção e, quando seu dono chega, ele lhe dá uma série de ordens e, quando consegue fazer o que lhe foi pedido, recebe um afago. É assim que eu me sinto quando recebo esses tipos de carinho da minha mãe; parece que estou recebendo apenas um prêmio de consolação pelo meu esforço.
— Mãe, aconteceu algo? — Questionei, sentando na cadeira ao seu lado.
— Por que dessa pergunta, Alice? — Ela questiona, e eu seguro a vontade de revirar os olhos.
— Ontem, quando eu cheguei, havia cacos de vidro por todos os lados — falei, gesticulando com as mãos, e quando vi o olhar da minha mãe sobre o meu curativo, abaixei as mãos, deixando-as sobre a coxa, longe de seu olhar. Não quero que ela fique preocupada ou que se sinta culpada por bobagens. — E também a senhora bebeu muito além do costume — falei a última parte bem mais baixa. Minha mãe largou a colher que estava usando para comer a salada de frutas, que caiu na mesa fazendo um barulho, e ela passou a mão na testa, chateada.
— São problemas de adultos, Alice — disse simplesmente.
— Foi por causa dele, né? — Questionei, e minha mãe se levantou da mesa de forma raivosa.
— Olha só, Alice, não foi somente por causa dele, ok? Foi uma série de fatores. Estávamos conversando e aí surgiu o seu... — Ela começou, mas parou de forma repentina e me olhou de forma magoada, e eu abaixei a cabeça. Acho que novamente sou a causa de seus problemas. — Enfim, a conversa evoluiu para uma discussão e falamos coisas que nos magoaram. Ele terminou comigo, fiquei com raiva e quebrei aquelas garrafas. Quando a raiva passou, fiquei triste e liguei para ele. Ele não quis me atender, e fiquei frustrada e resolvi sair para beber um pouquinho, mas não precisa se preocupar. Tenho certeza de que vamos voltar. Ele tem que voltar para mim. Estamos há muito tempo juntos, e sei que não vão ser algumas bobagens que vão nos atrapalhar — disse, andando de um lado para o outro, passando a mão pelos cabelos de forma nervosa enquanto os olhos se enchiam de lágrimas.
Depois disso, passei longos minutos dizendo o quanto ela era linda, trabalhadora, que era uma mulher que todo e qualquer homem sonharia em ter ao seu lado, que ela só precisava se valorizar e que, se ele não voltasse para ela, ele seria o único perdedor.
Mimei minha mãe ao máximo, rendi elogios, preparei um verdadeiro banquete, apesar de ela não ter comido muito por causa da ressaca. Mesmo assim, dei o meu melhor para vê-la bem e consegui arrancar algumas risadas. Senti-me orgulhosa quando deu meu horário de ir trabalhar. Fui um pouco mais confiante, porque acreditei que minha mãe ficaria bem. Então trabalhei me esforçando e me concentrando nas minhas tarefas.
No fim da tarde, no início da noite, quando cheguei em casa, parecia que estava se repetindo a mesma cena: a casa no breu terrível, a cozinha, em vez de garrafas, agora havia copos quebrados.
Dessa vez, não precisei sair correndo de bar em bar. O seu Zé cumpriu a promessa e me ligou assim que minha mãe já não aguentava mais se firmar nos próprios pés. O cheiro forte de álcool exalava dela.
Ela murmurava palavras soltas, algumas incompreensíveis e outras, porém, compreensíveis com um pouco de dificuldade. "Não acredito que você foi capaz de fazer isso" foi uma das frases que consegui formar, e nas outras, em sua maioria, eram xingamentos.
Fiz o mesmo processo da noite anterior, mas dessa vez ela estava muito agressiva. Quando me ajoelhei para tirar suas sandálias, ela acabou me chutando, e o chute acertou meu rosto. Com o impacto e por não estar esperando, acabei caindo no chão.
Lágrimas ameaçaram brotar, mas eu as ignorei e terminei de tirar a outra sandália.
Lhe cobri e saí do quarto. Dessa vez, eu estava chateada, com raiva e muito triste, queimando em fúria. Para não deixar esses pensamentos prevalecerem, saí para caminhar e fiquei andando na rua até o sol raiar. Passei em uma farmácia, comprei alguns remédios que poderiam ajudá-la e voltei para casa. Deixei um copo com água e o comprimido perto da cama, entrei no meu quarto, tirei a roupa que estava usando, vesti algo mais leve e dormi.
E foi assim que faltei à aula pela segunda vez consecutiva.
Dormi até o relógio despertar, indicando que eu deveria ir trabalhar. Me levantei e fui tomar banho. Me olhei no espelho e notei que havia um pequeno corte no meu lábio inferior, e apenas neguei com a cabeça. Não valia a pena questionar as razões para isso; não precisava de mais uma explicação vazia e sem sentido.
Maquiei-me, escondendo aquilo. Passei a passos rápidos pela sala, porque minha mãe estava lá. Assim que passei, ela veio me seguindo e eu apenas ignorei.
— Filha, sobre ontem eu...
— Ontem é passado e já não me importa mais — falei, cortando-a e pegando uma maçã. — Estou indo para o trabalho. Por favor, se quiser beber, compre e beba em casa, porque dessa vez não vou ir te procurar em bares — falei, e vi minha mãe me olhar com um semblante confuso e depois triste. Eu apenas saí de lá.
Passei o trabalho focando em qualquer coisa que me fizesse esquecer, mas a leve dor em meus lábios me lembrava constantemente do que aconteceu na noite passada.
— Está tudo bem, Alice? — Keila me questionou, e eu assenti.
Era a quarta ou quinta vez que me perguntavam isso, e eu menti em todas essas vezes.
O sino da padaria soou, e eu continuei parada, anotando uma das encomendas que a cliente fez por mensagem, torcendo para que Keila ou qualquer outro fosse atender.
— Alice, coloque um sorriso lindo nesse rostinho e vá atender aquela cliente que acabou de chegar — Keila falou, e eu suspirei.
— Por favor, atende lá pra mim — implorei, e ela negou.
— Sinto muito, Alice, não posso. Mas vai lá, te garanto que até o seu humor vai melhorar.
— Duvido muito disso — falei, pegando o bloquinho e seguindo até a mesa.
A garota estava de cabeça abaixada, totalmente concentrada em seu livro. Havia algo nela que me fazia lembrar alguém.
— Boa tarde. O que você deseja? — questionei, focando meu olhar no bloquinho.
— Quero um milhão de reais — a garota disse com aquela voz que conheço muito bem, e desviei o olhar para encontrar aquele sorriso lindo e perfeitamente alinhado. Quando sorri, uma covinha no lado direito aparece, o que a deixa tão naturalmente linda. — Espera, ainda tenho direito a mais dois desejos, né? Porque se eu tiver somente um desejo, então quero trocar meu um milhão de reais por um sorriso seu e quero um bolo de chocolate grátis porque também não sou de ferro, né? — ela disse.
— Não acredito que você veio de tão longe só pra me irritar — falei, fingindo irritação.
— Na verdade, vim pelo bolo e pelo desconto; irritar é apenas um bônus — ela disse, me oferecendo um sorriso, e eu acabei sorrindo.
— Aposto que você veio porque estava morrendo de saudades — falei, e ela deu risada, atraindo alguns olhares em nossa direção. Senti minhas bochechas corarem, mas não me importei porque estava concentrada demais admirando esse som.
A Bianca tem uma risada daquelas que te fazem querer rir junto, daquelas que contagia.
— Negar pra quê, né? Você é tão inteligente, Alice, sempre acerta de primeira. E sim, realmente vim aqui porque senti sua falta. Tá tudo bem com você? — Bianca questionou, e seu sorriso deu lugar a uma expressão séria enquanto ela me encarava e tentava me analisar.
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Atualizado até capítulo 98
Comments
Ana Faneco
aguardando atualizar ☺️
2024-07-10
1
Ana Faneco
anciando por mais capítulos autoraaaa querida
2024-07-10
1
A.Maysa
seu santo remédio chegou Alice para te alegrar e ela tem nome, Bianca...
2024-07-09
1