Acordo com o barulho insano do meu celular despertando, passo a mão pela cama tentando encontrar o maldito aparelho, abro os olhos com um pouco de dificuldade, eles estão sensíveis à claridade.
— Bianca, anda logo! Você vai se atrasar de novo. — Ricardo grita, batendo na porta.
Levanto apressada da cama, meus pés acabam enrolando nos lençóis e eu tropeço.
— Odeio as segundas-feiras — murmuro, indo em direção ao banheiro.
Tomo banho, visto uma calça jeans e a blusa de uniforme, faço uma leve maquiagem e penteio o cabelo, deixando a franja perfeitamente arrumada.
Depois de estar apresentável, pego a mochila que está jogada na cadeira ao lado da escrivaninha e desço as escadas em passos lentos.
Chego à cozinha e me deparo com uma cena típica de comercial de margarina.
Júlia está colocando um pedaço de bolo na boca de Ricardo. Depois dele comer um pedaço, ela coloca o restante na própria boca.
— Bom dia, irmãzinha — Ricardo diz, rompendo a bolha de cafonice deles.
— Fiz bolo — Júlia diz, se afastando do meu irmão. — Você quer um pedaço? — ela pergunta, oferecendo um breve sorriso.
Aproveito o momento para observá-la um pouco. Seus cabelos estão amarrados, ela veste uma calça jeans escura e a blusa branca de uniforme lhe cai muito bem.
— Não, obrigada. Vou beber só um copo de café. — falo, indo em direção à cafeteira, mas ela toma a minha frente e me serve.
Quando ela me entrega a xícara de café, nossos dedos se esbarram por um breve momento. Pego o meu café e me sento na cadeira ao lado do meu irmão, que está mexendo no celular.
— A mãe mandou mensagem. Ela disse que a vó já está melhor e, se tudo der certo, ela e o pai voltam neste fim de semana — Ricardo fala.
Meus pais precisaram ir ao hospital com a vó Lena, mãe da minha mãe. Ela escorregou, quebrou a perna e teve que ir para o hospital. Como nenhum dos meus tios que moram lá podia ficar com ela, minha mãe obviamente foi, afinal é a mãe dela, e meu pai foi junto para auxiliá-la no que fosse necessário. Ele acabou me deixando sob a responsabilidade do Ricardo.
Não que uma garota de dezessete anos precise de uma babá, e certamente Ricardo não seria a pessoa mais responsável do mundo para essa função. Penso enquanto tomo um pouco do café, que está quente e tão amargo quanto a minha vida.
— Vou levar a Júlia ao colégio e depois vou para a faculdade. Vai querer carona? — ele questiona, e enquanto tomo mais um pouco do café, pondero.
Qual é a pior escolha: ir a pé, chegar atrasada e cansada e levar outra bronca, ou suportar trinta minutos em um carro com meu irmão e a namorada dele?
— Vou com vocês — digo, levantando-me e correndo até o meu quarto para pegar o celular e o fone.
Desço já escutando a buzina do carro. Paciência nunca foi o ponto forte do Ricardo.
— Dá para andar um pouquinho mais rápido? — ele pergunta, colocando a cabeça para fora da janela do carro.
— Dá sim — respondo e continuo andando na mesma velocidade enquanto desembaraço o fone de ouvido.
Quando entro no carro, meu irmão suspira de forma frustrada e Júlia ri baixinho.
Coloco o fone de ouvido, e coloco as músicas da minha banda favorita pra tocar e fecho os olhos.
Assim que o carro para na porta do colégio, despeço-me do meu irmão e sou a primeira a descer. Passo pelo portão e caminho despreocupadamente pelos corredores, vez ou outra cumprimentando algum conhecido ou professor.
— Por que você não esperou? — Júlia me questiona.
— O quê? — pergunto, tirando os fones dos ouvidos e guardando-os na mochila.
— Eu perguntei por que você não me esperou — ela questiona, arqueando a sobrancelha e cruzando os braços.
— Você não pediu — falo, e ela revirou os olhos.
— Você já está indo para a sala? — ela questiona, e eu confirmo.
— Então eu te acompanho — ela diz caminhando, e eu sigo seus passos.
— Pensei que você tinha trocado de sala — comento.
— Eu não troquei, eles me trocaram. A partir de hoje, você não terá mais a honra de estudar na mesma sala que eu — Júlia fala fazendo charme, e eu apenas balanço a cabeça negativamente.
Se ela soubesse que eu fico aliviada por isso.
Quanto mais longe ela estiver, melhor será para minha concentração nas aulas. Vai ser bom, porque o que os olhos não veem, o coração não sente. Quem sabe assim isso que eu sinto por ela não acabe, ou ao menos diminua.
Júlia se despede de mim e vai para a sala no final do corredor. Eu entro na minha sala e me sento na quarta cadeira do canto.
Aos poucos, as carteiras vazias vão sendo ocupadas, e não demora muito para Verônica, a professora de Português, entrar na sala. É impressionante: só ela entrar e os barulhinhos cessam. Ela deve ser uma das professoras mais intimidadoras da escola.
Enquanto organiza os materiais em cima da mesa, o silêncio da sala é interrompido por batidas suaves na porta. A porta se abre lentamente, revelando uma garota tímida que adentra a sala com passos hesitantes. Seus olhos castanhos brilham de nervosismo, enquanto suas mãos movem-se de maneira inquieta, brincando com a alça da bolsa que carrega consigo.
Seu cabelo castanho está perfeitamente amarrado em um rabo de cavalo, revelando um rosto delicado e angelical, seus olhos parecendo repletos de mistérios e segredos.
— Com licença, professora — a voz suave e bonita chama a atenção, e eu ergo o meu olhar para encarar a dona da voz.
— Oi, Alice, pode entrar e se sentar em uma das carteiras vazias — a professora diz sorrindo para a garota.
Há duas coisas que me chamam a atenção: a primeira é que Verônica sorriu para a garota e, desde que eu estudo com ela, ela nunca sorriu. Ela ri de você, mas jamais sorri para você, então isso é tipo um milagre.
E a segunda coisa que me chama a atenção é que a garota está caminhando em direção à cadeira vazia na minha frente.
Vestida com uma blusa de frio preta, um pouco maior que seu tamanho, ela parece tentar se esconder dentro da peça de roupa, como se desejasse passar despercebida. A calça jeans justa que veste é coberta pela blusa, revelando apenas um vislumbre de suas curvas delicadas.
Meus olhos são irresistivelmente atraídos para garota, fascinada pela sua aura de fragilidade e mistério que a garota exala.
Enquanto a garota tímida se acomoda na cadeira à minha frente, a sala é tomada novamente por cochichos e, de repente, todos os olhares estão voltados para ela, que se encolhe na cadeira, provavelmente muito intimidada com toda essa atenção.
Ela parece estar super desconfortável, então em um momento de devaneio, acabo esticando a minha mão e tocando o ombro da garota.
Imediatamente, o corpo dela fica ainda mais tenso e rígido, ela se vira olhando para mim, e eu me sinto intimidada com a intensidade daquele olhar. Tiro a minha mão do seu ombro e murmuro um pedido de desculpas.
Sinto um alívio esmagador quando a professora exige silêncio e chama a atenção de todos, começando a explicar a matéria.
Quando a garota se vira totalmente para frente novamente. A tensão que enchia o ar começou a se dissipar. Minha respiração, antes antes presa e irregular, encontrou seu ritmo natural, permitindo- me finalmente sentir o alívio que espalhava pelo meu corpo.
Sinto os meus ombros relaxarem um pouco, solto a respiração que nem ao menos percebi que segurava.
As aulas correram normais, óbvio que o assunto mais comentado durante as aulas era essa troca de alunos. A maioria tem medo de passar para outra sala, não é que eles sejam ruins ou algo do tipo, mas é que nossa turma já está junta há muito tempo e este é o último ano, então ninguém quer ter o trabalho de se enturmar, de se acostumar com outros colegas.
Durante o intervalo, eu queria conversar com a novata, mas parece que todo mundo queria a mesma coisa, então eu apenas desisti.
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Atualizado até capítulo 98
Comments
Marcela Rodrigues
algumas reações me dão estranheza por serem repetidas como "ela entrelaçou os braços" kk n sei pq??
2024-09-19
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Sofia 💞
a história percorre por um tom poético lindo e que te dá emoção e espectativa na história parabéns
2024-09-08
0
A.G
Quente e amargo como a minha vida define bem kkkkkkkk
2024-07-02
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