Por mais que eu nunca admitisse isso em voz alta e muito menos para ela, devo reconhecer que gostei de ter passado a tarde com a Bianca. Foi até divertido.
Uma das coisas mais satisfatórias foi ver a expressão da Júlia quando a Bianca disse que viria comigo. Pensei que ela poderia inventar uma desculpa para ir com a Júlia, afinal, ela é apaixonada pela garota há tanto tempo. Por que ela deixaria de passar mais tempo com Júlia para me acompanhar ao trabalho?
Passei tanto tempo observando a Bianca que acreditei conhecer tudo sobre ela. Pensei que sabia como ela pensava e estava convencido de que ela faria qualquer coisa para ficar com a Júlia.
Durante nossa conversa sobre o trabalho, vi uma oportunidade. Uma ideia surgiu e, acreditando que a paixão da Bianca pela Júlia a levaria a aceitar sem hesitar, percebi que poderia colocar meu plano em prática.
— Acho que terminamos por hoje, pessoal — disse André, terminando de limpar a última mesa.
André é um dos funcionários que trabalham comigo. Não tenho muita intimidade com nenhum deles. Conversamos sobre o trabalho e às vezes brincamos, mas nunca falamos sobre a vida pessoal.
— Finalmente, estou exausta — comentou Keila, soltando um suspiro exagerado. Ri da sua expressão dramática.
A padaria estava tranquila, com as mesas já vazias . As luzes amarelas criavam uma atmosfera aconchegante.
— Olha só, acho que é a primeira vez que vejo a Alice sorrindo no fim do expediente. Normalmente, seu bom humor não sobrevive até o fim do dia. Será que uma certa garota de franjinha é a responsável por isso? — André me questionou com um olhar aguçado.
— Não sei do que você está falando — respondi, revirando os olhos e caminhando apressadamente até a sala onde deixamos nossas coisas. Peguei minha mochila.
Infelizmente, André está certo. Quando chega a hora de fecharmos e irmos embora, meu humor desaparece drasticamente. Trabalhando aqui, recebo mais do que o salário. Aqui, eu me distraio, não me sinto acuada. O trabalho é meu escape, minha distração. Sou obrigada a socializar e não é tão ruim. A maioria dos clientes são educados e me tratam com respeito. Oferecer sorrisos gentis e ser educada não é difícil.
Terminamos de fechar a padaria. Despedi-me dos meus colegas e fui embora. Nesse horário, alguns lugares estão fechando enquanto outros estão abrindo. Tudo é tão intenso, sempre em movimento.
Chego em casa e as luzes apagadas me chamam a atenção. Entro devagar, tateio a parede até encontrar o interruptor e acendo a luz da sala. O silêncio é absoluto. Caminho até a cozinha, acendo a lâmpada e meus olhos se arregalam diante da cena.
A cozinha está uma completa bagunça. Garrafas de cerveja quebradas, líquido espalhado pelo chão, cacos de copos perto da pia. Tudo está uma desordem. As vasilhas estão reviradas e fora de seus lugares.
O que aconteceu aqui? Essa é a pergunta que ecoa na minha mente.
Saio da cozinha apressada e corro até o quarto da minha mãe.
— Mãe? — bato na porta. — Mãe, a senhora tá aí?
Recebo apenas silêncio. Abro a porta e entro rápido, temendo o pior. A cama está bagunçada, mas vazia. Peças de roupas jogadas pelo chão, parece que passou um furacão por aqui. A porta do banheiro está aberta e não há sinais dela ali. Isso me angustia completamente.
Ligo para ela. O telefone chama até cair. Tento novamente, mas nada. Caminho pelo quarto com o celular no ouvido, levo a mão à testa. Odeio essa falta de informação, essa sensação de impotência, esse ciclo sem fim. Tento mais uma vez e a ligação é rejeitada. Solto um suspiro, guardo o celular no bolso.
O que custa atender e dizer que está bem?
Arrumo o quarto e troco o forro da cama. Vou ao meu quarto, pego uma blusa de frio mais grossa e visto. Volto para a cozinha e arrumo a bagunça. Recolho os cacos de vidro apressadamente, pois preciso ir a todos os bares do bairro e encontrar minha mãe.
Na pressa, acabo me descuidando e um pedaço de vidro perfura meu dedo. Puxo o pequeno pedaço de vidro e logo o sangue começa a pingar. Ignoro e continuo a tarefa. Depois de arrumar tudo, lavo o dedo e coloco um curativo. Sei que minha mãe deve estar em algum barzinho. O problema é que, cada vez que ela some, muda de bar. Acho que ela não gosta quando vou buscá-la.
Dou um sorriso triste. Mesmo sabendo como isso termina, sempre vou atrás dela. Pego um pouco de dinheiro e saio andando. O clima está frio e penso que deveria ter pego uma blusa de frio para minha mãe. Mas já estou longe para voltar. Vou ao bar mais perto de casa, um bar simples, cujo dono é um senhor de idade. Dou uma olhada nas mesas da varanda, mas não encontro minha mãe.
Caminho até o balcão, onde o senhor está servindo uma dose de pinga para um cliente. O cheiro de álcool, cigarro e salgados toma conta do ambiente. O senhor me encara e sorri timidamente.
— Boa noite, seu Zé — falo, aproximando-me do balcão. — Minha mãe apareceu por aqui?
— Ela passou mais cedo, Alice, mas não demorou muito. Pensei que tinha ido para casa — diz ele.
— Se ela passar por aqui de novo, me avise? — peço. Ele me entrega um bloquinho de notas e uma caneta.
— Deixa seu número aqui. Se ela aparecer, te aviso.
— Obrigada — respondo, anotando meu número e devolvendo o bloquinho e a caneta.
Saí do bar e passei em outros dois. Estava quase desistindo quando vi minha mãe cambaleando bêbada pela rua, se escorando pelos muros. É horrível ver isso. Sinto um nó na garganta. É triste demais ver minha mãe se entregando ao vício. Não conseguir ajudá-la me dói até a alma.
Quando ela tropeça, corro até ela. Felizmente, consegue se escorar e não cair.
— Você está bem, mãe? — pergunto. Ela murmura algo. Tento ajudá-la a andar e ela afasta minha mão.
— Pelo amor de Deus, Alice, não preciso da sua ajuda — diz, arrastando as palavras. Tenta caminhar novamente, tropeça, mas dessa vez me coloco ao lado dela. Sem dizer nada, passo minha mão pela cintura dela, coloco o braço dela sobre meu ombro e a ajudo.
— Você é muito teimosa. Não preciso da sua ajuda. Só me atrapalha. Você é igualzinho ao seu pai — diz, pronunciando cada palavra com desprezo. Finjo que não escuto, finjo que ela só está falando assim por causa do álcool.
— Vocês dois atrapalharam minha vida — ela diz grogue, caminhando mais devagar. Uma lágrima solitária escorre pelo meu rosto.
— Acho melhor pararmos um pouco — digo, ajudando-a a sentar na calçada.
Ela senta, tremendo um pouco. Tiro minha blusa e visto nela, apesar de ela protestar e dificultar ao máximo. Me levanto e pego o celular, chamando um carro. Felizmente, não demora muito para chegar. O motorista, notando minha dificuldade em fazer minha mãe entrar no carro, me ajuda. Agradeço.
Chegamos em casa. Pago o motorista e ajudo minha mãe até o quarto. Ela parece exausta. Deixo-a na cama enquanto vou ao banheiro, ligo o chuveiro, deixando na água morna. Quando volto ao quarto, ela já está dormindo. Suspiro cansada, tiro suas sandálias e a cubro com a coberta. Volto ao banheiro, desligo o chuveiro, deixo a luz acesa e a porta aberta para poder escutar se ela precisar de ajuda.
Me sento no chão do corredor, escorando minhas costas na parede. Penso quantas vezes mais essa cena irá se repetir. Pego meu celular, procuro o nome do meu pai e ligo para ele. Enquanto o telefone chama, observo sua foto de perfil: ele sorrindo com sua filha e sua esposa. Parecem tão felizes. A garotinha tem o mesmo sorriso dele.
— Alice? — a voz rouca me tira do transe. Levo o celular ao ouvido. — Aconteceu alguma coisa?
— É o mesmo de sempre, pai. Ela precisa de ajuda — digo. Ouço ele suspirar pesado. A linha fica em silêncio, ouço uma porta se abrindo e fechando.
— Escuta, filha, sua mãe é complicada...
— Ajude ela, pai. Se não por ela, pelos anos que passaram juntos, faça por mim — peço, interrompendo.
— Sei que você acha que estou sendo egoísta, mas as coisas são mais complexas do que isso. Sei que você quer ajudar, mas a decisão tem que partir dela. É um processo que ela precisa passar sozinha e decidir que quer mudar — diz ele.
— Você tem condições de ajudar. Por que não ajuda?
— Alice, sua mãe não é criança. Ela é responsável pelas escolhas que faz e tem que aguentar as consequências. Não adianta querer que ela melhore, que faça um tratamento se ela não quiser. Você não pode tomar as dores dela para você, filha. Isso vai te machucar e acabar te destruindo.
— As dores dela já me machucam. Os problemas dela respingam em mim. Os problemas dela já estão me destruindo. O que devo fazer? Devo fugir e abandoná-la igual você fez com a gente? Devo fingir que não me importo? Devo fingir que não é a minha mãe, a mulher que me deu a vida, que está sendo destruída por esse vício maldito? — questionei com raiva.
— Olha, Alice, as coisas não são assim. Sua mãe não é vítima. Nós dois temos nossa parcela de culpa nessa história. Eu errei, sua mãe também errou — meu pai disse, tentando se justificar.
— Se foram vocês dois que erraram, então por que só eu estou pagando por isso? Por quê? — questionei, e a linha ficou muda.
Desliguei a chamada, deixei o celular no chão e abaixei a cabeça, chorando baixinho. O peso da responsabilidade e a impotência me consumiam, e tudo o que eu queria era uma saída, uma solução que não parecia existir.
Levantei-me e fui até o quarto da minha mãe. Ela dormia profundamente, alheia à dor que causava. Ajustei a coberta sobre ela e passei a mão pelo seu cabelo, um gesto carinhoso que parecia quase inútil. Saí do quarto, apagando a luz suavemente, e voltei para o corredor. Sentei no chão, exausta, e me deixei ser envolvida pelo silêncio da casa.
Fechei os olhos, tentando encontrar algum consolo nas memórias felizes que um dia tivemos. Lembrei-me de quando eu era pequena e ela me ensinava a fazer biscoitos na cozinha. A risada dela preenchia o ambiente, e eu me sentia segura. Era difícil reconciliar aquela mulher alegre com a pessoa que ela havia se tornado.
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Atualizado até capítulo 98
Comments
Aline Costa
acabei chorando lendo esse capítulo,senti tudo que Alice está sentindo ,pois infelizmente meu pai era um alcoólatra e foram quase 25 anos que passei por isso.. Mas com a honra e Glória de Deus já tem muitos anos que ele não bebe mais 🙏🙏
2024-07-07
8
Albertina Angelo
mais um capítulo
2024-07-07
1
Maria Andrade
tadinha da Alice a situação dela e muito complicado só Bianca pra ajudar La
2024-07-07
1