**Se você nunca tentar, então você nunca saberá.**
O domingo finalmente chegou, e diferente de todos os dias, eu me levantei antes mesmo do despertador tocar. Estava me sentindo muito inquieta.
Tentei dormir novamente, mas nada resolveu. Então, sem ter muito o que fazer, me levantei fazendo o mínimo de barulho possível. Todos ainda estavam dormindo e eu não queria acordá-los. Não é porque eu não consigo dormir que devo acordá-los.
Coloquei os fones, vesti um moletom e fui fazer uma caminhada matinal. O sol estava começando a nascer e não havia muitas pessoas pelas calçadas. Afinal, quem em sã consciência levanta às seis da manhã em um domingo?
Enquanto caminhava, o vento frio soprava em meu rosto, trazendo uma sensação de frescor, e isso era muito bom. Caminhava cada vez mais rápido e, quando percebi, já estava correndo pelas calçadas. Sentia meus batimentos acelerados, o barulho do meu tênis batendo firme contra o chão e minha respiração ofegante.
Uma sensação de liberdade me invadia. Andei mais algumas quadras e, quando meus músculos começaram a reclamar, decidi que era hora de voltar.
Cheguei em casa pingando de suor. Passei pela porta e fui recebida por três pares de olhos curiosos.
— Tá fugindo de quem? — Ricardo questionou enquanto eu caminhava até a geladeira, pegando a jarra com água.
— Bom dia pra vocês também — eu disse, me servindo um copo de água enquanto matava minha sede, ainda tentando controlar minha respiração.
— Desculpa, filha. Bom dia. Você está bem? Aconteceu alguma coisa? — Meu pai questionou, preocupado.
— Hã... Estou bem, por quê?
— É que você madrugou pra correr igual doida por aí. Não estamos acostumados com esse milagre — Ricardo disse debochado, enquanto comia um pedaço de bolo, e minha mãe acabou batendo o pano de prato nos ombros dele. Eu sorri com isso.
— Para de implicar com a sua irmã — minha mãe o repreendeu. — Mas, filha, o Ricardo está certo. Você realmente não é de levantar cedo, ainda mais pra fazer exercícios.
Eu me sentei à mesa, me servindo um bom pedaço de bolo.
— Eu perdi o sono, então decidi dar uma volta por aí — eu disse de forma breve.
— Hum, perdeu o sono, né? Isso é por causa dessa sua coleguinha que vai vir aqui em casa hoje? — Ricardo questionou, arqueando uma sobrancelha.
— Não tem nada a ver com isso. E ninguém diz coleguinha. Já faz muitos anos que eu saí do primário — eu disse, levando um pedaço de bolo de coco até a boca.
O bolo de coco estava perfeito: macio, úmido e cheio de sabor. A massa era leve e fofa, com um equilíbrio perfeito entre doçura e o sabor natural do coco. O recheio de coco era cremoso e tinha um toque sutil de coco ralado para intensificar o sabor.
— Mãe, tudo o que a senhora faz é maravilhoso e eu sou prova viva disso, mas esse bolo está divino — falei, pegando mais um pedaço de bolo.
— Você é meio suspeita pra falar, né, Bianca? Pra você, todas as comidas são divinas e você nunca rejeita nada — Ricardo disse, e eu revirei os olhos em sinal de tédio.
— Crianças, parem de discutir na hora do café — minha mãe pediu.
— Que horas você disse que a sua amiga vai vir fazer o trabalho? — Meu pai questionou.
Desde que combinei com a Alice de fazer o trabalho aqui, deixei meus pais avisados de que ela viria e praticamente supliquei para que meu irmão não agisse como um idiota.
— Ela disse que às duas da tarde estaria aqui. Ela pode chegar antes ou depois do horário marcado e pode ser que nem apareça — eu disse, estalando os dedos da mão.
É difícil saber o que esperar da Alice.
Depois do café da manhã, dei mais algumas folheadas no livro, li as anotações e fiz um resumo rápido.
Assim como todos os domingos, por volta do meio-dia, meu irmão foi buscar a Júlia. Aqui em casa, é de lei: todo domingo é dia de almoço em família e sempre tem churrasco.
Desde que o Ricardo começou a namorar a Júlia, ela passou a fazer parte da nossa tradição familiar, então ela também está sempre presente durante os domingos.
Diferente do domingo passado, desta vez eu estava ajudando ativamente na cozinha. Piquei as verduras, lavei as vasilhas que sujaram e nem me preocupei em estar dividindo o mesmo ambiente que a Júlia.
Apesar de tentar negar, minha única preocupação era se a Alice iria aparecer ou não.
Quando deu uma e cinquenta da tarde, fui até o portão e deixei-o aberto. Sentei-me lá no quintal. Uma música qualquer tocava na caixinha de som do meu irmão enquanto ele e a Júlia dançavam agarradinhos. Meu pai comandava a churrasqueira enquanto minha mãe estava preparando alguma sobremesa na cozinha lá dentro.
Quando o relógio marcou duas da tarde, a Alice chegou. Ela ficou parada no portão. Fiz um sinal para que ela entrasse, mas ela continuou no mesmo lugar, então tive que me levantar do meu confortável lugarzinho para ir até ela.
Ela estava usando uma camiseta de manga longa e uma calça jeans preta e estava com a mochila nas costas.
— Você é bem pontual, hein — comentei assim que cheguei perto dela.
— Eu costumo levar meus compromissos a sério. Você podia ter me avisado que teria compromisso e a gente poderia remarcar — ela disse, olhando para onde a Júlia e o Ricardo dançavam.
— Isso não é nada demais — eu disse, e a Alice me olhou incrédula. — Não se preocupe, tá? Vou pedir pra eles desligarem a música e, além disso, a gente pode fazer o trabalho no meu quarto — disse, puxando a Alice para dentro e fechando o portão antes que ela decidisse ir embora sem terminar o trabalho.
— O que você tá fazendo? — Ela questionou entre dentes enquanto eu a puxava pela mão.
Ela se mostrou um pouco relutante e tentou soltar as nossas mãos, mas eu segurei mais forte.
Assim que meu pai nos notou, ele se afastou da churrasqueira e desligou a caixinha de som. A Júlia e o Ricardo pararam de dançar e também nos olharam.
— Ei pessoal, essa é a Alice — falei, me aproximando deles. — Alice, esse é o Richard, meu pai, o Ricardo, que é meu irmão, e a Júlia, que é a namorada dele.
Meu irmão olhou para a Alice, arqueando a sobrancelha, parecendo surpreso, e logo em seguida abriu um leve sorriso, fazendo um aceno rápido com a cabeça como se fosse um cumprimento.
A Alice deu um breve sorriso, mas desviou o olhar rapidamente.
Isso me deixou confusa. Eles já se conhecem?
— Muito prazer, Alice. Seja bem-vinda e fique à vontade — meu pai disse, estendendo a mão e cumprimentando a Alice, que retribuiu o gesto.
— Tudo bem, Alice? — Júlia disse, estendendo a mão em um cumprimento. — A Bianca fala muito de você — Júlia comentou, e a Alice me olhou fixamente, fazendo minhas bochechas corarem.
— Imagino que sim — Alice disse para Júlia, mas seu olhar continuou me queimando.
Júlia se afastou e então meu irmão se aproximou.
— Tudo bem, Alice? — ele questionou sorrindo, e a Alice retribuiu o sorriso abertamente. — É muito bom te ver de novo — ele disse e beijou o rosto da Alice.
Isso mesmo, ele beijou o rosto da Alice. Ela pareceu surpresa com o gesto, mas retribuiu com um sorriso gentil.
— Vocês já se conhecem? — Júlia questionou, cruzando os braços e fuzilando Ricardo com o olhar.
Um olhar que deixava claro que ela não gostou nadinha disso, assim como eu também não gostei. A única diferença é que ela pode cobrar uma explicação dele.
— Sim. A gente se conhece...
— Do colégio — Alice disse, cortando meu irmão. — No ano passado, a turma do Ricardo, juntamente com outras turmas, inclusive a minha, fazia parte de um clube de leitura onde a gente debatia sobre alguns livros, escrevia poesias, crônicas, coisas desse estilo — Alice explicou, e Ricardo concordou.
— Sim, justamente, a gente fazia parte desse clube — Ricardo concordou.
— Eu não sabia que você fazia parte de um clube, Ricardo — Júlia disse.
— Eu até te chamei pra participar, Júlia, você não se lembra? Mas você disse que não fazia o seu estilo — Ricardo disse sério.
— Sinceramente, Ricardo, também não faz muito o seu estilo — eu falei, e meu irmão revirou os olhos.
— Eu sou um cara romântico. Me inscrevi nesse clube porque achei que poesias me ajudariam a conquistar o amor da minha vida e, modestamente, deu super certo — ele disse, abraçando a Júlia, que sorriu satisfeita.
Olhei para Alice e o olhar dela estava fixo no casalzinho apaixonado.
— Vem, vamos continuar o trabalho sobre "Madame Bovary" — eu disse, puxando Alice.
Subimos para o meu quarto e logo minha mãe apareceu trazendo sanduíches, bolo e uma jarra de suco.
Ela foi super educada com Alice e a tratou muito bem, logo saindo para que pudéssemos nos concentrar no trabalho.
— Então, sobre a segunda parte do livro, eu estava pensando em destacar mais a insatisfação da Emma com a vida e como isso a leva a buscar algo além do casamento dela. Você concorda? — questionei, sentada na minha cama e escorada na cabeceira.
— Concordo. A insatisfação dela é central para a narrativa. Mas você percebeu como essa insatisfação é alimentada pela ideia de cobiça e desejo pelo que não pode ter? — Alice disse, pegando o caderno na mão.
— Sim, mas não acho que seja só isso. Acho que a Emma estava em busca de algo mais, algo que ela não conseguia identificar.
Emma, a personagem principal do livro, tinha muitos desejos, mas não sabia exatamente o que desejava.
— Claro, mas não se pode negar que as pessoas tendem a desejar aquilo que pertence a outro, algo proibido. Isso infla o ego delas — Alice disse convicta.
— Não acho que seja sempre assim. Nem todos são tão... superficiais.
— Superficiais? Isso é natural, Bianca. Faz parte da natureza humana. Quer um exemplo? Se você estivesse em um relacionamento e alguém que te interessa não pudesse te ter, não acha que isso despertaria um desejo maior nessa pessoa? — ela questionou, e eu neguei.
— Acho que isso é loucura. Se a pessoa não me quis antes, por que me querer agora? Só porque estou em um "relacionamento"?
— Porque você se tornaria algo proibido, Bianca. O desejo pelo proibido é muito forte — Alice disse como se dominasse o assunto.
— Eu discordo. Se alguém não me enxergou antes, não é a minha indisponibilidade que vai mudar isso.
— Quer apostar? — ela perguntou, levantando uma sobrancelha, um sorriso desafiador surgindo no rosto.
— Apostar? — questionei, curiosa.
O que essa psicopata está querendo aprontar?
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Atualizado até capítulo 98
Comments
Ana Faneco
ahhhh autora continua por favorzinho 🤪tá bom D+++
2024-06-26
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Maria Fabiana
só posso pedir mais mais mais mais mais e muitos outros maisssss
2024-06-26
5
A.Maysa
eita! o que a Alice vai aprontar...jogos de amor nunca dão certo ou vai 🤔
2024-06-26
1