Sem a presença da Júlia na sala, eu até passei a prestar mais atenção nas aulas, embora vez ou outra ela surgisse em meus pensamentos. De qualquer forma, ainda não era algo tão persistente quanto quando ela estava na mesma sala, e inevitavelmente meus olhos sempre encontravam um jeito de estarem atentos a ela.
Observando cada um de seus movimentos, às vezes ela me pegava olhando, e todas as vezes que isso acontecia, eu sentia meu coração acelerar e minhas mãos se fecharem em punho. Eu me esforçava para não parecer patética e fingir que não estava babando por ela. Ela, alheia a toda a confusão que embrulhava o meu estômago, me oferecia um breve sorriso, que, embora sem jeito, eu retribuía da melhor forma possível, ainda que às vezes parecesse forçado e desajeitado.
Já perdi as contas de quantas vezes disse a mim mesma que deveria abandonar esse sentimento, que isso não era justo nem com a Júlia, nem com o Ricardo, e principalmente comigo.
Mas nem sempre o coração escuta a lógica. Apesar do óbvio ainda estar lá, é como se existisse um pequeno grão de esperança minúsculo que se apega a cada mínimo gesto de gentileza, de cuidado e preocupação, fazendo com que acreditemos que talvez haja uma possibilidade. Ainda que ela seja mínima, tão pequena quanto um grãozinho de mostarda.
Enquanto o professor de física anda de um lado para o outro na frente do quadro, explicando de forma empolgada e gesticulando animadamente, falando com tanta convicção, eu quase me sinto mal por não estar prestando atenção na aula.
O professor então conclui a sua fala, caminha lentamente até sua mesa, deixa o pincel sobre a mesa e pega sua garrafinha d'água, bebendo um pouco.
Abaixo meu olhar para o meu caderno e encaro as folhas em branco. Então, ergo o olhar para o quadro à minha frente e é impressionante a quantidade de palavras e desenhos horrorosos que tem naquele quadro. Aprecio muito a disposição do professor Fernando em suas explicações, mas definitivamente ele não manda bem nos desenhos.
Pego minha caneta vermelha, pronta para copiar o título da matéria: "Termodinâmica e a Segunda Lei da Termodinâmica". Enquanto escrevo, o professor começa a caminhar entre as mesas, observando e comentando algo. Começo a copiar o mais rápido que consigo, mas não foi rápido o suficiente.
O professor se coloca ao lado da minha mesa, olha diretamente para o meu caderno e faz um pequeno murmúrio em sinal de desgosto.
Ergo meu olhar e ele está me encarando com uma sobrancelha arqueada e os seus olhos, por trás das lentes daquele óculos de grau, me encaram de forma inquisidora.
Ele se afasta da minha mesa, passa pela mesa da aluna nova e sorri de forma satisfeita. Depois que ele termina a sua pequena ronda, caminha até sua mesa, se escorando nela e cruza os braços. Por um momento, sinto seus olhos firmes em mim.
— Faltam alguns minutos para a aula acabar, então quero aproveitar esse momento para ver o que vocês assimilaram do conteúdo — o professor Fernando disse e sorriu. — Vou fazer as perguntas e quem souber as respostas pode levantar as mãos — ele fala e todos assentem.
— Vamos começar com uma pergunta fácil: o que é a Segunda Lei da Termodinâmica? — o professor questiona e, por um momento, sinto que ele está olhando para mim.
A sala fica em silêncio, e ao que parece ninguém quer responder. Por um momento, sinto-me aliviada por saber que não sou a única que não estava prestando atenção em nada.
Mas não demora muito para a garota à minha frente erguer a mão e todos os olhares da sala se voltarem para ela. Vejo um sorriso sincero surgir nos lábios do professor, quase como se ele estivesse agradecido.
— Pode falar, Alice — o professor se aproxima da mesa da garota e, consequentemente, também da minha.
— Bem... A Segunda Lei da Termodinâmica é um princípio fundamental da física que afirma que a entropia de um sistema isolado sempre tende a aumentar com o tempo. Ela pode ser expressa de diferentes formas, mas basicamente significa que os processos naturais tendem a levar a um aumento da desordem ou aleatoriedade do sistema — Alice fala, e como estou bem atrás dela, não consigo ver seu rosto, mas ela responde com confiança e em um tom de voz que dá para todos na sala ouvirem.
— Muito bem, Alice — o professor assente satisfeito e dá mais um passo, ficando bem ao meu lado. — Bianca, você poderia nos dar um exemplo da Segunda Lei da Termodinâmica? — ele pergunta olhando diretamente para mim.
E em um segundo, todos os olhares dos meus queridos colegas de classe estão sobre mim. Meu olhar vai de encontro ao do Cristian, meu melhor amigo, e eu praticamente imploro por ajuda, e ele simplesmente dá de ombros, mostrando que sabe tanto quanto eu.
Olho novamente para o quadro e tento me lembrar do que a tal Alice acabou de falar.
Entropia? O que raios significa isso? Me questiono enquanto olho para o quadro e, no canto superior à esquerda, está a minha resposta.
Entropia: medida da quantidade de desordem que há em um sistema.
— Acho que a minha vida seria um ótimo exemplo, professor.
— Que interessante, explique melhor — o professor pede, e a garota à minha frente se vira para mim, parecendo realmente interessada na resposta.
— Pelo que eu entendi, em qualquer processo natural, a entropia do universo ou de um sistema isolado aumenta. Isso significa que as coisas tendem a mover de um estado de ordem para um total estado de desordem, e isso se encaixa perfeitamente na minha vida.
— Acho que entendi o que você quer dizer, Bianca. Sua vida é uma bagunça completa, é isso? — o professor disse com um sorriso no rosto, provocando risadas na sala.
— Exatamente. Minha vida é como um caos em constante crescimento, sem nenhum tipo de organização. Assim como a entropia do universo aumenta, a desordem na minha vida também segue essa mesma tendência — respondi, tentando manter um tom de bom humor mesmo diante da situação constrangedora.
— E como você pretende resolver essa 'entropia' na sua vida, Bianca? — o professor Fernando questionou, parecendo genuinamente interessado na minha resposta.
— Ah, professor, acho que a melhor forma de lidar com a desordem na minha vida é simplesmente aceitá-la e tentar encontrar beleza na bagunça. Afinal, como disse Albert Einstein, "a vida é como andar de bicicleta, para manter o equilíbrio é preciso se mover". Então, enquanto eu continuar seguindo em frente, a entropia na minha vida não será um problema — respondi, tentando soar filosófica e inteligente.
A sala ficou em silêncio por alguns segundos, e então o professor Fernando sorriu e assentiu, parecendo satisfeito com a minha resposta.
— Muito bem, Bianca. Acho que podemos considerar essa uma excelente aplicação da Segunda Lei da Termodinâmica na vida real — o professor elogiou, fazendo com que um pequeno sorriso de orgulho se formasse em meu rosto.
Enquanto a aula continuava, eu me peguei pensando na ironia da situação. Quem diria que minha bagunçada vida pessoal poderia ser comparada à entropia do universo? Mas, de certa forma, isso me fez perceber que a desordem e o caos também têm sua beleza e seu propósito. Afinal, como dizem, a bagunça é só um jeito diferente de arrumar as coisas.
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Atualizado até capítulo 98
Comments
rihanna 👞
lacrou, eu até estava confiando nela vey
2024-10-24
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Marcela Rodrigues
que tudooooo, ela conseguiu finalizar com honras
2024-09-19
0
Marcela Rodrigues
me sinto representada, então eu tô gostando (ㆁωㆁ)
2024-09-19
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