Acordo cedo na segunda-feira. A luz fraca do sol entra pelas cortinas desgastadas do meu quarto. Uma mistura de ansiedade e cansaço me domina enquanto me arrumo para a escola. Cada manhã é uma batalha para encontrar a motivação para sair da cama, mas a escola é meu refúgio, meu escape da realidade que me espera em casa.
Tomo um banho rápido, visto uma calça discreta, a blusa de uniforme e uma blusa de manga longa. Depois arrumo meu quarto. Vou para a cozinha e preparo o café da manhã. Como não passo muito tempo em casa, minha mãe decidiu que eu seria responsável por fazer o café. Sempre preparo o café e faço um sanduíche para comer no caminho. Quando aquele sujeito não está em casa, fico mais um pouco com minha mãe durante o café, mas nos dias em que ele está, prefiro sair mais cedo para evitá-lo.
Saio de casa rapidamente, aliviada por não encontrar Antônio. Caminho pelas ruas do bairro, observando as casas e os carros que passam. Tento deixar meus pensamentos negativos para trás e me concentrar no dia que tenho pela frente.
Nunca fui de ter muitos amigos na escola. Sempre preferi me resguardar, não deixar ninguém saber o que se passa comigo, evitar perguntas e interações. Confiar nem sempre é uma opção. Deixar as pessoas se aproximarem é assumir o risco de que, em algum momento, elas vão te decepcionar ou vão embora. Isso é inevitável.
Mas, por mais confortável que a solidão seja, ela às vezes cansa. Decidi que este ano as coisas seriam diferentes. Quando decidiram fazer alterações e mudanças em algumas turmas, me transferiram para outro terceiro ano. Senti que poderia ser uma boa oportunidade para tentar fazer novos amigos. No entanto, essa ideia sumiu tão rapidamente quanto apareceu. Decidi seguir o plano original: trabalhar, juntar o máximo de dinheiro possível e estudar muito para passar no vestibular e entrar em uma faculdade, de preferência bem longe daqui.
Às vezes me sinto egoísta por pensar em ir embora, mas a verdade é que, já faz muito tempo, busco uma razão para ficar e não encontro. Nenhuma razão para ficar por si só já é uma boa razão para ir. Não pretendo virar as costas para minha mãe, mas, se continuar aqui, não conseguirei ajudá-la e, pior, estarei me prejudicando.
Sei que ela me ama, independentemente de tudo. Sei que ela tem um vício que precisa ser tratado e que tem um apego emocional muito grande àquele sujeito, não percebendo o quão mal ele nos faz. Preciso ser um pouco egoísta agora, me colocar como prioridade, porque até hoje ninguém fez isso por mim. Preciso buscar um futuro melhor para mim e, assim, poderei oferecer um tratamento decente para ela, claro, se ela quiser.
Faço o caminho todo até a escola no automático, enquanto meus pensamentos fervilham. Não gosto de tumulto, por isso chego mais cedo, quando ainda não há muitos alunos. Poucos alunos costumam chegar cedo. Caminho a passos lentos pelo corredor e vou direto para a biblioteca. Entro e, ao ver o espaço vazio, um sorriso satisfeito surge em meu rosto. Não me leve a mal; não é que eu não goste dos meus colegas. É que para mim é difícil me socializar e distribuir sorrisos educados.
Vou até a mesa no fundo, deixo minha mochila sobre ela e começo a olhar as prateleiras de livros despreocupadamente. Passo a ponta dos dedos pelos títulos dos livros. Toda a biblioteca é organizada por seções, cada prateleira reservada para um gênero literário: biografias, suspense, ficção científica, distopia, clássicos, poesias, contos, crônicas e romances. Nunca parei para analisar as obras na prateleira de romances; acho que não sou a maior fã do gênero.
Tomada por uma curiosidade repentina, decido dar uma olhada nessa prateleira que tantas vezes ignorei. Ela é composta por muitas obras de autores conhecidos: Jane Austen, Diana Gabaldon, Emily Brontë, Tolstoi, Shakespeare, Julia Quinn, José de Alencar, Machado de Assis, entre outros. Apesar de conhecer a maioria desses autores, não pego nenhum dos livros. Estou buscando outro tipo de romance. Leio todos os títulos, mas não encontro nenhum no estilo que gostaria de ler.
— O que você está fazendo?
Aquela voz que tanto me irrita me questiona e acaba me assustando, fazendo com que eu derrube alguns livros.
— Não é da sua conta. Respondo de forma rude e Bianca sorri.
— Educada como sempre. Ela diz, se abaixando para me ajudar a recolher os livros e colocá-los de volta nos lugares.
— Pensei que você não gostasse de chegar cedo. Falo e Bianca dá de ombros.
— Senti saudades. Ela diz casualmente.
— De me chatear, né?
— Também, mas não é só isso.
— O quê? Ainda tem mais? O que você tá aprontando? Questionei e ela riu. Aos poucos, o som da risada de Bianca preencheu o ambiente. Acho que ela é a única pessoa que, mesmo eu fazendo de tudo para mantê-la longe, ainda insiste em se aproximar.
— Nessa relação eu que tenho que me preocupar, porque você é muito geniosa e me coloca em problemas.
— Em primeiro lugar, que fique claro que não há nenhum tipo de relação entre a gente. Falo e Bianca simplesmente me ignora, começando a mexer nos livros à nossa frente.
Ela tira um livro da prateleira, lê a capa de trás onde está a sinopse, balança a cabeça e faz um barulho de negativa, colocando o livro de volta no lugar. Repete o processo com outros livros.
Ou ela tem um senso muito crítico, ou não gosta de nada.
— Não tem nenhum livro bom aqui. Ela reclama depois de depreciar todas as obras que pegou.
— Ou provavelmente você tem um gosto literário muito pobre e não sabe apreciar um bom romance. Falo de forma ácida e Bianca cruza os braços, me olhando como se dissesse "Ah é mesmo?".
— Esses romances são chatos, água com açúcar e previsíveis. Mostram a mesma realidade e a mesma forma tradicional de sempre: garota conhece garoto e se apaixona; normalmente o garoto é um babaca que magoa a mocinha, mas ela está apaixonada e aceita ser tratada como lixo. Ela não se impõe, não luta pelos seus ideais, e sinceramente eu não me identifico com nenhuma dessas histórias. Ela fala e sorri, um sorriso lindo. Eu até concordo com ela em alguns pontos, mas jamais admitiria isso.
— Entendi. Certamente você se identificaria se alguma dessas histórias fosse sobre uma garota que se apaixonou pela cunhada. Falo e o sorriso de Bianca desaparece. Ela fecha a mão com tanta força que tenho certeza de que, se suas unhas estiverem grandes, machucarão suas palmas. Ela fecha os olhos, respira lenta e profundamente, abre os olhos e tenta falar algo, mas balança a cabeça e se afasta.
— Bianca. Chamo, mas ela me ignora e continua caminhando até a mesa onde minha mochila está. Sua mochila está ao lado da minha, e perto das mochilas há dois copos de isopor térmico com tampa e uma outra embalagem. Ela pega a mochila, coloca nas costas e parece realmente irritada.
— Me desculpa, Bianca. Eu só estava brincando. Falo, mas ela nem ao menos me olha. Acho que finalmente consegui irritá-la, mas isso não me dá a satisfação que esperava.
— Isso é pra você. Não precisa se preocupar; não tem veneno. Mas se não acreditar em mim, pode jogar no lixo. Não tem problema. Ela diz, empurrando o copo e a outra embalagem para perto da minha mochila. Pega seu copo e sai, me deixando sozinha.
A maneira como ela me olhou... aquele olhar não era raivoso, era magoado. Sento-me na cadeira e encaro o copo à minha frente.
Parabéns, Alice. Parece que você conseguiu magoar a única pessoa que tentou se aproximar de você.
Talvez ela só esteja fazendo isso para conseguir o que tanto deseja. Sou apenas um meio para um fim.
E o pior é que ela realmente acredita que estamos lutando pelo mesmo objetivo.
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Atualizado até capítulo 98
Comments
Nataly Lopes
continua autora,como sempre seus livros me deixa ansiosa por mais capítulos.
2024-07-03
1
Flor
Cada capítulo fica melhor... Mais mais autora, continua por favor 🙃
2024-07-03
1
Aurea Mineiro
😍
2024-07-03
1