Aquele assunto parecia tão insano; numa hora estávamos falando sobre o desejo e os anseios de uma personagem fictícia, e agora a Alice tentava provar sua própria teoria. A maneira intensa com que ela me olhava, a forma segura com que falava, despertava minha curiosidade, mas também me fazia ter receio.
— Apostar o quê, Alice? — perguntei, tentando entender o que se passava na cabeça dela.
— Que a minha teoria está certa. O desejo pelo proibido desperta o interesse das pessoas. O que você acha de fazermos um teste? — Alice disse, cruzando os braços, e eu ri.
— Você tá falando sério, Alice? Eu pensei que você fosse mais inteligente. Sério, isso é ridículo. — Eu falei, me levantando e me servindo um copo de suco.
— Eu também pensava que você fosse mais inteligente, Bianca. Você diz que minhas ideias são ridículas, mas...
Alice começa a falar, mas morde os lábios e passa a mão na cabeça como se estivesse se repreendendo.
— Mas? Por favor, Alice, pode terminar a sua linha de raciocínio. — Eu disse, enchendo um copo com suco e entregando-o a ela.
— Sabe, Bianca, eu sou uma boa observadora. Quando a gente passa muito tempo sozinha, passa a observar mais e falar menos. — Ela diz e bebe um pouquinho do suco.
— E por que você passa muito tempo sozinha? — Eu questiono, e ela sorri.
— Isso não vem ao caso, Bianca. O que vem ao caso é que eu posso provar minha teoria usando o seu exemplo. — Ela diz e começa a bater as unhas no copo, parecendo um pouco ansiosa. Nervosa? Acho que um pouco dos dois.
— Meu exemplo? — Questiono, genuinamente curiosa.
— Às vezes, os olhos dizem mais do que qualquer palavra, Bianca, e eu posso te garantir que os seus olhos te delatam. Eles deixam bem visíveis os seus sentimentos. Sério, eu não te julgo por nutrir sentimentos pela sua cunhada. Na verdade, acho que isso faz de você uma nova Emily Dickinson. — Ela diz de forma ácida, e quando me olha, sorri.
Sinto meu pulso acelerar, meus olhos piscam, e forço meu cérebro a processar essas palavras. Ela sabe. Ela sabe. A forma como me olha, seus lábios disseram "eu não te julgo", mas seus olhos dizem outra coisa. Ela certamente está me julgando. Abro a boca para rebater o que ela diz, mas não encontro as palavras.
Quero gritar com ela, expulsá-la do meu quarto, exigir que saia da minha casa. Quero ela longe de mim, mas não consigo dizer nada.
Olho para o copo na minha mão, que está tremendo. Sinto como se tivesse sido pega cometendo o pior crime do mundo e agora estivesse diante do juiz, sendo julgada e esperando a sentença.
— Você é a prova viva de que somos atraídos e sempre desejamos aquilo que não pode ser nosso, e sério, Bianca, eu te entendo. — Ela diz, e eu balanço a cabeça em negação.
Deixo o copo de suco em cima da escrivaninha e caminho a passos rápidos até a porta. Abro a porta e verifico se há alguém no corredor. Respiro aliviada ao ver que está vazio. Meus pais, a Júlia e o Ricardo ainda devem estar aproveitando o dia no jardim.
Volto para o quarto e tranco a porta com a chave. Depois de trancar a porta, pego a chave.
— O que você tá fazendo? — Alice questiona, levantando-se da cama e vindo na minha direção. Ela parece assustada, mas eu não ligo. Eu também estou assustada e com medo. Ela tenta pegar a chave, mas eu a coloco no bolso.
— O que você tá fazendo? — Ela questiona novamente.
— As coisas não são do jeito que você falou, Alice. Você diz que não me julga, mas seus olhos, sua expressão facial, seu sorriso cínico, você me julga. E eu não ligo para essas suas malditas teorias. As coisas não são como você está pensando. — Eu falo, empurrando Alice de volta para a cama, e ela arregala os olhos em pânico. Seu olhar é de medo.
Ela me olha como se eu fosse um monstro, capaz de matá-la a qualquer momento.
Imediatamente solto suas mãos e me afasto.
— Tudo bem, Bianca, eu não deveria ter falado assim. Desculpa. Por que você não conta a sua versão da história? — Ela diz, fazendo um gesto com a mão, pedindo calma.
— Eu não me apaixonei pela namorada do meu irmão. Eu gostava da Júlia muito antes, desde o momento em que esbarramos naquele maldito corredor. Eu me apaixonei por ela e, de verdade, ia confessar meus sentimentos, mas tive receio de não ser correspondida, medo de ser rejeitada. No momento em que tomei coragem para falar, foi na minha festa de aniversário. Sabe qual foi o meu presente? Encontrar ela aos beijos com meu irmão na porta do meu quarto. Desde então, venho me corroendo por dentro e me martirizando porque tenho sido uma pessoa horrível, uma irmã terrível. Você não sabe como eu gostaria de me livrar de tudo isso. Meu medo é que, algum dia, isso venha à tona e as pessoas me julguem exatamente como você me julgou. — Eu falo, sentindo meus olhos arderem e meu estômago embrulhar de ansiedade e nojo. Nojo de mim mesma. — E, como se não bastasse, você agora quer me usar como um experimento.
— Eu sinto muito, de verdade, Bianca. Me perdoa. Eu não deveria ter falado nada. Mas eu só pensei que poderia te ajudar. — Ela diz, parecendo receosa.
— Me ajudar, Alice? — Digo, sorrindo de forma forçada. — E o que você ganharia com isso? — Questiono, e ela abaixa a cabeça. Ela mexe as mãos de forma nervosa.
— Responde, Alice, o que você ganharia com isso? — Questiono novamente, e lembranças de mais cedo vêm à minha mente.
— Isso tem a ver com o Ricardo? — Questiono, e ela me olha espantada.
Claro que tem. Sempre tem. Tudo na minha vida, independentemente do caminho, sempre leva ao Ricardo.
Sorrio diante da ironia da minha vida.
— Pois é, Alice, talvez você realmente não possa me julgar. Afinal, ao que parece, você também deseja alguém proibido. — Eu digo, rindo, e a única coisa que penso é que meu irmão é muito sortudo.
Alice também ri e balança a cabeça em sinal de negação.
— As coisas não são assim...
Ela diz, mas é interrompida por algumas batidas na porta. A maçaneta é girada, mas a porta está trancada.
Me levanto rapidamente e corro em direção à porta. Tiro a chave do bolso e destranco a porta.
Abro a porta e dou de cara com meu irmão e a Júlia. A Júlia olha para o chão e meu irmão também parece desconfortável.
Droga, será que ele ouviu alguma coisa?
— É... Hum... A mãe pediu pra vir chamar vocês para descer e aproveitarem um pouco com a gente. — Ele diz sem jeito e parece envergonhado.
— A gente ainda não terminou o trabalho, mas assim que acabar a gente desce. — Eu digo.
— Claro, "o trabalho". — A Júlia diz de forma ríspida e, pela primeira vez desde que chegaram, ela ergue o olhar.
— Bianca, eu vou falar com a mãe, mas tenho certeza de que ela vai querer vir aqui e vai insistir para vocês descerem. Então, sugiro que vocês terminem "o trabalho" em outro momento. — O Ricardo diz, e eu o encaro sem entender.
— Agradeço a sugestão, mas prefiro terminar agora. — Digo de forma um pouco ríspida, porque sinceramente não estou entendendo o tom que eles estão usando.
— Ok, Bianca. Então, nesse caso, terei que ser o irmão chato e pedir para que você não tranque a porta do quarto. — Ele diz.
— O que tem demais a porta ficar trancada? Não posso ter privacidade? — Questiono de forma retórica.
— Eu vou deixar vocês sozinhos porque realmente não preciso ouvir sobre a vida íntima da Bianca e da amiga dela. — A Júlia diz, erguendo a mão e saindo rapidamente.
— Ela não é minha amiga. — Digo, e meu irmão sorri de forma cínica.
— Percebi isso pela porta trancada. — Ele diz, pisca para mim e segue a Júlia.
— Você tem mais cinco minutos antes da mãe subir, então aproveite bem. — Ele diz, olhando por cima do ombro, e minhas bochechas queimam.
Eles não podem estar achando que eu... Ah, droga, é exatamente isso que eles estão pensando.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 98
Comments
Maria Andrade
muito boa a história continua
2024-06-28
1
Maria Andrade
eita que pressão, pra cima da Bianca eu hein, esse irmão da Bianca me pareceu bem chato eu sinto que ele vai dá trabalho pra Bianca. vamos aguardar os próximos capítulos 😃
2024-06-28
4
Maria Fabiana
agora eu ver o que a Júlia vai fazer.
2024-06-28
1