Meus pais chegaram no sábado, e eu fiquei muito feliz. Com eles aqui, definitivamente, não preciso me preocupar ou ter medo de passar a noite em claro por causa das noites agitadas do Ricardo e da Júlia.
A parte chata é que a minha mãe adora a Júlia, e elas se dão muito bem. Então, é óbvio que a Júlia está sempre presente nos almoços de domingo. A parte boa é que, quando ela está por perto, eu não preciso ajudar a minha mãe na cozinha com as louças ou a comida, porque esse é tipo o momento delas.
A Júlia faz questão de estar sempre por perto, ajudando a minha mãe com as receitas. Enquanto uma música qualquer toca na cozinha, é possível ouvir as risadas dela.
O meu pai e o meu irmão estão no quintal tentando acender a churrasqueira, mas até agora, a única coisa que conseguiram foi fazer o maior fumaceiro. É perigoso até os vizinhos acharem que a casa está pegando fogo.
De qualquer forma, fico feliz em estar quieta no meu cantinho. Estou lendo o livro para o trabalho; o meu objetivo é ler esse livro e me esforçar tanto para esse trabalho que vou deixar tanto a professora Verônica quanto aquele projetinho de arrogância impressionadas.
Esse é o meu objetivo principal a partir desse momento.
— Vivi pra ver a Bianca lendo um livro. — A Júlia comenta rindo.
Ela divide o olhar entre a panela no fogão e eu, que estou sentada debruçada sobre a bancada de mármore enquanto o livro está aberto na página 50.
Aproveito pra analisar um pouco a Júlia. Ela está usando uma blusa ciganinha e um short jeans que ficou muito bem nela. Os cabelos estão trançados e amarrados em um rabo de cavalo.
Apesar de ainda estar "cedo", já está fazendo bastante calor. Estou usando um short curto, uma camisa larga do meu time de futebol favorito e o meu cabelo está amarrado em um coque alto.
— Até eu estou impressionada. — A minha mãe comenta enquanto tempera a carne.
— Francamente, assim vocês me ofendem. — Eu reclamo, e elas riem diante da minha indignação, e eu bufo frustrada.
— A intenção não é essa, Bianca. A questão é só que é surpreendente te ver em pleno domingo com um sol lindo lá fora, e você está aqui concentrada lendo um livro. — A Júlia explica, pegando uma colher com uma pequena quantidade da maionese de batata.
— Eu sou uma pessoa incrivelmente surpreendente. O problema é que vocês têm a tendência de me subestimarem.
— Que você é uma pessoa surpreendente, isso é indiscutível. Agora me diz se está bem temperado. — A Júlia diz, aproximando a colher dos meus lábios.
Abro a boca e ela coloca a maionese de batata na minha boca. Instintivamente, fecho os olhos para apreciar a explosão de sabores e texturas que dançam no meu paladar.
A cremosidade inigualável, resultado da combinação perfeita entre batatas bem cozidas e uma maionese caseira rica e suave.
As batatas, cozidas até alcançarem a consistência ideal – firmes, mas macias o suficiente para desmancharem na boca. Ao mastigar, a textura aveludada das batatas se mistura harmoniosamente com a maionese.
O sabor fresco e levemente ácido, cortesia do suco de limão ou vinagre adicionado na mistura.
No meio deste mar de cremosidade, surgem pedaços crocantes de cebola, que oferecem um contraste delicioso tanto na textura quanto no sabor.
O tempero é um espetáculo à parte. Pimenta-do-reino, salsinha e cebolinha realçam os sabores naturais dos ingredientes.
Abro os olhos e me dou conta de que a Júlia estava me encarando. Não sei há quanto tempo ela está me olhando dessa forma, mas a forma que ela me olha me deixa um pouco confusa.
Não desconfortável, mas confusa.
— E então? — Ela questiona, desviando o olhar e forçando um sorriso.
— Está delicioso. — Eu falo, passando a língua sobre os meus lábios, e a Júlia acompanha o movimento que eu faço.
Ergo uma sobrancelha e a Júlia se afasta imediatamente de mim.
E eu fico confusa pensando no que raios acabou de acontecer aqui.
— Já tá pronto aqui, dona Vera. Eu vou lá fora ver se eles precisam de ajuda. — A Júlia diz, deixando a colher na pia.
— Tá bom, minha filha. Avisa eles que a carne já tá temperada. — A minha mãe fala, e a Júlia concorda, saindo da cozinha.
Volto a atenção pro meu livro, me forçando a me concentrar em cada mínima palavra à minha frente.
— E então, como foi a semana? — A minha mãe questiona, se sentando ao meu lado, e eu fecho o meu livro para dar toda a minha atenção pra ela.
— Não foi tão ruim. — Eu disse, oferecendo um sorriso pra ela.
A gente ficou conversando sobre a minha semana, e ela me contou sobre como foram as coisas com a minha vó. Ela disse que ela está doida pra que a gente vá passar uns dias por lá.
Devo admitir que, apesar de tudo, eu sinto falta da vó Lena. Eu adoro passar um tempo com ela, ela é um amor de pessoa.
Ela é muito divertida. Às vezes, ela faz cada tipo de comentário que deixa qualquer um envergonhado, mas ela não se importa, ela se diverte com as próprias loucuras.
A única razão pela qual eu realmente tenho receio de ir visitá-la é por causa dos meus tios. É engraçado porque, quando a vó está sozinha e a gente não está lá, nenhum deles aparece, mas quando a gente vai passar uns dias com ela, a casa lota de gente. É impressionante.
Os meus tios e eu temos muitos motivos pelos quais não nos damos bem.
O primeiro deles é que eles sempre fazem perguntas do tipo "Já arranjou algum namorado, Bianca?" como se arranjar um namorado fosse algo que deveria estar no topo da minha lista de prioridades.
E outra coisa que me incomoda é que eles sempre fazem uns comentários indiretos bem diretos a minha pessoa, coisas que são ditas como piadas e que, na realidade, só têm o intuito de me ofender mesmo.
Eu já escutei uma vez o meu tio Daniel conversando com os meus pais e insinuando o quanto é estranho eu, uma garota bonita e na minha idade, nunca ter arranjado um namorado. Ele dizia que os meus pais deveriam ficar de olho e conversarem comigo.
Como se eu tivesse algum problema. Tudo bem que eu não sou um bom exemplo de pessoa a ser considerada normal, mas é como dizem: de sábio e louco todos temos um pouco.
Mesmo assim, eu acho uma terrível falta de respeito discutirem a inexistência da minha vida amorosa.
E eu fico aliviada por meus pais nunca terem entrado nesse assunto porque, sinceramente, eu não teria humor pra falar disso.
Eu sei que eles sabem que eu sempre fui diferente. Nunca fui de chegar em casa e falar sobre os garotos que eu achava interessantes, até porque isso nunca me ocorreu. Também nunca fui de reparar em garotos, sempre gostei de observar coisas mais interessantes.
De qualquer forma, apesar de tudo, eu sei que eles sabem que o que o meu tio falou tem um pouco de verdade. Se o meu tio, que não convive muito comigo, percebeu, então é lógico que os meus pais também iriam notar, e sinceramente isso não me incomoda.
Esses tipos de problemas eu deixo pra resolver quando eles chegarem. Até lá, não vou ficar me martirizando com medo do que vão pensar de mim.
Quando as carnes já estavam assadas, fomos almoçar. Nos sentamos no quintal. O nosso quintal é bem grande. A minha mãe adora flores, então tem muitas flores plantadas. Temos uma piscina que é muito mais usada por mim do que por qualquer outra pessoa dessa casa.
Nos sentamos na mesa de madeira. Eu me sentei ao lado da minha mãe, ficando de frente pra Júlia e pro Ricardo, que estavam sentados um ao lado do outro, e os dois ficavam no próprio mundinho deles conversando sobre sei lá o quê. Enquanto isso, eu escutava o meu pai falando sobre o quanto o campeonato está acirrado e que o jogo logo mais seria muito difícil e que precisávamos vencer.
Eu escutava tudo atentamente e vez ou outra fazia algum comentário.
O meu pai é apaixonado por futebol e eu acabei herdando isso dele. O Ricardo assiste de vez em quando, mas não é nenhum entusiasta.
Eu, por outro lado, gosto muito de me sentar no sofá com o meu pai e assistir o jogo com ele. Eu sempre gostei de passar um tempo com ele e, por ele ser bastante ocupado, acabou que isso foi uma forma que eu encontrei de ficar mais próxima, de ter assunto, e eu gosto muito disso.
Com a minha mãe, por outro lado, é totalmente diferente. Ela sempre quer conversar, quer ficar informada sobre a escola, sobre a minha rotina, e então normalmente eu fico com ela enquanto ela cozinha. Às vezes, eu me sento pra assistir a novela com ela, mesmo que às vezes eu desanime de assistir.
Após o almoço, eu ajudei a minha mãe a lavar a louça, e a Júlia e o Ricardo foram ao shopping. Eles me chamaram para ir junto, mas eu não queria ficar de vela e nem tampouco atrapalhar o momento deles, então preferi ficar em casa.
Passei um tempo lendo o livro e depois o Cristian me ligou por chamada de vídeo. Ficamos conversando por um tempo e eu descobri que ele nem começou a ler o livro dele ainda e, sinceramente, isso nem ao menos me surpreendeu.
Depois da chamada com o Cristian, me senti um pouco mais relaxada. Decidi aproveitar a tranquilidade da casa vazia para terminar mais alguns capítulos do livro. A leitura estava fluindo bem, e eu estava conseguindo absorver o conteúdo de maneira eficiente.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 98
Comments
Patricia Rafaela Ribeiro Mendes
quero mais
2024-09-14
0
Bea Andrade
so eu acho que a julia gosta dela
2024-07-14
0
Maria Fabiana
tá ficando ótimo. estou muito curiosa pra saber o que vai acontecer com esse..... trabalho
2024-06-22
1