Saio da casa da Bianca já passam das seis da tarde. Não deveria ter demorado tanto, mas a mãe dela insistiu que eu ficasse mais um pouco, experimentasse um pouco disso, conversasse mais sobre aquilo. Ela foi tão educada e atenciosa que eu não consegui dizer não.
Enquanto caminho pelas calçadas, atravessando as ruas, olho no relógio a todo instante. Cada minuto que passa me deixa mais preocupada.
Minha mãe geralmente não se importa muito com atrasos, dependendo do seu humor. Eu tento nunca me atrasar porque nunca sei qual humor vou encontrar, ou se ela vai estar sóbria.
Minha mãe é uma mulher que infelizmente passou e passa por muita coisa. Acredito que muito do sofrimento dela poderia ser evitado se tivesse tomado algumas decisões melhores. Talvez assim alguns dos problemas dela não respingassem em mim.
A verdade é que há tantos culpados nessa história que às vezes duvido da minha inocência. Às vezes, me pego pensando que muitas das coisas que minha mãe fala em momentos de fúria e álcool têm um fundo de verdade. Embora, quando sóbria, ela peça desculpas e diga que se excedeu.
O problema é que quase sempre ela ultrapassa o limite e se excede.
Já perdi as contas de quantas noites passei em claro tentando ajudar e cuidar dela, mas nada do que eu fazia adiantava.
Você não pode lutar uma guerra sozinho, não tem como querer o melhor para alguém quando essa pessoa não quer o melhor para si mesma.
Queria que meu pai não tivesse ido embora. Não queria que ele tivesse partido. Ele preferiu nos abandonar, deixou o barco antes de afundar. Mas eu creio que foi ele o causador das rachaduras.
Eu tinha doze anos quando ele decidiu que a amante grávida era mais importante do que nós, sua família.
Ele me deixou com promessas vazias e uma mãe quebrada. Só restou eu para juntar os pedaços dela, tentando remontar uma vida que ele deixou em ruínas, enquanto tentava não me quebrar no processo.
Os anos passaram e a dor se transformou em cicatrizes profundas. Minha mãe se reergueu, apenas para ser derrubada novamente por outro homem que, ao descobrir minha existência, escolheu partir. Fui culpada por isso também. Na visão dela, eu era o motivo de todos os seus infortúnios, e sua fúria encontrou refúgio no fundo de garrafas de álcool. No início, eram palavras afiadas, cheias de rancor. Depois, vieram as agressões físicas. Aprendi a usar roupas compridas para esconder os hematomas, uma armadura frágil contra um mundo que não devia ver minhas feridas.
Quando a embriaguez passava, ela chorava e pedia perdão. "Nunca mais, Alice. Eu prometo." E eu acreditava, porque precisava acreditar. Porque, apesar de tudo, ainda a amava. Ela era tudo o que eu tinha. Mas as promessas eram tão vazias quanto as garrafas que ela esvaziava. O ciclo sempre recomeçava.
Aos poucos, encontrei refúgio nos livros, nas páginas de histórias que me permitiam fugir da minha própria realidade. Consegui um emprego para passar menos tempo em casa, para poder estudar na biblioteca, meu santuário de paz. Minha mãe, por um tempo, parou de beber. Eu quase acreditei que as coisas poderiam melhorar.
Então, ela trouxe outro homem para nossa vida. No começo, ele parecia gentil. Mas, com o tempo, os olhares que ele me lançava mudaram. Eu me escondi em roupas discretas e evitei ao máximo ficar sozinha com ele. Ele bebia muito, usava drogas, e minha mãe o acompanhava nesse caminho sombrio. Felizmente, ele é caminhoneiro e passa muito tempo fora.
Implorei ao meu pai inúmeras vezes para me deixar morar com ele, mas ele sempre tinha uma desculpa. Enviava a pensão e ligava em datas especiais, mas isso era tudo. Eu queria alguém que se importasse, alguém que me resgatasse desse pesadelo. Mas sei que isso não vai acontecer.
Meus medos são muitos. Tenho medo de ficar sozinha, mas ao mesmo tempo, temo a companhia daqueles que deveriam me proteger. Tenho medo do que posso me tornar se continuar presa nesse ciclo de dor e abandono. Meu maior desejo? Ser livre. Encontrar um lugar onde eu possa ser eu mesma, sem medo, sem dor. Quero encontrar a paz que só conheci nas páginas dos meus livros.
Talvez um dia encontre a força para deixar tudo isso para trás. Talvez consiga reconstruir minha vida a partir dos cacos que restaram. Mas, por enquanto, continuo lutando, um dia de cada vez, tentando sobreviver em um mundo que parece sempre encontrar novas formas de me derrubar.
Tenho só 17 anos e carrego dentro de mim mais demônios do que qualquer garota da minha idade deveria conhecer.
Assim que chego no meu bairro, avisto a casa onde moro. Uma casa simples, pequena, não tão grande quanto a casa da Bianca. Não temos um quintal igual ao dela e muito menos uma piscina.
A nossa casa é antiga, as pinturas desbotadas, e definitivamente nosso bairro não é igual ao dela. Moro em um bairro mais pobre, mas ainda assim é um bom lugar. O único problema é que, assim como em qualquer lugar, há pessoas boas e ruins.
Olho para a casa que está a alguns metros de distância e caminho desanimada. Acho que não deveria ser assim. A maioria das pessoas se sente ansiosa para voltar para casa; eu sinto pânico e incerteza. Nunca sei qual versão da minha mãe vou encontrar, ou se o meu padrasto estará em casa. Sempre torço para que ele não esteja.
Ao me aproximar da porta, escuto o barulho alto da TV e já sinto o estômago revirar porque sei que aquele sujeito está em casa.
Abro a porta e tento passar rápido pela sala.
— Isso lá são horas de chegar? — Antônio questiona.
Continuo andando, tentando ao máximo não conversar com ele, não ficar perto dele, não ficar no mesmo ambiente que ele.
Ele se levanta do sofá e eu apresso os passos até a cozinha, torcendo para minha mãe estar lá.
Sinto os batimentos acelerarem e respiro aliviada ao vê-la preparando o jantar, felizmente sóbria.
— Cheguei, mãe. Precisa de ajuda? — pergunto, deixando a mochila no chão perto da mesa de madeira.
Ela olha para mim e sorri.
— Ainda bem, filha. Já estava preocupada. Se puder preparar a salada, estou terminando de fritar os bifes — diz, enquanto tira o bife da frigideira e coloca outro para fritar.
— Onde você estava até essa hora? — Antônio pergunta, e eu continuo em silêncio. — Tá vendo, Joana, como sua filha me ignora? Você dá muita liberdade para essa garota. Onde já se viu? Passa a semana toda fora de casa e os domingos, que poderia estar aqui te ajudando, fica zanzando por aí. Sabe Deus onde estava, fazendo sabe lá o quê — ele fala indignado, como se eu estivesse errada.
— Ela estava fazendo um trabalho na casa de uma colega. Ela me avisou e pediu permissão para ir lá — minha mãe diz, enquanto ele pega uma cerveja na geladeira.
— Fazendo trabalho — ele diz em negação. — Digo e repito: você dá muita liberdade para essa menina. Quem garante que estava mesmo na casa de uma colega? Talvez esteja mentindo para você — ele diz, bebendo um pouco da cerveja.
— Não preciso contar mentiras nem me justificar para você. Você não é meu pai — digo, terminando de picar as verduras.
— Não vai falar nada, Joana? Olha como essa garota me trata. Vive debaixo do meu teto e não tem um mínimo de consideração.
— Por favor, Alice, não começa com isso de novo — minha mãe fala, e tento fingir que o fato dela sempre tomar partido desse cara asqueroso não me magoa.
Ele sorri de forma convencida. Deixo a faca sobre a mesa, pego a mochila e corro para o meu quarto.
Odeio esse cara, odeio morar aqui, odeio como ele enche a boca para falar que essa casa é dele quando, na verdade, era da minha mãe. Odeio como esse cara influencia a vida dela, odeio a forma como ela tem uma dependência emocional dele.
Quando eles estão bem, ela está feliz, não bebe tanto, mas basta uma discussão e tudo muda. Ela fica mal, bebe e novamente volta a pôr a culpa em mim.
Pego uma roupa limpa e vou tomar um banho. Tomo um banho rápido e volto para o quarto, trancando a porta. Nunca deixo essa porta aberta porque simplesmente não confio nesse cara.
As coisas que você não consegue mudar são as que vão te mudando aos poucos. As roupas, a porta trancada, o silêncio, tudo é uma forma que encontrei para me proteger.
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Atualizado até capítulo 98
Comments
Evexfic
vontade de por a Alice num potinho e a proteger de todo mal
2024-07-02
4
Ana Faneco
realmente existem vários casos iguais ao dá Alice... é uma tristeza...😔
2024-07-01
1
Maria Andrade
que história triste está da Alice 😞
2024-07-01
1