Caminho a passos pesados pelo corredor, sentindo-me uma tonta. Desde que Alice saiu de casa, tive que lidar com os olhares e sorrisos indiscretos do Ricardo. Ele faz comentários de vez em quando e me olha como se compartilhássemos segredos, o que é extremamente inconveniente.
Júlia, por outro lado, lança olhares afiados para Ricardo, parecendo tão incomodada quanto eu. Não me importo que pensem que Alice e eu temos algo, mas o que me irrita é ele fazer disso um escândalo.
Meus pais, porém, gostaram muito de Alice. Acharam-na inteligente, agradável e muito educada, o que é irônico, já que essa Alice que eles acharam tão gentil é a mesma que me trata de forma não muito afetuosa.
Notei que, enquanto falávamos de Alice, Júlia não parecia confortável e sempre me olhava. Talvez Alice tivesse razão e o plano dela pudesse dar certo. Comecei a elogiar Alice, o que não é difícil, já que, apesar da arrogância e humor afiado, ela é linda e inteligente. Fiz questão de exaltá-la.
Ricardo também contou histórias do tempo em que ele e Alice participaram de um clube de leitura, elogiando-a bastante. Disse que ela sempre o ajudou em projetos e que foi graças a ela que ele aprendeu a diferença entre verso e estrofe, rimas e ritmo. Ele falou com tanto apreço e nostalgia que tive vontade de conhecer essa Alice, a paciente, a que ensina com esmero.
Talvez ela não queira me mostrar essa versão dela; talvez isso seja um privilégio único do meu irmão. Isso me faz questionar o quanto ela realmente gosta dele. Talvez ela tenha mais esperança e determinação do que eu.
Por isso, decidi arriscar e mergulhar de cabeça nessa ideia. Parece loucura, e talvez seja, mas se nada der certo, pelo menos eu tentei. Quem sabe, depois de toda essa loucura, eu acabe me tornando amiga de Alice.
Foi pensando nisso que levantei mais cedo, passei em uma padaria e comprei algo para mim e para ela. Achei que poderíamos sentar, conversar sobre o trabalho e o plano. Estava empolgada para contar o quanto meus pais falaram bem dela e sobre o incômodo da Júlia, que talvez estivesse incomodada pela forma como Ricardo falava de Alice.
De qualquer forma, tudo isso perdeu o sentido assim que entrei na biblioteca e Alice falou daquela forma.
É a segunda vez que ela age assim, como se gostasse de esfregar as coisas na minha cara. Sinceramente, não preciso de ninguém apontando meus erros; já os conheço bem.
Entro na sala e, em vez de me sentar no meu lugar, puxo minha cadeira e a coloco ao lado do Cristian.
— Que cara é essa? O que aconteceu na dramalândia? — ele pergunta de forma debochada.
Isso me irrita. Estou cansada das pessoas sempre me usarem como objeto de piada, cansada de zombarem da minha vida e reduzirem tudo a drama.
Levanto-me e pego a cadeira.
— Bianca, o que você está fazendo?
— Vou voltar para o meu lugar e te poupar dos meus dramas — digo. Nesse mesmo instante, Alice entra na sala. Nossos olhares se encontram por um breve instante, e faço questão de quebrar o contato visual e ignorá-la.
Volto para o meu lugar e tiro o material da mochila. A primeira aula passa como um borrão; não presto atenção em nada. Qualquer coisa é mais interessante do que o que está acontecendo ao meu redor.
Mesmo assim, percebo os olhares de Cristian em mim. Finjo que não é comigo. Para minha surpresa, de vez em quando Alice olha para trás, mas não diz nada. E não sou eu que vou iniciar um diálogo; sempre que faço isso, só me dou mal.
Para completar meu infortúnio, a professora Verônica entra na sala exibindo um sorriso típico de quem está pronta para assistir à sua queda.
— Bom dia a todos. Hoje, acertaremos os últimos ajustes do trabalho e, se der tempo, começaremos a apresentação ainda hoje. — Ela coloca a pasta em cima da mesa. — Lembrando que o trabalho é em dupla, mas a nota é individual. Tanto eu quanto a turma poderemos fazer perguntas, e, como o trabalho é de vocês, espero que saibam responder e esclarecer qualquer dúvida. — Ela caminha até o quadro, fazendo anotações com os nomes do livro.
— As duplas podem se juntar para concluir os trabalhos — diz ela. Permaneço no mesmo lugar enquanto alguns colegas começam a arrastar as mesas para perto de suas duplas.
Alice olha para trás como se esperasse que eu arrastasse minha mesa para perto dela. Finjo que não é comigo.
Ela revira os olhos, e eu simplesmente dou de ombros. Vou mostrar que também não me importo.
Ela balança a cabeça, incrédula.
Estou sendo infantil? Sim.
Me importo? Nem um pouco.
Ela se levanta e arrasta a cadeira e a mesa dela para o meu lado.
— Vai continuar me ignorando? — pergunta, pegando uma pasta preta e tirando algumas folhas.
— Pensei que você não se importaria, afinal você vive fazendo isso comigo.
Ela respira pesadamente, morde os lábios e me encara novamente.
— Sobre o que aconteceu mais cedo na biblioteca, quero te pedir desculpas.
— Não precisa pedir desculpas, até porque suas desculpas não são sinceras — digo, pegando as folhas das mãos dela.
— Minhas desculpas não são sinceras? Como assim? — questiona.
— Veja bem, quando erramos e pedimos desculpas, é porque nos arrependemos e não pretendemos repetir o erro. Você, por outro lado, pede desculpas, mas elas não são sinceras porque não se importa nem se arrepende. Por isso, sempre que surgir uma oportunidade, vai jogar isso na minha cara — falo, concentrando-me nos papéis à minha frente.
Alice permanece em silêncio, mas sinto seu olhar pesando sobre mim. Finjo que não me importo.
Apesar de saber que a verdade era outra, Alice permaneceu em silêncio por mais um momento. Eu esperava que, talvez, pela primeira vez, ela repensasse seu comportamento.
— Eu entendo o que você está dizendo, Bianca. E talvez você tenha razão.
— Talvez eu tenha razão? — questionei com um sorriso irônico. — Você é inacreditável.
Alice respirou fundo antes de falar:
— Ok, você está certa. Vou tentar ser mais cuidadosa daqui para frente. Minha intenção era te irritar, não queria te magoar, pelo menos não desse jeito.
— Aham, sei. Que bom, então fico muito mais tranquila agora. Bom que daqui pra frente sei mais ou menos o que esperar.
— Olha, eu realmente estava tentando te afastar — ela disse, levando a mão e massageando as têmporas.
— Quase não percebi, mas não sei se você se deu conta de que o garoto por quem você é apaixonada é meu irmão. Então, acho que me afastar não vai ser fácil, ainda mais quando estamos no meio de uma experiência que, por sinal, foi uma ideia sua — disse, e ela levou a mão até o rosto.
— Nem me lembre disso — ela respondeu, respirando fundo. — Falando nisso, o que a Júlia e o Ricardo acham sobre isso? — perguntou, gesticulando entre eu e ela.
— Acho que você tem grandes chances de conquistar seus objetivos. O Ricardo teceu elogios a você, e meus pais gostaram muito de você. Então, acho que está no caminho certo. Como eles acham que tem algo entre nós, acho que você poderia frequentar minha casa e, assim, passar mais tempo com o Ricardo. Dessa forma, terá mais chances de conquistá-lo — falei, e ela pareceu ponderar.
— Como se eu fosse capaz de conquistar alguém — falou mais para ela do que para mim.
— Como se isso fosse difícil para você. Tenho certeza de que você consegue conquistar qualquer um — respondi, e Alice me olhou de uma forma diferente. Por um breve momento, me permiti me perder na intensidade daqueles olhos castanhos e reparar em seus traços. Alice tem uma beleza simples, natural e delicada.
— Mas eu não quero conquistar qualquer um — disse, me encarando.
O barulho ao redor parecia distante, insignificante. De repente, um silêncio confortável se instalou entre nós. Alice inclinou ligeiramente a cabeça, e deixei meu olhar cair sobre os olhos dela, que brilhavam com uma mistura de curiosidade e expectativa. Lentamente, seu olhar desceu, quase imperceptível, fixando-se nos meus lábios.
Seu olhar permanecia firme, alternando entre meus olhos e minha boca. Uma onda de calor percorreu meu corpo. Senti minhas mãos suarem e uma completa confusão de ansiedade e nervosismo. Ela mordeu o lábio inferior, um gesto involuntário que não passou despercebido por mim.
Senti uma descarga de eletricidade, um desejo crescente de me aproximar e quebrar qualquer distância entre nós.
Um sorriso começou a se formar em seus lábios, devagar, começando nos cantos e espalhando-se até iluminar todo o rosto. Era um sorriso sensual, carregado de intenções não ditas. Seus olhos se estreitaram levemente, e ela balançou a cabeça em sinal de negação, passando as mãos no cabelo como se estivesse se repreendendo.
— Certo, vamos terminar isso logo — disse, pegando as folhas e começando a revisar o trabalho.
Trabalhamos em silêncio por um tempo, sem encarar olho no olho. Ajustamos alguns detalhes e discutimos pontos específicos. À medida que a aula passava, comecei a notar pequenas mudanças no comportamento de Alice. Ela estava mais paciente, menos crítica. Talvez fosse uma tentativa genuína de melhorar ou talvez estivesse tão constrangida quanto eu.
Quando finalmente terminamos, a professora Verônica pediu que as duplas se preparassem para apresentar. Meu coração disparou. Apesar de tudo, eu não estava preparada para enfrentar as perguntas e críticas da turma e da professora.
Alice percebeu meu nervosismo e, surpreendentemente, tentou me tranquilizar:
— Você vai se sair bem. Nós duas vamos — disse, com um leve sorriso.
Nossa dupla seria a primeira a se apresentar, então caminhamos até a frente da sala. Cumprimentamos a todos com um bom dia, e Alice começou a explicar sua parte:
— "Madame Bovary", escrito por Gustave Flaubert, é um romance realista que conta a história de Emma Bovary, uma mulher insatisfeita com a monotonia de sua vida e casamento. Ela busca constantemente por emoção e paixão, envolvendo-se em relacionamentos extraconjugais e acumulando dívidas. O livro é dividido em três partes e retrata de forma precisa a vida de Emma. Os principais personagens incluem Emma Bovary, seu marido Charles, e seus amantes Rodolphe e Léon. Os principais temas explorados são a insatisfação e a busca por ideais românticos, a atração pelo proibido, o materialismo e a decadência, e o realismo cruel. O romance também aborda a busca inalcançável e a fascinação pelo proibido, mostrando como esses desejos podem levar à insatisfação e à ruína. "Madame Bovary" é uma obra que continua a ressoar por capturar a condição humana e os perigos de se perder em ilusões.
Alice começou a apresentação com confiança, explicando os pontos principais do nosso trabalho. Quando chegou minha vez, hesitei por um momento, mas tomei coragem e continuei:
— "Madame Bovary" de Gustave Flaubert oferece uma rica análise dos desejos humanos e das frustrações internas dos personagens, especialmente de Emma Bovary. A partir de uma perspectiva psicanalítica, a obra pode ser interpretada através de conceitos como o desejo inconsciente e a realidade, o desejo em relação ao outro, o narcisismo e a idealização, os mecanismos de defesa, a busca pelo proibido e a atração pelo inalcançável. Emma Bovary é vista como uma personagem que luta contra a realidade e busca a satisfação imediata de seus desejos, muitas vezes projetando suas fantasias e repetindo padrões de comportamento destrutivos. A obra mostra como a busca pelo proibido e o desejo inalcançável podem levar à ruína emocional e psicológica — falei, concluindo nossa apresentação. Eu estava uma pilha de nervos e tremia.
Alice, percebendo meu desconforto, colocou-se ao meu lado e sorriu para mim. Isso foi o suficiente para me passar algum tipo de confiança.
As perguntas vieram em seguida. A turma e a professora nos bombardearam com questionamentos, mas conseguimos responder a todas. No final, Verônica parecia satisfeita.
— Bom trabalho, vocês duas — disse, dando um aceno de aprovação.
Voltamos aos nossos lugares, e pela primeira vez em muito tempo, senti um peso sair dos meus ombros.
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Atualizado até capítulo 98
Comments
Sofia 💞
estou muito poluída com heitais pra ler isso vey
2024-09-09
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Maria Fabiana
eita tô curiosa pra saber o que vai sair disso aí.
2024-07-04
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Flor
Ansiosa pra que elas começem a se dar bem de verdade. Bem que podia postar mais um capítulo hoje né autora sua linda 🙃
2024-07-04
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