Chego à porta da biblioteca e faço uma pausa. Respiro fundo e abro a porta devagar. Assim que entro, vejo Alice sentada em uma das mesas no fundo, com um monte de livros espalhados ao redor. Ela parece concentrada, anotando algo em seu caderno.
— Alice! — chamo, tentando não falar muito alto para não incomodar os outros, mas o suficiente para que ela me ouça.
Ela levanta a cabeça e me olha com uma expressão de surpresa que logo se transforma em um olhar de desaprovação.
— Bianca, o que você está fazendo aqui? — ela pergunta, voltando a atenção para os seus livros.
— Eu terminei de ler o livro — digo, aproximando-me e sentando na cadeira à frente dela. — Já tenho algumas ideias para o trabalho.
— Que bom para você — ela responde, sem levantar os olhos. — Quer os parabéns? — ela questiona.
Respiro fundo, tentando não deixar a irritação transparecer. Puxo minha mochila e coloco-a em cima da mesa, pegando algumas anotações que fiz durante a minha leitura.
— Olha, sei que você prefere fazer as coisas sozinha. Por mim, tudo bem, sério, você decide. Mas eu realmente queria ajudar. Na verdade, eu estava até bastante animada e determinada a dar o meu melhor, mas sinceramente não quero incomodar — digo, pegando um dos livros que estava espalhado pela mesa.
Alice finalmente levanta os olhos e me encara. Por um momento, penso que ela vai me mandar embora, mas então ela solta um suspiro cansado.
— Não quer incomodar, né? — ela questiona, tirando o livro da minha mão com uma certa brutalidade. Quando ela faz isso, acaba encostando no local onde eu me queimei, e isso dói um pouquinho.
Não respondo à provocação, apenas sopro a minha mão na intenção de aplacar um pouco a ardência.
Alice observa minha atitude e posso ver a confusão em seu rosto. Ela puxa minha mão, trazendo-a para perto de seu rosto.
— Hum, parece que você queimou a patinha — ela diz, olhando para a área avermelhada.
— Pois é, eu me queimei. Quer dar um beijinho para sarar? — eu questiono, e ela empurra a minha mão de qualquer jeito, parecendo estar com raiva e acaba me dando um tapa no braço.
— Pra que isso? Ficou louca? — eu questionei, indignada.
— Foi você quem pediu um tapinha para sarar — ela diz de forma simples e sorri.
O sorriso dela é lindo, mas estou brava demais e me recuso a reparar. Me recuso a prestar atenção na forma como o cabelo está amarrado em um coque e algumas mechas estão soltas caindo parcialmente pelo seu rosto, me recuso a reparar em como a maquiagem dela é totalmente leve, deixando o grande destaque para seus olhos castanhos, que carregam um brilho travesso no olhar.
— Eu pedi beijinho, bei-ji-nho, não tapinha — digo, fingindo estar inconformada.
— Me desculpa, devo ter entendido errado — ela diz, fingindo inocência e dando de ombros.
— Que conveniente.
— Você deveria passar alguma pomada aí — ela diz, voltando a olhar para minha mão.
— Eu já passei uma pomada para queimaduras, mas depois passo mais — falei, e ela assentiu.
— Deixa eu dar uma olhada nas suas anotações — ela pede, já pegando as folhas, mas seu olhar é totalmente desinteressado.
Sinto um alívio e uma pequena onda de satisfação. Quando ela passa a olhar com mais interesse para o papel, ela nem ao menos consegue disfarçar a expressão surpresa em seu rosto.
Sei que deveria estar me sentindo chateada e ofendida por ela deixar evidente que não confia na minha capacidade. Mas a verdade é que isso me motiva ainda mais.
Talvez, só talvez, eu consiga mostrar para Alice que sou capaz. Quero esfregar na cara dela o quanto ela está enganada a meu respeito.
— Não está tão ruim — ela diz, me devolvendo as anotações.
— Ah, é mesmo? Então me mostra as suas, que devem ser muitíssimo melhores — falo, e Alice olha para mim semicerrando os olhos.
— Eu ainda não terminei de ler o livro, só tenho as anotações até a segunda parte — Alice diz em um tom de voz mais brando, e suas bochechas coraram violentamente.
Ela parecia estar envergonhada, e eu fiquei confusa.
— Você ainda não terminou o livro?
— Foi isso que eu disse — ela responde, cruzando os braços, ficando na defensiva.
— Se você nem ao menos terminou o livro, então por que está criticando as minhas anotações? — questionei, curiosa.
— Porque, apesar de não ter terminado o livro, as minhas anotações estão melhores que as suas — ela disse, me entregando o caderno pequeno de capa dura.
Peguei o caderno e comecei a ler a letra cursiva perfeitamente desenhada. Nunca tinha visto uma letra tão bonita.
"Madame Bovary", escrito por Gustave Flaubert, é um romance dividido em três partes.
**Parte 1**
**Resumo**
A primeira parte do romance introduz Charles Bovary, um médico de aldeia simples e sem ambições, e sua esposa Emma, a protagonista. Emma, criada em um convento e ávida leitora de romances sentimentais, se casa com Charles esperando um casamento apaixonante e emocionante. No entanto, ela rapidamente se desilude com a vida mundana e tediosa ao lado de seu marido.
**Análise**
Nesta parte, Flaubert apresenta o contraste entre a realidade da vida de Emma e suas expectativas românticas. Sua insatisfação crescente prenuncia sua busca por algo mais excitante e sofisticado, revelando um caráter insatisfeito e idealista.
**Principais Citações**
"Emma se achava infeliz sem saber de onde vinha essa infelicidade."
"Antes de se casar, ela pensava que sentia amor; mas como a felicidade que deveria ter resultado desse amor não viera, era forçoso que ela se enganara."
**Reflexão sobre a Busca Implacável**
Emma Bovary personifica a busca humana pelo inacessível desde o início do romance. Sua vida no convento e os livros que lê plantam nela uma sede por uma vida idealizada e romântica, que a realidade do casamento com Charles não consegue satisfazer. Emma simboliza o desejo humano de transcender a banalidade e alcançar um ideal muitas vezes inalcançável e proibido.
**Parte 2**
**Resumo**
A segunda parte segue Emma em suas tentativas de escapar da monotonia de sua vida. Ela se envolve em dois casos extraconjugais: primeiro com Rodolphe Boulanger, um nobre local, e depois com Léon Dupuis, um jovem estudante de direito. Emma também começa a gastar dinheiro de maneira extravagante, levando a família a problemas financeiros.
**Análise**
Aqui, vemos Emma buscando realização através de relacionamentos e bens materiais, mas cada tentativa de alcançar a felicidade idealizada acaba em desilusão. Suas ações impulsivas e a constante insatisfação aumentam a tensão narrativa.
**Principais Citações**
"Ela queria tanto experimentar as paixões fortes, as angústias e as emoções intensas, que chegou a acreditar que realmente as sentia."
"Para ela, a vida deveria ser uma sucessão de emoções intensas, e o tédio, um crime."
**Reflexão sobre a Busca Implacável**
Emma continua sua busca pelo inacessível, agora através de amantes e do luxo. Sua relação com Rodolphe e Léon representa a tentativa desesperada de alcançar um amor idealizado que sempre parece escapar. Os bens materiais que ela adquire simbolizam a busca por um status social que também lhe é proibido pela sua condição.
— E então, o que você achou? — Alice questiona depois que deixei o caderno em cima da mesa.
O tom dela não era carregado de arrogância nem tinha soberba. Ela parecia ansiosa pela resposta e isso fez com que eu erguesse o meu olhar para que pudesse encará-la.
— Tá brincando, né? — questiono, incrédula.
Como é que vou conseguir surpreender essa garota?
— Ainda falta a terceira parte, ainda precisa de alguns ajustes, precisamos adicionar as suas ideias — ela diz, pegando as minhas anotações e colocando dentro do caderno. — Mas eu acho que temos um bom começo, pode ser que dê certo — ela diz, guardando os materiais dela e se levantando.
Pode ser que dê certo? O trabalho incompleto dessa garota acabou de humilhar tudo o que eu acabei de fazer.
— Por que você não conseguiu terminar de ler o livro? — questionei.
O sinal soou, indicando que estava na hora de ir para a sala. Levantei-me, pegando a mochila, e fui atrás da garota que caminhava apressadamente à minha frente.
— Precisei fazer hora extra no sábado — ela diz quando consigo ficar ao seu lado.
Ela ainda por cima trabalha.
Passei o meu fim de semana me dedicando a esse livro e ainda assim não consegui fazer um trabalho tão bom quanto o dela.
Chegamos à sala e cada uma foi para o seu lugar. As aulas começaram a todo vapor, e a única coisa que ocupava a minha mente é que eu queria impressionar a Alice, mas a realidade é que ela quem sempre me deixa impressionada.
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Atualizado até capítulo 98
Comments
Bea Andrade
comecei ler na quinta-feira eu ja to adorado o casal
2024-07-14
1
Maria Fabiana
ansiosa para o próximo capítulo.
2024-06-25
1
Maria Andrade
elas vão formar um casal perfeito 😁😍
2024-06-24
5