Quando o sinal tocou anunciando o fim da tortura, a correria começou. A maioria dos alunos saía apressadamente da sala, mas eu, por outro lado, não tinha pressa.
Enquanto juntava meus materiais com a preguiça de sempre, notei que Alice também não parecia ter pressa; ela guardava os materiais de forma desleixada, prolongando aquele momento o máximo possível. Provavelmente, ela não gosta de ficar no meio do tumulto.
Quando o corredor parecia mais vazio, a garota se levantou, colocou a mochila nas costas e saiu andando tranquilamente, sem nem ao menos olhar para trás.
Quanto a mim, decidi ir também porque, como não costumo sair por último, provavelmente não encontraria com a Júlia pelos corredores, e assim teria mais um pouco de paz e tranquilidade.
Coloquei o fone no ouvido, dei play na primeira música do Arctic Monkeys que apareceu, coloquei minha mochila nas costas e segui pelos corredores que estavam praticamente desertos.
Passei pelo portão de ferro e senti o contraste do clima. Enquanto dentro da escola a temperatura estava razoavelmente agradável, do lado de fora estava muito quente e abafado.
Caminhei a passos largos pela calçada até me encostar na sombra de uma árvore. Estava distraída mexendo no celular até que levei um pequeno empurrão. Estava tão distraída e como não esperava por isso, quase caí, e isso foi o suficiente para uma risada alta e escandalosa do Cristian interromper meu momento de paz.
— Perturbado, qual é o seu problema? — perguntei, olhando com raiva para o garoto que se colocava ao meu lado.
— Meu problema é que sou pobre — disse Cristian, e eu acabei sorrindo.
— Eu também sofro desse mal — falei, tirando o fone e enrolando-o no celular.
— Quem dera você sofresse apenas por isso, né? — ele questionou, segurando minha mão enquanto caminhávamos, e eu revirei os olhos em sinal de tédio.
— Por que sempre temos que falar sobre isso? — perguntei de forma impaciente.
— Porque o seu caos é mais interessante. Falando nisso, como foi o seu fim de semana? — ele questionou.
— Foi uma tortura, sério. A Júlia e o Ricardo não se desgrudaram nem por um momento. Minha vontade era simplesmente ficar trancada no meu quarto. Não vejo a hora de meus pais voltarem e colocarem ordem na casa — falei, desabafando.
— Imagino o quanto deve ser horrível essa situação, mas você sabe que não dá para continuar assim, né? — ele falou com um ar sério.
— Assim como? — questionei, já sabendo exatamente para onde essa conversa ia.
Todas as vezes que falamos sobre isso, o Cristian sempre diz que a única maneira de esquecer a Júlia é simplesmente passar a me interessar por outras pessoas.
— Sério isso, Bianca. Você está praticamente fugindo da Júlia, ou vai me dizer que demorou esse tempo todo na escola porque estava copiando a matéria? — ele questionou.
— É tão difícil assim acreditar que eu poderia realmente estar copiando a matéria?
— Bianca, você não copia na hora, quem dirá depois — disse Cristian, e eu dei de ombros. Ele realmente estava certo.
— Eu estou tentando me afastar dela. Acho que agora, com ela em outra sala, vai ser mais fácil — admiti, expondo um dos pensamentos mais recorrentes que tenho desde que a Júlia e meu irmão começaram a namorar.
Me afastar.
Essa é a solução mais óbvia, a mais lógica, e minha única certeza. Essa é a fórmula mágica.
— Fugir nem sempre é uma opção — argumentou Cristian.
— Eu não estou tendo muitas opções ultimamente — disse, impaciente.
— Eu sei que a gente não manda nos sentimentos, mas você podia pelo menos arriscar, sabe? Conhecer gente nova ou gente velha, tanto faz... Só tentar se apaixonar por alguém menos complicado e, de preferência, solteira — disse Cristian.
Eu queria argumentar com Cristian, deixar claro que me apaixonei pela Júlia antes dela ser a namorada do meu irmão, que me interessei por ela quando ela era solteira. Mas de nada adiantaria, porque isso se torna irrelevante. Não tem como argumentar. Independente de que ângulo olhe, essa equação sempre vai terminar com o mesmo resultado e eu sempre vou estar errada.
Às vezes eu odeio me sentir como estou me sentindo. Eu queria poder ter esse controle de gostar e desgostar em um passe de mágica. Queria poder simplesmente pegar tudo o que sinto e redirecionar para outra pessoa.
Continuamos andando pela calçada enquanto Cristian e eu conversávamos sobre séries e sobre o desastre que é minha vida amorosa. Cristian mora algumas quadras longe da minha casa, então ele me deixou na porta e depois seguiu seu caminho.
Olho para a porta e dou um longo suspiro. Não sei se meu irmão está em casa, mas tento me preparar para encará-lo. É difícil olhar para seu próprio irmão e manter uma conversa saudável com ele quando você está sempre se repreendendo por nutrir sentimentos indevidos pela namorada dele.
Meu irmão nunca foi meu rival, nunca tivemos que disputar nada. Ele sempre foi meu amigo, sempre esteve ao meu lado. Às vezes brigamos, discutimos, implicamos um com o outro o tempo todo, mas nunca tivemos nenhum desentendimento sério.
É impossível não sentir medo do que vai acontecer quando ele descobrir.
Entro em casa e deixo minha mochila cair no tapete, sentando-me no sofá. Fecho os olhos e puxo todo o ar que consigo.
— Demorou, hein. — Ricardo comentou, vindo da cozinha com um prato cheio de comida. — Você está bem, Bianca? — meu irmão questionou, sentando-se ao meu lado no sofá.
— Estou bem — falei e forcei um sorriso. — Demorei porque Cristian e eu viemos conversando — falei, e meu irmão sorriu de forma maliciosa.
— Hum, sei. Você e o Cristian, hein? — ele insinuou, e eu apenas neguei.
— Ele é apenas um amigo — falei firme.
— E quem foi que disse o contrário? — ele questionou de forma debochada, o sorriso malicioso ainda estampado no rosto.
— Estou falando sério, Ric — disse, pegando uma almofada, pronta para jogar nele.
— Não faça isso. Você sabe muito bem que a mãe adora esse sofá e, se você jogar essa almofada em mim e eu deixar essa comida entornar aqui, vai manchar, e ela vai brigar com nós dois — disse, e eu coloquei a almofada de volta no lugar. — Vai lá almoçar também. Eu fiz carne com batatas do jeitinho que você gosta.
É em momentos assim, quando ele tem atitudes assim, que eu me sinto horrível.
Levantei-me do sofá, sentindo-me o pior ser humano do mundo, o mais desprezível, o mais traiçoeiro, e caminhei a passos lentos até a cozinha. Coloquei o almoço no meu prato e me sentei à mesa, saboreando uma deliciosa refeição feita do jeitinho que eu gosto.
Enquanto mastigava a comida, a única coisa que eu tinha certeza era que não importava o que eu tivesse que fazer, eu iria tirar a Júlia dos meus pensamentos e arrancá-la do meu coração.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 98
Comments
rihanna 👞
att, só fui ler dnv e era a Julia
2024-10-24
0
rihanna 👞
e n é mais solteira n é Bianca?
2024-10-24
0
Bruna ♥️🤞
ahhhh se fosse tão fácil assim tirar alguém do nosso coração, tudo seria perfeito.
2024-07-02
2