Sabe, de verdade eu acreditei em algum momento que conseguiria impressionar a Alice, pensei que poderia surpreendê-la positivamente.
Isso deveria ser fácil, já que ela sempre espera o pior de mim. Qualquer coisa minimamente decente que eu faça deveria deixá-la em total estado de surpresa, certo?
Errado. Nada, absolutamente nada que eu faço parece ser bom o bastante para fazer essa garota me olhar sem parecer menos entediada.
Parece que não existe uma matéria ou assunto que aquela garota não domina, e todos os professores adoram ela.
Sabe quando os professores estão explicando a matéria? Parece que eles estão sempre a buscando com o olhar. Às vezes, sinto como se eles estivessem dando uma palestra apenas para ela.
Durante as aulas, ela mal olha para mim, não me dirige a palavra, se bem que não é só comigo. Parece que ninguém na sala é digno de receber a atenção dela.
Mas mesmo assim, ela não deveria me ignorar. Estamos fazendo trabalho juntas, me sento atrás dela e sou tecnicamente a colega mais próxima dela.
Tão próxima que da minha mesa eu consigo sentir o cheiro do perfume dela. Tem um aroma envolvente, é um pouco doce, mas não daquele tipo enjoativo; é um perfume gostoso de sentir.
Quando o sinal tocou, o Cristian praticamente me arrastou da sala junto com ele.
— O que você quer, Cristian? — pergunto enquanto ele anda afobado e me guia.
— Quero que você me explique onde você estava. Cheguei na escola e não te achei. Por que você e a Alice chegaram juntas na sala? — ele me questiona assim que sentamos num banco embaixo da árvore.
— Eu estava na biblioteca, e cheguei junto com a Alice porque estávamos no mesmo caminho para chegar ao mesmo destino, que no caso é a nossa sala de aula. Ou você se esqueceu que estudamos na mesma sala? — questiono, não entendendo essa afobação dele.
— Eu não esqueci, é só que achei estranho. Quando cheguei, cumprimentei a Júlia e ela me disse que você já tinha chegado. É óbvio que eu estranhei. Onde já se viu você chegar mais cedo na escola e deixar de ficar conversando com a Júlia para procurar a Alice? — Cristian diz e eu o encaro sem entender.
— Tudo bem que a minha fama me precede, e pontualidade nunca foi o meu forte. Mas eu não tô te entendendo, Cristian. Quer dizer, só porque eu cheguei alguns minutos antes eu deveria ficar conversando com a Júlia ao invés de ir atrás da Alice para a gente conversar sobre o nosso trabalho? Você queria que eu ficasse conversando e dando atenção para a Júlia, é isso? — falo, sem entender o que meu amigo quer de mim. Uma hora ele diz que eu devo conhecer outras pessoas, que eu devo esquecer os sentimentos que tenho pela Júlia, e agora ele fala algo assim.
— Não é nada disso, Bianca. É só que, se fosse há alguns dias atrás, você poderia estar uns trinta minutos atrasada e se topasse com a Júlia no corredor, você iria parar e conversar com ela. — Cristian fala.
— Tá, Cristian, eu entendo, eu realmente sou muito idiota, mas me diz o que eu ganhei fazendo isso? Pois eu te digo, não ganhei nada além de frustração e dor de cabeça. — falei, batendo as mãos nas minhas coxas em sinal claro de chateação.
— Você tá certa, Bianca. — Cristian diz e parece um pouco receoso, como se estivesse pesando as palavras.
— Por que eu sinto que tem um "mas" aí, hein? — questiono arqueando uma sobrancelha e meu amigo balança a cabeça em negação.
— Mas eu tô curioso. Você fez isso porque tá seguindo o meu conselho? — ele questiona e eu fecho os olhos e levo a mão até a têmpora, massageando o local.
— Cristian, de que conselho você tá falando? — questiono impaciente. — Eu tô com fome, tô perdendo o meu recreio. Por favor, Cristian, vá direto ao ponto. — digo e ele revira os olhos.
— Eu quero saber se você está tentando usar a Alice para esquecer a Júlia? — ele questiona e eu bato com a mão na testa.
— Olha bem para mim, Cristian. Você acha que eu me sujeitaria a arrastar alguém para a minha bagunça? Você acha mesmo que eu "usaria" alguém como tapa-buraco, como segunda opção? Eu estava apenas a procurando para mostrar para a Alice as minhas anotações, nada mais que isso. — falo séria.
— Tudo bem, Bianca, eu só me preocupo com você. — ele diz e tenta segurar a minha mão, mas eu imediatamente afasto a minha mão da dele.
Ele olha para mim sem entender e eu cruzo os braços.
— Ei, gente. — a Júlia cumprimenta, chegando sorridente perto de nós. Ela olha para mim e para o Cristian e logo o sorriso se desfaz. — O que tá acontecendo?
— Nada. — Cristian e eu respondemos ao mesmo tempo.
— Se vocês dizem. — a Júlia fala, não muito convicta. — Trouxe uns salgadinhos para a gente. — ela diz e o Cristian se afasta, dando espaço para ela ocupar o espaço no meio de nós dois.
— Obrigada, eu já estava morrendo de fome. — falo e a Júlia sorri, destampando a vasilha.
— É coxinha de frango com catupiri, tenho certeza de que você vai gostar. — ela diz e estica a vasilha para o Cristian pegar uma e depois me estende a vasilha.
No geral, eu gosto de todo tipo de comida, mas eu amo todos os tipos de salgados.
Pego uma coxinha e dou uma mordida. A massa crocante e dourada se desfaz na boca, revelando um recheio cremoso e suculento de frango desfiado misturado com o catupiri, um queijo cremoso.
Dou mais uma mordida apreciando a coxinha que está sensacional, com uma textura incrível e um sabor que deixa um gostinho de quero mais.
Termino de comer a minha coxinha e levo o dedo indicador, que sujou um pouquinho de molho, até a boca.
— O que foi, gente? — questiono, já que tanto o Cristian quanto a Júlia ficam me encarando perplexos.
— Nada. — a Júlia diz, mas o Cristian ri.
— Fala logo, Cristian. — digo e meu amigo ri ainda mais.
— É que você parecia estar desfrutando cada pedacinho da coxinha. — Cristian diz, dando de ombros.
— E como poderia ser diferente? Estava uma delícia, nunca comi algo tão saboroso assim. Muito obrigada, Júlia. — agradeço e vejo o Cristian negar com a cabeça.
— Não precisa agradecer, fico feliz que você... vocês gostaram. — ela diz olhando de mim para o Cristian.
Eu como mais uma coxinha enquanto conversamos sobre algumas besteiras, falamos sobre as aulas, quais matérias gostamos menos. Ficamos assim até o sinal tocar e termos que voltar para a sala.
As duas últimas aulas são de história e eu luto bravamente contra a vontade de dormir, mas é uma batalha tão cruel e injusta.
As luzes estão apagadas enquanto estamos assistindo um filme em preto e branco, um filme mudo do Charlie Chaplin sobre a revolução industrial. Tudo contribui para que eu perca essa guerra e ceda à tentação de dormir.
Mas mesmo assim eu me mantenho acordada e quando o sinal toca e a Alice sai da sala, eu imediatamente corro atrás dela.
— Oi. — digo assim que passamos pelo portão.
Ela toma o caminho oposto que eu costumo seguir, mesmo assim eu a acompanho.
— O que você quer? — ela questiona sem muita paciência.
— Por que você parece estar sempre irritada? — questiono, realmente curiosa.
— É esse o efeito que você causa em mim. — ela diz, dando de ombros e atravessando rapidamente a rua.
— Fico feliz em saber que eu te causo algum efeito. — digo lhe oferecendo o meu sorriso mais cínico.
— Você me causa muitas coisas: tédio, aversão, raiva, desânimo...
— Não precisa continuar, acho que já deu para entender. — digo, parando de andar.
Ela dá mais alguns passos e depois para, olha para mim, olha para frente novamente, toma um longo respiro e depois caminha de volta até mim.
— O que você quer? — ela questiona, se escorando na parede de algum estabelecimento que eu imagino ser uma drogaria.
— Que dia e em que lugar a gente pode fazer o trabalho? — questiono sem muita animação.
— Eu agora não posso, tenho que trabalhar. Porque cada uma não faz a sua parte e depois a gente anexa tudo e entrega. — ela sugere.
— A gente pode fazer assim, mas mesmo assim a gente tem que se encontrar para organizar e dividir as partes e planejar as explicações. — falo.
— Você diz que não pode chegar mais cedo no colégio e durante a tarde não dá para mim. Então como faremos? — ela questiona.
— Podemos fazer no sábado? — questiono.
— Sábado eu trabalho. — ela diz e eu levo a mão aos meus cabelos, bagunçando a minha franja, e ela respira fundo — Que tal no domingo? — ela questiona.
— Tá bom, então no domingo na sua casa. — eu digo.
— Não. — ela praticamente grita e me assusta. — Não é uma boa ideia fazer o trabalho lá em casa, okay. — ela diz com um tom de voz mais neutro agora.
— Okay, pode ser lá em casa então. Que horário você pode ir?
— Acho que às duas da tarde, se estiver tudo bem por você. — ela diz e eu concordo.
— Às duas da tarde está perfeito. — eu digo, entregando o meu celular para ela que me encara sem entender. — Salva o seu número para mim te mandar o endereço. — eu falo e ela abre a mochila, pegando uma caderneta e uma caneta.
— Você pode anotar seu endereço aqui. — ela diz, entregando a caneta e a agenda e me devolvendo o celular.
— Meu Deus, mas que garota difícil. — eu digo em alto e bom tom.
— Difícil não, impossível. — ela diz com um sorriso arrogante no rosto.
Anoto o meu endereço e devolvo as coisas para ela, que apenas guarda de qualquer jeito e sai andando sem nem ao menos dizer tchau.
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Atualizado até capítulo 98
Comments
Marcela Rodrigues
hahahaha tenho o mesmo sentimento
2024-09-19
0
Evexfic
aff eu lendo isso cheia de fome kkkk
2024-07-01
1
Ana Faneco
autoraaaa volta aqui sua linda história tá top
2024-06-26
1