Entro no meu quarto e a Alice está juntando os materiais dela e organizando suas coisas dentro da mochila.
— Pensei que íamos terminar o trabalho todo hoje — eu digo, sentando-me na cama.
— Eu... É... Lembrei que tenho que fazer uma coisa — ela diz, sem nem olhar para mim.
— Sabe, Alice, talvez a sua teoria ridícula não seja tão ridícula assim e pode ser que talvez dê certo.
— Como assim, Bianca? — ela questiona, tão curiosa que para de ajeitar as coisas e começa a olhar para mim.
— Você disse que o desejo pelo proibido desperta o interesse. Bem, acho que você terá a chance de testar isso... e quem sabe, até conquistar o Ricardo — eu digo, começando a pensar que talvez a ideia dela favoreça o interesse de nós duas.
Alice parece incrédula e curiosa ao mesmo tempo.
— Por que você está dizendo isso? Você mesma disse que era uma ideia idiota.
— Eu ainda acho essa ideia idiota, ok, só que tanto o Ricardo quanto a Júlia acreditam que estávamos aqui trancadas fazendo de tudo menos estudando, e eu acho que isso deixou os dois incomodados.
Alice arregala os olhos surpresa e, em seguida, leva as mãos massageando as têmporas.
— Eles acham que...? — ela questiona, gesticulando e apontando a mão entre nós duas, e ela parece tão indignada e frustrada que eu rio.
Para ela, essa ideia de estar comigo é tão absurda que, ao invés de me sentir ofendida, eu acho graça.
A frustração, a indignação dela é a mesma que eu sinto.
Mas, diferente das razões que ela tem, a única razão por eu estar rindo é que tanto a Alice quanto a Júlia desenvolveram sentimentos pelo meu irmão, mas para elas a ideia de sentirem algo por mim é totalmente descabida, infundada, enfim, um completo absurdo. Vejo as bochechas da Alice corarem e ela me taca o estojo de lápis, mas felizmente eu consigo desviar antes que ele atinja o meu rosto.
— Do que você está rindo, hein? Isso não tem nada de engraçado — ela diz realmente zangada.
— Na verdade, é bem cômico. Sabe, você me odeia e é apaixonada pelo meu irmão, e ele acha que temos sentimentos uma pela outra... Quer dizer, é óbvio que existe sentimento entre nós, principalmente da sua parte — eu falo, apontando o dedo para ela.
Ela fica consternada, abre e fecha a boca duas, três vezes e ela me olha como se quisesse me esganar, inclusive ela fecha as mãos em punho.
— Isso não te preocupa? — ela questiona e eu nego. — Então a sua família sabe sobre você? Sabe sobre os seus gostos? — ela questiona.
— Não tenho certeza, mas devem desconfiar — eu falo, dando de ombros.
— E a reação deles não te preocupa? Você não tem medo do que eles vão pensar sobre você? — ela questiona um pouco mais calma e senta na cama tomando uma distância razoável entre nós.
— Hã, não sei... Antes eu tinha muito medo, não do que os outros iam pensar ou falar, mas eu tinha medo dos meus próprios pensamentos, de não me entender e precisar ficar todo tempo me repreendendo por sentir o que eu sentia por pessoas que não deveria. Sabe, Alice, não existe julgamento mais cruel, mais desumano do que aquele feito por si mesma. Não existe nada mais terrível do que você não compreender e não entender a si mesma, você sempre buscar maneiras de sufocar tudo o que você sente e acreditar que existe algo de errado com você, se sentir insuficiente, se sentir perdida. Assumir para si mesma, buscar a sua própria aceitação é muito mais difícil do que buscar a aceitação de outras pessoas. Por muito tempo eu fui a minha pior inimiga, fui a maior responsável pelas noites que passei chorando me perguntando o que tinha de errado, porque eu não era normal igual aos outros. Eu não tenho medo do que as pessoas, ou o que os meus pais vão pensar porque eu sei que nada que eles falarem ou o que eles pensarem vai doer tanto quanto os pensamentos que eu tinha, ou vai doer tanto quanto quando eu evitava olhar no espelho porque eu não tinha coragem de encarar o meu reflexo, eu sentia tanto nojo — eu falo, me lembrando de momentos e de uma época em que eu me sentia tão sozinha, tão vazia, tão pequena, e eu não tinha ninguém para desabafar porque eu tinha medo das pessoas verem o mesmo monstro que eu enxergava quando encarava os espelhos.
— Sinto muito, Bianca — a Alice disse, colocando a mão sobre a minha. A mão dela é macia, mas o contato não durou muito. — Como foi que você superou isso? Como você lidou com as suas inseguranças? — ela questiona me olhando com expectativa.
— Eu entendi que não vale a pena gastar energia lutando para mudar certas coisas, e eu só passei a me concentrar em viver um dia de cada vez e deixar para pensar nos problemas quando eles chegarem. Não vou ficar sofrendo por antecipação — eu falo e dou de ombros.
— Como é a sua relação com a sua família? — ela questiona.
— É boa. Meu pai é mais na dele, ele não costuma expor muito os seus sentimentos e nem conversa muito, mas ele sempre está fazendo algo por nós. Às vezes ele se oferece para fazer as coisas, compra algo que gostamos, ou quando estamos doente ele traz remédio e costuma ficar verificando toda hora se estamos melhor. A minha mãe já é diferente, ela é mais falante, gosta de saber de tudo, da escola, dos meus amigos, e está sempre pedindo ajuda para fazer alguma coisa ainda que ela não precise e sempre faz questão de assistir filmes e novelas juntos. Já com o Ricardo, às vezes nos damos super bem, às vezes trocamos farpas, às vezes discutimos, mas nos damos bem na maior parte do tempo — eu falei e ela assentiu. — E você, Alice, como é a sua relação com a sua família? — eu questiono.
— É complicada, mas já me acostumei — ela diz, dando de ombros, mas ela parece triste. — Acho melhor eu ir — ela diz, se levantando.
— Se você pensa que vai fugir está muito enganada — eu digo e a Alice me olha confusa. — Você não conhece a minha mãe, ela é... Ela não vai deixar você sair sem antes provar da comida e conversar um pouco. Ela gosta de estar envolvida em tudo relacionado aos filhos, especialmente as amizades. Tenho certeza que ela está ansiosa para te conhecer.
— Eu realmente preciso ir, Bianca — ela diz, parecendo nervosa e ansiosa.
— Boa sorte com isso. Mas eu duvido que minha mãe vá deixar você sair tão facilmente. Prepare-se para uma longa conversa e, quem sabe, algumas perguntas embaraçosas — eu digo, dando de ombros e indo abrir a porta.
Deixo que a Alice passe na frente e a sigo. Assim que nos aproximamos da cozinha, as vozes se tornam mais audíveis e posso escutar uma conversa bastante animada.
Assim que entramos na cozinha, todos os olhares se voltam para nós e a Alice parece totalmente desconfortável, ela abaixa a cabeça e vejo o seu corpo tencionando. Olho para a minha mãe e ela abre um grande sorriso.
— Ah, meninas, que bom que desceram! Alice, não é? — a minha mãe questiona, puxando a Alice, e a Alice assente enquanto a minha mãe a leva até a cadeira. — Você precisa provar a torta que eu fiz. E enquanto isso vocês me contam como está indo o trabalho — a minha mãe fala e o Ricardo solta uma risadinha e eu vejo as bochechas da Alice ficando vermelhas.
— Obrigada, senhora — a Alice agradece, um pouco sem jeito, enquanto a minha mãe serve um pedaço de torta para ela.
— Como foi o trabalho? — o Ricardo questiona com um sorriso malicioso, olhando diretamente para a Alice, e ela engasga e começa a tossir e tanto o Ricardo quanto a Júlia sorriem.
Eu caminho até a geladeira, sirvo um pouco de água para ela e depois me sento ao lado do Ricardo.
— Para de agir como imbecil — eu peço e o Ricardo me olha de um jeito estranho e eu retribuo o olhar. — Você está sendo babaca.
— Só estou brincando — ele diz erguendo as mãos.
— Não me interessa, você está deixando ela desconfortável, então é melhor vocês pararem — eu digo firme.
A tensão é palpável, e fico feliz por estarmos falando baixo o suficiente para que ninguém além de nós dois ouça. Eu não sou a pessoa mais autoconfiante do mundo, mas eu jamais permitiria que o meu irmão desrespeitasse ou deixasse qualquer convidado meu desconfortável. A Alice observa as interações entre o Ricardo e eu, e eu apenas sorrio para ela, que retribui de forma mais contida.
— Você e a Bianca estão bem próximas, né, Alice? — a Júlia questiona e a Alice dá de ombros enquanto leva mais um pedaço de torta até a boca.
— Depende do que você entende por proximidade, mas acho que sim, pode-se dizer que estamos. Espero que isso não gere um incômodo para você — a Alice diz e dá de ombros.
Ricardo, por outro lado, observa Alice com um misto de curiosidade e ceticismo.
— E por que isso seria um incômodo para a Júlia? — ele questiona.
— Não sei, você deveria fazer essa pergunta para a Júlia — a Alice diz e dá de ombros.
— Você está enganada, Alice. A sua aproximação com a Bianca não me causa nenhum tipo de incômodo — a Júlia diz, encarando a Alice profundamente. — Eu só estou curiosa, como em tão pouco tempo vocês se aproximaram tanto.
— Ah, claro, curiosidade é algo tão natural. Bianca e eu temos muitas opiniões diferentes e somos completos opostos, mas a gente se entende apesar de tudo — a Alice diz, dando de ombros.
— Mas é isso que importa. Apesar das diferenças de opiniões, o que importa em uma amizade é as pessoas respeitarem a individualidade e se entenderem — meu pai diz e eu sorrio para ele.
— Mas sobre o que é o trabalho que vocês estão fazendo? — minha mãe questiona.
— A professora de literatura passou alguns clássicos para ler e aí a gente precisa fazer uma análise da obra e discutir sobre isso, sobre os anseios e a busca de cada personagem. E a gente ficou com o livro "Madame Bovary" — eu digo, tomando a frente da Alice.
— Parece muito interessante. E o que essa personagem busca? — Ricardo questiona e a Alice sorri.
— Ah, Ricardo, a Madame Bovary sente que lhe falta algo, mas ela não sabe o que falta. Então ela tenta se satisfazer e buscar o que falta. Ela começa a ter uma vida repleta de traições, amores ilícitos e um constante descontentamento com a monotonia da vida burguesa. Ela anseia por escapar das amarras sociais e viver uma paixão ardente, mesmo que isso signifique destruir tudo ao seu redor. É uma busca um tanto... explosiva, por assim dizer. Mas, quem sabe, talvez ela tenha algo a ensinar para todos nós sobre a insatisfação humana — a Alice explica.
— Interessante, realmente. A insatisfação humana é um tema bastante profundo e recorrente — minha mãe comenta, servindo mais torta para a Alice, que aceita com um sorriso tímido.
— E vocês estão gostando do trabalho? — meu pai pergunta.
— Sim, é um desafio, mas estamos aprendendo muito — eu respondo.
— Bom saber que vocês estão aproveitando — ele diz, sorrindo.
A Alice parece mais relaxada agora, embora ainda um pouco tensa. A conversa continua de maneira mais leve e descontraída, e aos poucos a tensão vai diminuindo. Eu fico satisfeita em ver que, apesar das diferenças e das situações embaraçosas, estamos conseguindo encontrar um ponto de entendimento.
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Atualizado até capítulo 98
Comments
thay
mas genteee eu tô tão ansiosa e com medo do que pode vir, sinto que a Bianca e a Alice estavam indo tão bem se não fosse pela merda da Júlia, que aliás o menina chata, agora tenho medo da Bianca perceber tarde demais que o melhor pra ela é a Alice.
2024-07-22
0
Maria Andrade
estou amando e ansiosa pra ver o desenrolar desta história
2024-06-30
4
Mirlene Silva
tô amando essa história
2024-06-30
1