Assustador
Foi a primeira palavra que veio à mente de Delta depois que ela trocou algumas dúzias de palavras com o reverendo Jacob. O aspecto dele, alto, bonito, sério, e, de um certo modo, talvez por ser um padre ou simplesmente um humano, inalcançável; faziam dele um homem envolto em uma aura de misticismo e mistério. O modo como falava, quase soava ameaçador aos seus ouvidos, como se ele soubesse de algo que não deveria saber, como se pudesse enxergar através dela como um cristal, ainda que Delta, melhor do que qualquer um, fosse boa em esconder suas verdadeiras intenções. Ao menos, ela achava que era.
Quando finalmente retornaram à sala de estar, e ele, calmamente se sentou de novo em seu lugar, com aquela expressão que agora era novamente calma e descontraída, Delta tomou um lugar oposto na sala, olhando-o um pouco desconfiada, enquanto Duque parecia confuso, tentando entender o que havia acontecido em tão pouco tempo. Nem ela saberia explicar direito o que raios foi aquela conversa, e como foi capaz de deixá-la tão destoada. Para sua sorte, ou azar, a sensação de imersão não durou muito. Puxando-a para fora daquele novo mundo, aquele estranho e chamativo oceano que parecia ser a interação com o reverendo Jacob, os sons de passos, duros, lentos, ritmados, descendo as escadas, chamaram a atenção de todos. Eram os passos de Alphonse, usando seus sapatos sociais que, de um jeito estranhamente familiar e igualmente tenso, sempre ressoavam da mesma forma endurecida, estalando sobre os degraus da grande escadaria.
— Peço desculpas por deixá-los esperando, reverendos — soou a voz dele, firme, grave, e naturalmente autoritária, como sempre. Alphonse usava um conjunto de terno branco e café, com uma de suas mil gravatas borboleta.
— Não tem problema — disse o reverendo Constantine, fazendo um gesto modesto de mão. O reverendo Jacob, no entanto, olhou-o com uma expressão séria, parecendo até um tanto irritado, como se não aceitasse tão bem a ideia de esperar por ele ali, como se não baixasse tão fácil a sua cabeça para a liderança inata do senhor Karstein.
— Se eu soubesse que teria que esperar, eu tinha vindo mais tarde — disse Jacob, sem um pingo de pudor, ajustando o seu colarinho romano.
— Não posso fazer nada mais do que me desculpar, reverendo, mesmo que o meu assunto não seja necessariamente com você — Alphonse também não deixou barato, finalmente chegando ao piso inferior, sua presença ali, enchendo o ambiente com uma atmosfera de frieza e medo.
O reverendo Jacob apenas meneou a cabeça, com uma expressão que mesclava desdém e um aspecto de "desistência", como se achasse que não valia a pena seguir com uma discussão como aquela.
— É mole? — ele murmurou por fim, não para Alphonse, mas, provavelmente, para o seu mentor, que apenas deu de ombros.
— Vamos com calma, ainda é cedo pra estarmos perdendo a paciência — disse Constantine, apaziguando.
— É, o meu parceiro tem razão, por que não senta seu bumbum aí e vamos tratar do assunto em questão? — Jacob disse, indicando a cadeira à frente deles, como se fosse ele o anfitrião e não o contrário.
— É... Claro — Alphonse assentiu, quase sem reação para aquilo, apenas puxando uma das cadeiras de madeira polida e se sentando.
Foi só ele se acomodar, que uma das criadas da casa veio trazendo um bule com chá de jasmim em uma bandeja, junto a um conjunto de xícaras de porcelana com bordados de ouro. Enquanto todos pareciam tensos, receosos, a jovem criada circulava a sala e o centro, tratando de servir a todos agilmente para que pudesse sair daquele fogo cruzado o mais rápido possível. Delta aceitou uma xícara, erguendo-a à frente da boca, enquanto seu olhar esperto alternava entre os reverendos e o seu pai.
— Como eu informei ao reverendo Constantine, tenho a intenção de fundar um orfanato paroquial na nossa... Pequena cidade, já possuo a aprovação do prefeito, e tudo de que preciso agora é do apoio da igreja para que seja dado o andamento do meu plano — disse Alphonse, eloquente, enquanto bebericava da sua xícara.
— Bom...
— Por acaso... — Jacob interrompeu Constantine, tomando a palavra — O senhor já possui alguma outra obra de caridade em andamento? Algum outro orfanato ou projeto de alimentação de carentes?
— Por que a pergunta? — murmurou Alphonse, arqueando uma sobrancelha.
— Ah, não é nada, só procedimento padrão — disse Jacob, com um sorriso de canto de boca, quase como se fosse um membro da polícia ou algo assim.
— O meu pupilo ainda está bem ligado aos métodos americanos de fazer os projetos, peço que não se ofenda, por favor — Constantine disse, mais uma vez, tentando apaziguar aquela tensão com sua voz macia.
Alphonse os encarou, mantendo o seu olhar gélido analítico e julgador, antes que pudesse voltar a falar e quebrar o silêncio que se fazia ali, com sua voz ainda mais grave que o comum:
— Não possuo nenhuma outra obra de caridade em andamento.
— Então qual é o intuito de fundar um orfanato agora? Pode me ajudar a entender? — perguntou o senhor Jacob em um quase sussurro, julgador, se inclinando para a frente e apoiando os antebraços sobre as coxas, enquanto encarava profundamente o anfitrião. Delta nunca tinha visto algo assim, alguém que pudesse atravessar o véu de medo que era deixado naturalmente pela presença do seu pai.
Se Delta não conhecesse Alphonse, diria que ele não se importou nem um pouco com a ousadia do reverendo, mas ela o conhecia, sabia que aquele olhar frio em seu rosto, aquela forma como contraiu os lábios de modo a mover levemente o seu senhor bigode, era uma forma de controlar a si mesmo; ocorria quando suas presas queriam, por ímpeto agressivo, serem livres e se mostrarem ao mundo...
— Vou te contar uma história, reverendo — Alphonse disse de súbito, apoiando as mãos na cadeira e se levantando, levando sua xícara consigo. Os outros o acompanharam com o olhar. Alphonse bebeu um gole, e voltou a falar, andejando pela sala:
— No passado, há muito tempo atrás, um jovem garoto perdeu o seu pai, que foi covardemente atacado por opositores "políticos", alguns diriam tarde, mas... Ainda era cedo, pra ele, pra aquele jovem garoto, era cedo... — disse Alphonse, parecendo pensativo — Com uma mãe doente, e uma vida miserável, o garoto, outrora descendente de uma grande linhagem de homens poderosos, se tornou uma criança de rua, magra, faminta, e sem ninguém que pudesse cuidar dela...
— Era você? — o reverendo perguntou friamente, assim que Alphonse ficou em silêncio, olhando o jardim de suas imediações através da grande janela.
— Sempre direto ao ponto, gosto disso — murmurou Alphonse em um tom de simpatia, e o mais próximo que ele tinha de um sorriso, também, era algo exatamente raro vindo dele — Eu vivi sem um propósito certo, tentei resgatar a glória do meu pai, e fiz algo próximo a isso, eu escalei e escalei no decorrer da minha vida, tomei de volta o que era meu por direito, derrubei opositores, usei a coroa... Então eu te pergunto, reverendo Jacob, há algum problema em um homem velho, que já conquistou quase tudo o que sonhava, querer se dedicar a um propósito maior? Algo que não envolva apenas ele, mas aqueles a quem sua mão é capaz de proteger? ... — ao concluir, ele olhou sobre o ombro. A história contada, não era uma total mentira, mas também, não era uma total verdade. Alphonse realmente havia passado por maus bocados após a morte do pai, e teve de escalar novamente até o topo da sua espécie, mas... Seu propósito não tinha nada a ver com proteção, não, se tratava de dominação; pura e instintiva.
Jacob contraiu os lábios, engolindo algumas palavras que provavelmente queria falar, enquanto Alphonse o encarava. Ele balançou suavemente a cabeça em negação, sem ter nada para rebater toda aquela história.
— Q-que bom que nos entendemos então, não é? — disse Constantine, forçando uma animação que já não existia naquele ambiente, se é que chegou a existir em algum momento.
— É... Vai ser um prazer trabalhar com o senhor — disse Jacob, com um dos seus (aparentemente) frequentes sorrisos sem graça, como se os fizesse para disfarçar a tensão, não havia sinceridade em sua voz, era quase um tom de irônia.
— Não precisa se preocupar com algo assim — Alphonse disse calmamente, fazendo um gesto de mão que mais parecia uma dispensa — Quase não irão interagir comigo, pra isso eu chamei minha filha.
— O que? — Delta perguntou subitamente ao notar como Alphonse a indicou com um gesto, todos os pares de olhos da sala se voltaram para ela, que estava quietinha até então no seu lugar no sofá, como uma criança presenciando uma discussão de adultos.
— O que? Ela vai ser a sua voz nesse lance? — perguntou Jacob, arqueando uma sobrancelha enquanto a fitava com seus olhos cinzas.
— É, algo assim — Alphonse respondeu — Já está na hora de delegar algumas funções à minha filha, espero que... A tratem bem.
Nesse momento, os chãos sob os pés de Delta pareceram girar, enquanto um misto de medo e apreensão disputavam espaço entre as suas viceras.
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Atualizado até capítulo 69
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