Senhor Karstein

Os dias que se seguiram ali na paróquia, foram, provavelmente, os mais confusos e estranhos da vida de Lester. Degolar um lobisomem ou queimar todo um ninho de reptilianos era brincadeira de criança comparado com o árduo e angustiante trabalho de fingir ser um homem santo. Para evitar deslizes enquanto passava pelo seu intensivo de aprendizado de padre, ele não saiu da cola de Constantine por nem um segundo sequer, sendo quase como uma sombra musculosa que seguia-o onde quer que fosse ali na paróquia. As freiras não demoraram para se acostumar com a sua "ilustre" presença no meio delas, e logo passaram a cumprimenta-lo respeitosamente, como se ele fosse, de fato, um membro daquela organização. 

— Responda, seja educado — disse o reverendo Constantine certo dia, mas Lester apenas meneou a cabeça, como fazia quando estava com dúvidas. 

— E como que um padre responde? Eu falo o que? 

— "Deus abençoe", não é tão difícil, é? 

— É, eu pego o jeito — respondeu Lester.

Aos poucos, de fato, aprendeu alguns truques e macetes sobre a forma de se portar, em primeiro lugar, os padres não deveriam olhar para as damas durante as missas, e tampouco para as freiras que andejavam por ali em seus grupinhos organizados; isso não foi lá um grande desafio. A segunda regra, foi, de fato, a que mais o incomodou, padres não podiam falar palavrões; às vezes, ele cometia deslizes, um "porra" ou "caralho" acabava sendo dito em ocasiões inoportunas, nas quais deveria se fingir de idiota e se retirar para fazer uma reza de arrependimento. 

Seu maior constrangimento, no entanto, foi quando o padre Constantine, achando que ele já estava pronto, resolveu lhe chamar para que falasse algo aos fiéis sobre o púlpito. Ainda que estivessem usando aquela velha desculpa de ele ser um padre em processo de aprendizado, todos achariam estranho se o tal Jacob sequer pudesse recitar um versículo bíblico para a igreja. Era um domingo, e mais cedo, Constantine havia lhe mostrado o versículo.

— Aqui, Josué, Capítulo um, versículo nove — murmurou o reverendo, mostrando-o a bíblia — "Não te mandei eu? Sê forte e corajoso; não temas, nem te espantes; porque o Senhor teu Deus é contigo, por onde quer que andares".

— Ah... Deu pra sacar que é um lance de fé — Lester disse, um tanto contrariado — Aliás, vocês não cansam de sempre falar dos mesmos assuntos, não? 

— Escute, eu vou te chamar pra fazer uma participação hoje, quero que leia esse versículo. 

— Não — ele negou na lata — Foi mal, reverendo, não vai rolar — mas isso apenas tirou do reverendo, um riso um tanto animado.

— Bem, querendo ou não, você é um padre em aprendizado enquanto estiver aqui, então, faça jus ao título.

— Qual é, eles já devem ter ouvido essa ladainha de fé mais de um milhão de vezes, que diferença isso faz?! — Lester falou em voz alta, mas notou o olhar de uma freira pousando sobre ele, acenando para ela, um pouco sem graça, e voltando-se novamente ao reverendo, falando, mais brando agora — Você quer estragar o disfarce por acaso? 

— Não vai estragar o disfarce, reverendo Jacob — disse Constantine, com aquele sorriso gentil e até um pouco sínico que era tão corriqueiro em seu rosto. Ele pousou ternamente uma mão sobre o ombro de Lester — Tudo de que você precisa, é usar a fé que está dentro de você, busque a voz do senhor, ele vai guiar você até às palavras que devem ser ditas.

— Uma ova ...

Mais tarde, ao chegar em frente àquele grupo de pessoas que assistia à missa, todos ingleses de olhos claros e peles pálidas, nada da reconfortante variedade étnica que fazia da sua terra natal um local aconchegante aos seus olhos, Lester hesitou levemente, sentiu sua boca seca e suas mãos trêmulas. Nunca foi do tipo tímido, e não teria o menor problema em mostrar o dedo do meio para todas aquelas pessoas, mas, nessa ocasião, se sentiu como uma criança perdida... Lester limpou a garganta um par de vezes.

— Bom, que Deus esteja convosco, é... irmãos — ele concluiu falando a última palavra depois de estender um pouco, e sorrindo de um jeito sem graça — Por favor, abram aí em... Josué, capítulo um e... Aquele negócio, versículo dois.

Ele observou os irmãos da igreja abrindo suas bíblias em um som distante e um tanto reconfortante de couro velho e páginas passando, que se mesclavam aos sons dos aquecedores. 

— Não te mandei eu? Rapaz, Sê forte e corajoso; não temas, nem se espanta; porque o Senhor teu Deus é contigo, por onde quer que vá — Lester leu aquilo, adaptando um pouco para as suas palavras, mas se sentiu um completo imbecil repetindo aqueles versos, ele olhou novamente para as pessoas, ajustando o microfone — Bom, o texto é auto explicativo, Deus vigia vocês e só manda vocês pra lugares bons, não importa se parece uma roubada — ele disse, se preparando pra sair, mas voltando e falando novamente — E às vezes parece muito uma roubada, então fiquem de olho. 

— Fiquem de olho? — o reverendo Constantine cobrou-o pela frase após o fim da missa, então, caiu em uma gargalhada rouca — Você realmente não leva o menor jeito.

Lester deu de ombros.

— Ah, eu acho que eu mandei bem.

Em outra ocasião, um pouco depois, ele finalmente conheceu o seu suspeito número um, o senhor Karstein foi até a igreja, no terceiro domingo em que Lester estava ali. Nesse meio tempo, já havia estudado tudo sobre a família através de investigações não muito ortodoxas; eram proprietários de vastas terras que circundavam a região, produtores de maçãs, abóboras e amoras, além de o senhor Karstein possuir uma boa fatia das propriedades privadas da cidade, sendo dono de metade da região comercial. Eles eram ricos, montados na grana. As três filhas, aparentemente, receberam educação em casa, e não frequentaram a escola, não havendo registros delas em nenhuma instituição da cidade. Os planos hospitalares também eram inexistentes, o que dava brecha para uma expansão de pesquisa, mas Lester sabia, sabia o que isso significava... Eles eram como fantasmas, estavam ali, comandavam, mas tinham carta branca para desaparecerem quando bem entendessem, sem deixar nenhum rastro. 

— Reverendo Constantine, é um prazer revê-lo — disse o senhor Karstein, um homem que parecia ter seus cinquenta anos, usava um vestimentas sociais de aspectos retrógrados, em um misto de branco, creme e azul oceânico. Ele apertou a mão do reverendo, que assentiu com um olhar desconfiado.

— O prazer é todo meu, senhor Karstein, como vai a família? Por que não vieram todos à missa? — perguntou o reverendo, enquanto Lester observava no canto, ansioso para ter um contato com o alvo. 

— Nem sempre eu consigo trazê-las, sabe como são os filhos — disse Alphonse, mantendo a calma e a expressão de poucos amigos que parecia ser a sua face simpática.

— Sei, sei bem, e falando nisso — murmurou o reverendo, finalmente dando a deixa que Lester precisava para se aproximar — Esse é o reverendo Jacob, ele é um aprendiz, veio dos Estados Unidos.

— Ah.

— É um prazer, senhor — Lester disse, erguendo e apertando firmemente a mão de Alphonse, olhando-o nos olhos e notando o âmbar parco nas suas iris.

— O prazer é meu, espero que esteja gostando da cidade; você não é bonito demais pra ser padre? — Alphonse perguntou, e por um instante, Lester desviou o olhar para o reverendo, já confirmando aquela sua teoria do "ator pornô vestido de padre". 

— Ah, isso, eu... — Lester murmurou, sorrindo um pouco sem graça (ou pelo menos fingindo) — Eu fico lisonjeado. 

Haviam formas de testar alguém para saber se era ou não um vampiro, mas para fazer isso com Alphonse, precisava pegá-lo sozinho, ou estaria em plena desvantagem caso algo desse errado e ele parecesse apenas mais um maluco. Embora, em seu coração, ele já soubesse, precisava apenas confirmar... 

— Quando Deus faz um chamado, não há aparência que fique no caminho, sabe? — Constantine acrescentou.

— É, eu ... Concordo com isso — murmurou Alphonse, com aquela voz firme que tinha, então, mudou de assunto — Por falar nisso, eu gostaria de fazer uma doação à igreja, podemos conversar em particular? — ele perguntou ao Constantine, um claro sinal para Lester sair. 

— Eu... Vou dar uma volta — Lester disse após alguns segundos de silêncio, praguejando mentalmente pela dispensa fria que recebeu.

 

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Comments

Alessandra Almeida

Alessandra Almeida

😂😂😂😂😂

2024-11-17

1

nimorango

nimorango

🤣

2024-08-13

1

elenice ferreira

elenice ferreira

amando muito td isso! 🦇 gay?😄😄😄😄😀 rindo até 2090

2024-08-10

2

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