Infiltração

Lester teve que engolir de volta o seu coração quando a porta da grande mansão Karstein se abriu e ele deu de cara com o que jurava ser a mulher mais bonita que ele já viu em toda a sua vida; mas o que o deixou o surpreso, o que fez com que seu sangue parecesse se transformar em gelo dentro das veias, foi a figura mais atrás, usando uma camisa branca e um avental ridículo que contrastava com seus dois metros de puro músculo. Aquele sujeito parrudo e careca era, sem nenhuma dúvida, o mesmo grandalhão que agarrou-o pelo pescoço e o lançou para longe, duas noites atrás, na casa noturna White Flag, o que fazia daquela bela moça, que o encarou por mais tempo do que deveria com seus olhos azuis e hipnotizantes, aquela que estava mais recuada e receosa durante a confusão que acontecera. A filha de Alphonse, Elisabeth Karstein.

 A pergunta feita por ela, sobre se conhecerem ou não, pegou-o mais uma vez de surpresa, mas Lester foi rápido em desconversar naquele ponto, notando como nenhum dos dois anfitriões pareceu reconhece-lo, uma vez que a confusão na White Flag ocorreu sob aquele denso véu de escuridão em neon que recobria o camarote, sem que nada além de silhuetas fosse distinguível em meio ao caos de pessoas embriagadas. A essas alturas, ele já tinha certeza que os membros daquela família, tal qual o grandalhão que servia de guarda costas e (aparentemente) cozinheiro e mordomo da casa, eram genuínos vampiros, monstros. Ele fez uma nota mental para si mesmo, de não se deixar enganar pelas aparências, como, por vezes, ocorria com caçadores inexperientes. 

No caminho em direção ao banheiro, ele reparou na estrutura da mansão, assim como havia reparado lá fora. Era uma casa soturna, estilo vitoriano, paredes negras, altas como as de um presídio de segurança máxima, pontudas e estreitas como em uma catedral, as janelas tinham vidraças e mosaicos brancos com figuras indistinguíveis. Grandes varandas com estátuas e plantas trepadeiras eram vistas em cada um dos pisos da mansão, e lá dentro, além do teto ser tão alto quanto o da paróquia de Blackvalley, as escadarias em formato de "C", com corrimãos de madeira polida eram enormes, tendo espaço para que até quatro pessoas subissem lado a lado sem problemas, quase como uma moradia de gigantes. Elizabeth o acompanhou, guiando-o pela escada da sala principal. Lester olhava os arredores com um pouco de receio, como se algum outro monstro fosse sair do meio da escuridão a qualquer momento para rasgar a sua jugular com os dentes. Ela pareceu notar, já que o olhou de canto em um instante e puxou assunto:

— Acabei... Me esquecendo de me apresentar; meu nome é Elizabeth Karstein, sou filha do senhor Alphonse — ela disse.

— É, eu já sabia — Lester disse em um dar de ombros.

— Costumam me chamar de Delta, é um apelido — ela emendou, voltando a atenção à escada enquanto subia degrau por degrau com algum tipo de graciosidade que parecia vir de uma outra era — N-não que você precise utilizar, mas eu não ficaria incomodada caso... Decidisse me chamar assim.

— Delta? E de onde é que veio esse apelido? — ele perguntou, tentando ainda soar indiferente.

Delta meneou a cabeça enquanto arqueava as sobrancelhas, como se tentasse acessar suas lembranças. Embora ele odiasse admitir, havia um toque de fofura e até graciosidade no gesto.

— Eu não faço ideia — ela disse finalmente.

— Falou — Lester murmurou — O banheiro, fica ali? — ele apontou para uma porta no fim do corredor, notou que havia uma estátua de um corpo masculino de mármore no meio do caminho, com um pintinho minúsculo de fora, poderia vir a calhar para o seu plano.

— Sim... Eu... Vou aguardar aqui — ela disse pausadamente, passando as mãos para trás de si e cruzando os dedos de ambas. Lester não pode evitar de se sentir sem graça. 

— Tá legal, só um minuto — ele disse, arqueando as sobrancelhas e caminhando rapidamente em direção ao banheiro. Suspirou, uma vez que se viu lá dentro, fechando a porta atrás de si e pegando, de dentro do bolso da calça, três dispositivos. Todos eram circulares com superfícies esburacadas, tão pequenos quanto a ponta de um dedo, dispositivos de captação de áudio, uma forma perfeita de conceder acesso aos planos dos Karsteins para a irmandade, de finalmente saber se eles eram realmente os predecessores de um fodido apocalipse de vampiros. 

Após enrolar por alguns segundos, Lester abriu a porta do banheiro, vendo quando os olhos azuis brilhantes de Delta se volveram, lá no final do corredor, em sua direção, com certa expectativa. 

Ele apontou para a estátua agora ao seu lado. 

— Estátua maneira — murmurou, dando um tapinha na lombar da estátua, nisso, plantou o seu primeiro dispositivo. 

— Já estava aí quando eu nasci — ela disse simplesmente, sem parecer esboçar nenhum tipo de sentimento em sua voz. 

— Então, o seu coroa é tipo um colecionador de obras de arte? Ele deve viajar muito — Lester disse, como se não fosse nada demais, finalmente a alcançando.

— Na verdade, ele não viaja muito, ao menos, não agora — Delta respondeu. 

— E qual é a idade dele? Uns cinquenta? Sessenta? — ele perguntou, insistindo em sua investigação, claro, não era como se ela fosse falar a verdade, mas ele tinha que tentar mesmo assim.

— Cinquenta e nove — Delta respondeu quase de imediato, como se fosse uma fala ensaiada — Mas ele é um homem sábio, mesmo para a idade dele.

— Ele não frequenta muito a igreja, né? meio... Repentina essa ideia de um orfanato paroquial, você, por exemplo, eu nunca vi por lá — Lester disse, agora, não sendo tão sútil quanto pretendia.

— Eu... Tenho um certo problema com religião — Delta respondeu.

Lester olhou na direção dela, uma nota de antecipação em seu rosto, queria mesmo que ela desenvolvesse esse tema; o que um vampiro, ou melhor, o que uma princesa vampira pensava sobre religião e como ela tentaria disfarçar isso? Era uma questão de seu interesse, e como estava disfarçado de padre, sua curiosidade acerca do assunto não seria (provavelmente) vista como suspeita.

— Problema? 

— Sim — Delta murmurou, levemente hesitante — Não é estranho como, às vezes, parece que alguém superior a você, em... Todos os aspectos, parece decidir todo o rumo que sua vida deverá tomar? 

— E isso é uma coisa ruim? — Lester perguntou, a voz um pouco mais grave que o comum.

— Não sei dizer — ela respondeu — Às vezes, isso trás uma sensação de prisão, de impotência, é algo difícil de lidar.

— Você tá falando de Deus? — ele perguntou logo em seguida, quase sem dar tempo para ela respirar — Tem medo de Deus, senhorita Karstein? — subitamente, ele parou de andar, olhando-a fixamente e esperando uma confissão, um vacilo que fosse, mas ele pareceu mais ameaçador do que preocupado, embora não tenha feito isso de propósito.

— Eu não tenho medo de Deus — ela disse defensiva, quase que de imediato — Sou uma serva, fiel e leal ao meu propósito, mas assim como todos, às vezes eu sinto medo... 

— E você por acaso tem algum tipo de dúvida quanto ao seu propósito? Que propósito seria esse? — ele insistiu. 

Delta levou algum tempo para responder, por um instante, ele sentiu como se a sua pergunta realmente a tivesse atingido fundo, como se tivesse feito exatamente o questionamento que deveria fazer para a desarmar. Ela desviou o olhar, procurando algum abrigo em algum outro ponto, e voltando subitamente a descer as escadas.

— Não importa — respondeu ela secamente. 

— Bom, o reino de Deus é... É pra todos, e aquele lance lá dos pequeninos, cê sabe — Lester disse, acompanhando-a.

— Eu ouvi quando o reverendo Constantine disse — respondeu ela, quase parecendo cansada daquele ponto.

— Pois é, então, sentir medo é uma coisa até normal se você parar pra pensar, não é como se Deus pudesse descer lá de cima e fazer as coisas pra você — Lester murmurou, tentando não falar nenhuma heresia que pudesse estragar o seu disfarce — Mas a justiça dos humanos é feita aqui na terra — ele emendou, deixando um sútil aviso em sua frase.

— O que isso quer dizer? 

— Quer dizer que você deveria temer mais os humanos do que a Deus, ou... Seja lá a quem você é leal e fiel — ele disse seriamente, deixando uma ênfase na palavra "humanos" e notando um olhar de soslaio vindo dela — Sacou? — ele perguntou, voltando ao aspecto de indiferença, mas Delta apenas o ignorou, apressando o passo para voltar à sala de estar, deixando-o com a estranha sensação que a sua ansiedade para acabar logo com aquilo poderia acabar estragando tudo logo, logo. No fundo, em um ponto onde ele sequer era capaz de admitir, Lester estava com medo, desde que soube que alguém havia cobrido seus rastros sem que nem mesmo ele soubesse. Estava receoso sobre quem poderia ser...

Após isso, ele ainda instalou mais duas escutas, uma na base da escada, e outra sob o centro da sala de estar. 

 

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