Os reverendos

— Então são dois padres da Paróquia de Blackvalley? Será que eles trazem aquela energia de igreja com eles? — perguntou Duque, temeroso, vindo da cozinha com um pote de bolinhos caseiros, usando, sobre uma camisa de serviço, um avental negro, do qual tinha um estranho orgulho quando estava preparando suas experiências bizarras de refeições e tira gostos. 

— Não, a energia sagrada fica apenas dentro das limitações das paróquias — Delta respondeu, ajustando levemente o seu vestido e gargantilha na qual repousava uma pedra de safira. Após o fiasco que foi a tentativa de se conectarem com a cultura humana, Delta notou a sua irmã mais velha ficando ainda mais distante e silenciosa. Não teve nenhuma conversa com Lenna desde o incidente da casa noturna, nada além de um olhar frio e desdenhoso quando se encontraram pela manhã, apesar disso, Alphonse seguia sem saber de sua escapada, dando-lhe ainda tarefas rotineiras, nesse dia em questão, era de receber os dois padres da paróquia a qual ele usaria como parte do seu grande e secreto plano. 

— Espero que você tenha razão, eu odeio a energia de igrejas — ele murmurou, enquanto organizava os petiscos sobre o centro de madeira da sala, que servia como uma mesinha para o grande sofá. A chaleira, lá na cozinha, já dava indícios que iria começar logo, logo a apitar. 

— Eu não posso opinar, nunca senti isso — Delta respondeu. Embora já tivesse ido à igreja, aquele tipo de magia que se formava da crença de fiéis, não era suficientemente forte para afeta-la como fazia com vampiros transmutados. 

— Sorte a sua...

— Duque — Delta o cortou antes que ele pudesse terminar o que quer que fosse falar — O que a Lenna falou pra você? A respeito daquela noite? 

— Ela... Não falou muito — Duque disse em um breve suspiro, mudando o seu aspecto de gigante medroso para gigante sério — Só que alguém matou os Thierrys antes dela. 

— Alguém? Quem? — ela perguntou, um tanto alarmada com a informação.

— Não sabemos ainda, mas parece ter sido coisa de um caçador — ele respondeu.

— Um caçador nessa região, é praticamente suicídio — Delta disse — Ela não deve ter gostado nada disso. 

— Não gostou — disse Duque em menear de cabeça.

A campainha tocou, melódica, onírica, fazendo-os ficarem subitamente de orelhas em pé. Delta e Duque trocaram olhares decisivos, antes que ela se dirigisse à porta, suspirando, e então, abrindo-a. 

— Bom dia, suponho que sejam os padres da paróquia de Blackvalley — ela disse a frase praticamente ensaiada, só depois tratando de reparar nas duas figuras que se viam ali na porta. Um deles, era baixinho, idoso e murcho como apenas um humano era capaz de ficar, a cabeça careca tinha algumas marcas resultadas de uma pele já envelhecida, apesar disso, tinha um olhar tão gentil, que chegava a aquecer o coração. O outro, era praticamente o oposto, familiar, de um jeito estranho, parecia que ela já o conhecia. Loiro, alto, ombros largos e um rosto anguloso que parecia ter saído de uma daquelas revistas que Duque foleava com ela de vez em quando. Delta encarou, talvez por mais tempo do que deveria, os olhos cinzentos do reverendo, uma mistura de fascínio e familiaridade... Ele parecia igualmente perdido, olhando-a fixamente sem desviar nem por um instante.

— Eu sou o reverendo Constantine — disse o idoso, com sua voz aguda e arranhada — Esse é um visitante aprendiz, o reverendo Jacob, ele é americano — emendou, gesticulando o seu amigo alto.

— É um prazer — disse o reverendo Jacob, sorrindo de canto e meneando a cabeça, como se finalmente saindo do seu transe. Delta levou uns segundos a mais, assentindo levemente e dando espaço para ambos.

— Entrem — foi tudo que ela disse, com o seu aspecto inexpressivo de sempre retornando, enquanto tentava mandar embora aquela estranha sensação que sentiu. 

— Com licença — disse o reverendo Constantine, enquanto acenava levemente e ia entrando, Jacob veio logo em seguida. 

— Sentem-se, o senhor Karstein já vai recebe-los — disse Delta, indicando o sofá para ambos, mais uma frase e mais um gesto ensaiados. Recebeu muitos vampiros para o seu pai, alguns humanos também, mas nunca reverendos. 

— Oh, o senhor é bem grande — ela ouviu Constantine murmurar animadamente com Duque, que já os aguardava.

— Uh — Padre Jacob silvou levemente em uma nota de aprovação, pegando um dos bolinhos do centro sem pedir permissão e o enfiando na boca. 

— Bom dia, reverendos, esses são bolinhos veganos, fiz com aipim e wasabi, podem ficar à vontade, eu usei uma velha receita do meu país — Duque disse gentilmente, esperando um elogio. O rosto do reverendo Jacob mudou enquanto ele mastigava, como aquela velha expressão "o brilho sumindo no olhar". 

— A-ah, sim — Jacob respondeu arqueando as sobrancelhas, depois de sentir o gosto do bolinho vegano, mudou completamente — Muito bom — ele emendou, engolindo tudo à contragosto e nem querendo mais saber de tocar nas invenções de Duque, tal qual todos na família Karstein. O reverendo Constantine, no entanto, comeu tranquilamente, sorrindo e fazendo um gesto positivo para Duque.

— E então, soube que estão planejando a fundação de um orfanato paroquial na cidade com o senhor Karstein — Delta disse, tentando puxar assunto.

— É, estamos nos entendendo — Jacob disse em um menear de cabeça que o fazia parecer indiferente e despreocupado.

— O reino dos céus pertence aos pequeninos, acredito que estamos fazendo a vontade de Deus — Constantine disse, sorridente.

Delta se sentou no sofá à frente deles, ajustando levemente o seu vestido e os observando, não tinha ideia de como continuar uma conversa com aqueles dois; se humanos comuns já eram um desafio para ela, humanos religiosos eram ainda piores, e ainda tinha aquele aspecto estranho, algum tipo de energia familiar e cativante que fluia através de cada fio loiro da cabeça do padre Jacob, deixando uma espécie de incômodo em sua nuca, uma sensação de algo incompleto. 

— Por acaso, nos conhecemos de algum lugar? — Delta perguntou assim que o seu olhar se cruzou com o dele, achando estranho o som de sua própria voz fazendo tal pergunta repentina, era como sempre, indiferente, mas a pergunta soava pretensiosa, já que ela dificilmente saía de casa.

O padre se empertigou por um instante, enquanto Duque e Constantine alternavam os olhares entre ambos, um mesmo aspecto de curiosidade brilhando por detrás das pupilas de ambos.

— Ah, não — Jacob sorriu um pouco sem graça diante de sua pergunta, pegando um dado de queijo da mesa com um palito — Eu me lembraria se a conhecesse — ele disse, enfiando na boca, embora não deixasse claro o significado disso, soava como se fugisse da questão.

— O reverendo Jacob chegou a pouco mais de duas semanas, e não saiu da catedral desde então, é difícil que ele conheça alguém daqui — Constantine disse uns segundos depois. 

— Eu entendo, eu também não saio muito, então ... Devo ter confundido o reverendo com outra pessoa — ela disse, um pouco sem graça. 

— Eu confundo as pessoas o tempo todo — Duque disse em um tom apaziguador, dando de ombros.

— Será que... Eu posso usar o banheiro? — o reverendo Jacob perguntou, quase cortando as palavras de Duque.

— Claro — Delta respondeu, ainda bastante curiosa.

 

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