A primeira coisa que Lester notou enquanto caminhava pelo longo corredor juntamente com Rufhus, foi o aroma distante que vinha do longe, como uma pequena nuvem de vapor que preenchia suas narinas, faziam sua boca se encher de saliva e seus olhos se aguçarem como se espreitando uma possível caça. Não daria para descrever para um humano, alguém que nunca foi transformado em uma coisa como aquela, como era a sensação de sentir aquele aroma, era podre, ferroso, ruim, mas, ao mesmo tempo, tão atrativo quanto uma tira de bacon bem suculento, naqueles momentos em que estamos morrendo de fome. A luz que ele enxergava, era resultado da sua nova visão noturna, pois, embora pudesse ver tudo nos arredores, tinha a impressão que, se não fosse pelo processo de transformação em seu corpo, se ainda fosse humano, não poderia ver nem um palmo de distância à sua frente.
— Está tudo bem? — Rufhus perguntou, olhando sobre o ombro em algum momento da caminhada pelo corredor que interconectava várias portas de madeira, tal qual arcos que davam passagens a novas alas da propriedade, mas tudo tão escuro quanto a visão dos Ghouls era propícia.
— Ah, tá... Tá sim, só não tô acostumado com os efeitos dessa coisa — Lester disse, de fato, estava dando na telha o quanto olhava em todas as direções. Precisava de um plano para conseguir armamento, sabia que Ghouls, diferente dos vampiros, por mais que fossem puros de sangue, não tinham poderes psíquicos e nem uma força tão monstruosa, tudo que tinham ao seu favor, eram sentidos aguçados, dentes afiados que surgiam ao comerem, e garras que usavam para partir e rasgar suas vítimas, nada disso era tão útil para matar monstros, então, mais uma vez, precisava improvisar.
— Por acaso, eu posso usar o banheiro? — Lester perguntou, parando de caminhar em algum momento e vendo quando Rufhus o olhou com uma expressão irritada no rosto.
— Banheiro? É sério?
— É, ué... Você não tem bexiga, não? — ele perguntou em afronta, vendo quando o velhote revirou os olhos e tomou um outro rumo, murmurando um "por aqui" quase em um rosnado.
O banheiro tinha uma luz própria, e embora tenha visto tudo perfeitamente iluminado, Lester teve mais uma vez a sensação que aquela lâmpada era tão amena quanto a que havia na sala de estar. As paredes e o piso eram feitos de mármore branco e negro que se intercalavam formando figuras de ondas, a pia tinha uma torneira dourada que, checando bem, era feita de aço inoxidável, já era uma boa opção para começar, mas ele preferiu ir no mais óbvio, o grande espelho que havia logo acima dela, o qual ocupava praticamente toda a parede e tinha bordas com entalhes dourados. Vidro era ótimo para cortar, embora não o suficiente, deveria ser útil.
— Tá legal, você vai ter que servir — Lester murmurou, analisando a peça, então, pegando uma das toalhas brancas que haviam penduradas no torno da parede, enrolou-a envolta do punho, não perdendo tempo e golpeando o espelho com um soco firme e rápido. O som de vidro se estilhaçando foi como uma agonia para sua audição, agora, bem mais sensível. Batidas na porta soaram logo em seguida.
— Ei, tudo bem aí? — Rufhus perguntou do outro lado, praticamente esmurrando a porta, parecendo mais irritado do que preocupado.
Lester soltou um suspiro, agarrando um dos cacos que tinha o tamanho de um punhal, usando a toalha para impedir que aquilo fizesse tiras da palma de sua mão, então, destravou a porta do banheiro, notando quando Rufhus foi praticamente invadindo o local, afobado.
— O que você está fazend...
Mas ele foi calado quando Lester, sem perder tempo, e sem demonstrar um pingo de hesitação ou piedade, cravou a lâmina de vidro no seu peito. Tudo que Rufhus fez foi se empertigar enquanto sua boca se abria formando um "o" e os olhos se arregalavam.
— Acabou pra você — Lester disse, com o rosto bem próximo ao dele, uma expressão que mesclava raiva e desprezo pela criatura.
— V-você... — Rufhus silvou em dor, mas não conseguiu terminar, antes que a lâmina fosse arrancada dele, o coração perfurado era fatal para uma criatura como ele, e logo o velhote tombou após chãos, mas isso, acabou atraindo a atenção de uma outra coisa, que aguardava lá fora.
— Rufhus? — soou uma voz masculina, enquanto uma silhueta vinha entrando no banheiro. "Então tem mais deles?" Lester pensou, já se preparando para acabar de vez com aquela festa de monstros.
Assim que viu uma mão masculina surgindo, empurrando a porta pela maçaneta, Lester a agarrou, puxando para dentro até que o antebraço tatuado do homem estivesse lá dentro, ouvindo-o soltar um palavrão na hora do susto, e reagindo a isso brutalmente, se afastando e enfiando a sola do pé na porta, esmagando o antebraço do outro contra a fresta.
— Seu filho da puta!!! — Lester ouviu um grito que mesclava raiva e desespero do outro lado.
Sua segunda ação, foi abrir novamente a porta e puxar o intruso para dentro. Nem chegou a ver direito o rosto ou a fisionomia do sujeito, mas ele exalava aquele cheiro amadeirado estranho e nada convidativo, ele tinha cheiro de Ghoul, então, não importava, era um monstro. Mais uma vez, em uma pequena briga que se desenrolou, Lester apunhalou o monstro no coração, ao mesmo tempo em que a coisa rasgava seu ombro esquerdo com as garras, fazendo-o silvar de dor.
— Um cavaleiro branco?! — o Ghoul cambaleou ao ser atingido, soltando-o, e dando brecha para que Lester se posicionasse atrás dele, chutando seu traseiro para cima do vaso sanitário, recuando, arrancando a chave do banheiro e saindo dali, trancando o seu moribundo junto ao cadáver de Rufhus, ele também não duraria muito após ser atingido no peito, então nem valia a pena perder mais tempo.
— Cavaleiro branco? — Lester murmurou, ofegando, já tinha ouvido falar em algo assim, mas... Era apenas uma lenda britânica, algo como uma organização secreta de caçadores, semelhante à irmandade dos caçadores, na América. Ele resolveu não ocupar tanto a mente com isso, se concentrando no presente, onde ele estava em uma perfeita enrascada, seu ombro ferido agora latejava, o efeito do antídoto, unido à fome de Ghoul que sentia, faziam arder as suas vísceras como se mergulhadas em água fervente. De todo modo, não podia parar, salvar Lídia antes que ela se alimentasse, era a sua prioridade ali, isso, claro, se não fosse tarde demais.
Lester caminhou pela imensidão da propriedade Thierry, praticamente se arrastando pelas paredes enquanto mantinha o seu caco de vidro firme entre os dedos e a camada de toalha, ambos mesclados pelo sangue dos monstros que foram mortos, misturados ao sangue do próprio Lester, que limpou o ombro com ela. Talvez pelo próprio instinto recém despertado, ou pela sua velha intuição de caçador, mas ele seguiu o aroma que conseguia ser bom e ruim ao mesmo tempo, acreditando que a coisa que procurava, estava bem ali, onde o vapor podre e atrativo de carne se tornava tão inebriante que ele quase podia senti-lo preenchendo seus pulmões e aguçando ainda mais os desejos monstruosos de alimentação.
— O... O que?! Você é um caçador?! — ele ouviu a voz feminina assustada, olhando para o corredor que surgiu à sua esquerda quando passou por mais um arco, vendo, quase tarde demais, quando Pamela ergueu um revólver em sua direção. Lester recuou para trás do arco um segundo antes do som rouco e ensurdecedor do disparo, antes de uma bala passar arrancando uma lasca da parede logo ao lado do seu ombro. A respiração dele se tornando torrencial e seu coração batendo rapidamente, Lester ouvia o som do próprio sangue sendo bombeado a todo o gás pelas suas veias. Ele ouviu passos, Pamela tentava fugir.
— Não vai rolar... — ele disse em um sussurro sombrio, circulando a rota dela e correndo pelo corredor de onde veio, encontrando-a no próximo arco que ela tentaria usar para escapar pela janela que se via logo na parede de trás. Lester segurou-a no ato, jogando ela contra a parede, com uma força nova que nunca havia possuído antes.
— Eu poderia me acostumar com esse lance de ser monstro — Lester disse, mas a piada foi tão de mal gosto, que até ele se sentiu enojado.
— Seu arrombado! — Pamela grunhiu em um misto de desespero e raiva, tentando sacar a arma novamente para atirar nele, mas Lester, em uma única passada, cobriu a distância entre eles, apunhalando-a com o caco, os olhos de Pamela se arregalaram, enquanto lágrimas se formavam neles, mas Lester não teve nenhuma piedade, apenas deixando que ela caísse aos chãos, inanimada, então, pegando a arma dela e fazendo dois disparos em sua cabeça, apenas para garantir. Cérebro e coração.
Quando Lester entrou finalmente na sala de onde vinha o aroma, suas narinas traíram seus olhos, o aroma que o deixava tão entusiasmado, como suspeitava, era de órgãos humanos, todos vistos espalhados como as tripas de um animal abatido sobre uma grande travessa de metal, corações, estômagos, intestinos, e várias outras coisas que já haviam se deformado em sangue e tiras de carne por aquela que os devorava com tamanha ferocidade...
— Lídia?... — ele chamou o nome dela, um sussurro, um misto de decepção e curiosidade em sua voz. Queria fazer o mesmo, queria comer aquela coisa, mas, ao mesmo tempo, a cena o fazia querer vomitar.
a sala era ainda menos iluminada que as demais, sem janelas ou móveis, apenas uma grande mesa com a travessa, ganchos com pedaços de carne pendurados, e... Lídia...
— Eu... Não... Queria — Lídia disse, erguendo os olhos esfomeados que pareciam brilhar na meia luz, lágrimas se formando neles, o sangue escorria pela sua boca, manchando as roupas brancas que usava — Mas eu estava com tanta fome! — ela se lastimou com uma voz pastosa. As lágrimas escorrendo e se misturando ao sangue que não era dela, mas das vítimas daquele banquete cruel.
— Cacete... — Lester praguejou, esfregando os olhos por um instante e sentindo seus glóbulos oculares latejando, já não tinha mais muito tempo, e ela... Bem, ela estava perdida. Uma simples garota humana, de forma cruel e rápida, transformada em um monstro que devorava viceras com tamanho apetite.
— O que foi que eles deram pra mim? O que foi que aconteceu?! — Lídia perguntava em lástima, levando as duas mãos à cabeça e apertando-a, manchando os cabelos com o sangue que havia nelas.
— Você não devia ter comido.
— M-me ajuda... Eu preciso sair daqui, preciso ir pra...
O som do disparo calou completamente a voz de Lídia, Lester, em um piscar de olhos, atirou na cabeça dela. Normalmente, não tinha piedade de monstros, ele teve de Lídia, mas isso não significava que poderia poupa-la. Ela machucaria pessoas, tiraria vidas, comeria novamente, porque era isso que coisas como ela faziam, isso era... Isso era da natureza delas.
"Vamos lá, Lester, atira em mim".... Ele se lembrou das palavras ditas por aquele que, quando mais jovem, chamou de irmão, e também, o primeiro monstro que ele matou...
Mathew...
O corpo de Lester havia chegado ao limite, precisava sair dali, sua missão, no fim das contas, havia sido um fracasso.
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Atualizado até capítulo 69
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