Lester soltou um longo suspiro enquanto Rufhus o ajudava a sair do carro; o mundo ainda ondulava levemente e ele havia alcançado o que poderia ser chamado de um novo estágio de seu entorpecimento, sentia como se mil agulhas percorressem o interior do seu corpo, as juntas, todas elas, doíam como se feitas de isopor, e toda a bebida que tomou naquela noite, insistia de forma horrenda em subir de volta pela sua garganta. Ele reparou que a pobre Lídia não estava em uma situação muito melhor que ele, precisando que Cinthia a apoiasse no ombro para que ficasse de pé.
— O que está acontecendo comigo? — perguntou Lídia, a voz frágil e quebradiça, Lester não perguntou nada, apenas fez uma nota mental de dar um pouco do seu antídoto para ela, antes que fosse tarde demais. Se um deles comesse algum órgão humano, se consumisse carne, então estaria acabado, a transformação estaria completa e seria então irreversível.
— Isso, ah, é algo que colocamos em nossa bebida, nós já estamos acostumados, mas vocês são amadores, eu falei pra vocês — Cinthia disse, de um certo modo, misturando mentiras e meias verdades, enquanto ajudava a vítima a subir os degraus da propriedade. Era uma boa sacada fingir que o seu suco de ghouls era nada além de uma droga colocada nas bebidas para melhorar a diversão.
— Falou? — Lester entrou no personagem, questionando com um ar um tanto cético, Cínthia não falou nada sobre batizar a bebida deles, e tampouco sobre o que ela utilizou para isso.
— Falei sim, se você esqueceu, deve ser um efeito da... Coisa — disse ela, dando uma piscadinha, e a vontade que lhe veio, foi de agarrar no pescoço dela e torcer até ouvir um barulho.
Aquele não era o casarão que havia sido oficialmente comprado pela família dos Thierrys, era uma casa menor, embora ainda fosse avantajada, com dois andares e uma ruma de janelas que se espalhava pelo paredão de tijolos expostos. Lester conseguiu acompanhar muito pouco do percurso enquanto "morria" no banco de trás, sabendo apenas que a casa ficava no final da avenida Straights, um pouco afastada do centro habitacional de Blackvalley. Lester entendeu aquele lugar como uma propriedade secundária, um local não oficial onde eles iriam trazer os seus recém transmutados para um processo de inicialização.
— É comum sentir isso no começo — Rufhus disse, dando um tapinha no ombro de Lester, enquanto ele cambaleava levemente para subir os quatro degraus que davam acesso à varanda da casa.
— Eu não tô preocupado, não, já passei por coisa pior — Lester disse secamente, não omitindo um certo asco em sua voz, e também, não deixando de ser sincero em suas palavras.
— Eu duvido muito disso, gatinho — Pamela disse ao passar por Lester, abrindo a porta que se via selada por, pelo menos, três trancas diferentes. O tom de voz dela, quase entregava que aquilo era uma cilada, notou isso pelo olhar preocupado no rosto de Lídia, a outra vítima que foi arrastada pra isso junto a ele.
— Vocês vão ficar bem — Cinthia disse em tom resoluto, lançando um olhar bravo e um tanto enciumado para a irmã.
Uma vez lá dentro, ele notou como o ambiente tinha uma atmosfera cadavérica, como a real toca de um monstro. Dois sofás com capas de couro viam-se logo no salão principal, sobre suas cabeças, um lustre com uma meia luz tão fraca que até parecia ter uma vela ao invés de uma lâmpada em seu interior. As outras salas que se seguiam em todas as passagens em formatos de arco, eram tão escuras, que a luz do lustre mal desbravava meio metro após os arcos, antes do completo e silencioso breu.
— Sentem-se, por favor — Rufhus indicou os sofás com um gesto de mão, verdadeiramente como um mordomo.
— Eu vou buscar um pouco de água pra vocês — Pamela disse animadamente, praticamente saltitando para outro cômodo em meio ao escuro, enquanto Lester e Lídia se sentavam no sofá de couro, lado a lado. Ele reparou no olhar pertinente que a garota lançava sobre ele, não sabendo se aquilo era um bom ou um mau sinal. Precisava achar um jeito de se comunicar com ela, de pedir que ela esperasse até a situação ser resolvida para que ele lhe desse o antídoto, mas não havia como fazer isso ali, na frente de todos aqueles monstros. precisava confiar na sorte, para que ambos saíssem dali ...
Você realmente quer sair dessa vivo? Uma voz soou no fundo de sua mente. A voz de Charles, foi uma pergunta que lhe foi feita várias vezes no decorrer de sua carreira juntos. Embora Charles fosse aquele que o arrastava para os casos, Lester era, definitivamente, o mais impulsivo, o mais obstinado. Se colocar em um risco de vida apenas para poder eliminar a ameaça, era algo com o qual já estava tão acostumado, que havia se tornado seu comportamento padrão. Ele fechou os olhos por um instante, sentindo um profundo mal estar, sentindo aquela horrível sensação aumentando como se fosse consumi-lo por inteiro, então, teve o vislumbre de mais uma lembrança:
Lester viu um jovem garoto, o pai, um militar morto em missão no Afeganistão, deixando, para trás, apenas uma série de retratos, uma medalha que não servia para nada e uma carta de despedida, escrita antes mesmo de ele partir para a guerra, assumindo ter encontrado a "mulher da sua vida", e estando disposto a criar uma nova família, longe daquilo que, em sua visão, provavelmente era apenas um rascunho, a mãe, alguém que não conseguia superar a rejeição e tampouco a morte do ex marido, era uma viciada em anti depressivos que passava mais tempo em seu próprio mundo da lua, do que dando ouvidos aos lamentos da criança, que, tudo que precisava, era de alguém para estar ali por ela, alguém que pudesse a amar, a guiar, alguém que... Não fosse tão insensível e dependente. "talvez pudéssemos sofrer juntos, mamãe" pensava ele em alguns momentos, porque, por mais que ela não notasse...
A rejeição também doía nele.
Quando abriu os seus olhos, foi como se tivesse dormido por uns três dias, todo o corpo dele nesse momento sentia uma profunda leveza, nem sinal das dores que eram tão incômodas. Lester soltou um grunhido enquanto ficava sentado no sofá, sua coluna estalando em três pontos diferentes. A luz que entrava pela vidraça da porta, vindo das ruas, era tão resplandecente que quase o cegou, obrigando ele a cobrir os olhos por um instante, soltando uma série de praguejos contra quem quer que fosse o desgraçado que acendeu um refletor ali.
— você se acostuma — a voz de Rufhus soou em algum ponto dali, atraindo a sua atenção. Foi só então que Lester percebeu, notando como conseguia ver claramente para além dos arcos onde antes era apenas um breu indistinguível; não é que havia uma luz mais forte lá fora, ou mesmo lá dentro. Era a sua visão, ela havia se aguçado fortemente ao escuro, agora podia ver tal qual um felino em meio às trevas, um claro sinal que a sua "monstrificação" estava praticamente no fim do processo. A leveza que sentia nos músculos agora, como se feitos de isopor, veio acompanhada de uma mistura de fome e sede que ele veio a notar um segundo depois.
Sua preocupação foi inicialmente com Lídia, já que rapidamente percebeu que a garota não estava ali na sala, e tampouco Cinthia ou Pamela, apenas ele e aquele velhote esquisito.
— O que tá acontecendo? — Lester perguntou, olhando na direção de Rufhus, agora, notou uma espécie de aroma vindo dele; um cheiro forte e amadeirado, mas nada apetitoso, talvez fosse pelo olfato que aquelas coisas sabiam quem podiam devorar e quem não podiam.
— Você chegou num outro nível, vem comigo, você vai se sentir melhor depois que comer — disse Rufhus, fazendo um gesto de cabeça em um pedido para que o acompanhasse. Lester se levantou do sofá, soltando um suspiro. Em seu peito, uma queimação se fazia, e ele imaginou se tratar do antídoto, aos poucos, começando a fazer efeito.
— Não vou recusar uma bóia — ele disse, ainda mantendo aquele personagem ingênuo que era o Westwood, acompanhando Rufhus para onde quer que ele fosse o levar.
Ghouls podiam regenerar seus órgãos internos, com exceção apenas do coração e do cérebro, então, se iria mata-los, precisava de algo forte e decisivo para usar como arma. Finalmente, a fase dois do plano tinha início.
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Atualizado até capítulo 69
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