Intrigas

Delta e Duque não eram necessariamente os maiores peritos em vestimentas casuais, isso, definitivamente, ficou claro pelo modo como ambos se vestiram para a tal "casa noturna White Flag", que, outrora, fora chamada de "discoteca White Flag". Ela colocou um vestido preto com um sobretudo de camurça azul, junto a um colar de pérolas brancas e um salto alto de couro.

Duque, vestia calça e camisa social, com suspensórios dourados que, assim como a camisa, quase se rasgavam pelo seu peitoral. Estavam sim bem vestidos, mas nem imaginavam o quanto eram destoantes de todos aqueles humanos com calças jeans, mini saias e cabelos punks. Antes de saírem de casa, Duque lhe ofereceu um copo de whisky Royal salute, e também tomou um em goladas caudalosas. Era um procedimento padrão para quando os vampiros da irmandade saiam para onde haviam muitos humanos. A embriaguez era como uma névoa sobre seus instintos predatórios, ocultando o aroma dos humanos e controlando a sede de sangue, assim, permitindo que eles pudessem transitar entre as pessoas sem que mordessem a jugular de alguém. 

Uma vez dentro do local, Delta se arrependeu no mesmo instante de ter aceitado essa terrível ideia. A música era como tambores batendo diretamente em seu crânio, os humanos eram todos mal vestidos e mal educados, esbarrando uns nos outros e gritando para conseguirem se comunicar em meio ao barulho. O aroma do sangue, de fato, era parco e distante — mas não inexistente — em meio àquela avalanche de bebidas alcoólicas e drogas, Delta estava mais longe de querer morder alguém, do que de colocar tudo que comeu para fora ali mesmo. Enquanto avançavam pela pista em direção ao camarote, onde outros primos e filhos de membros do conselho já aguardavam por eles, Duque servia como uma espécie de escudo para manter os humanos enxeridos longe dela, quase como o seu guarda costas. Isso serviu bem, já que os dois metros de massa muscular dele, faziam um ótimo trabalho de intimidação. 

 O segurança que guardava a escada do camarote, pareceu até uma criança frente ao aspecto corpulento de Duque, que mostrou as duas pulseiras com uma expressão fria e resoluta, e passou sem trocar palavra alguma com o humano. Delta acenou levemente com a cabeça ao passar por ele, mas também não disse nada. 

Lá encima, frente a grandes painéis de vidro que davam vista da cidade, as luzes eram mais suaves, um aspecto negro opaco, como um parco neon, tornava quase impossível distinguir os rostos das pessoas em meio à névoa. Mesmo a visão noturna dos vampiros, era facilmente obscurescida por aquele neon avermelhado que se mesclava à escuridão, como uma estranha vestimenta que envolvia as silhuetas humanas. Em uma grande mesa circular com uma iluminação suave saindo de sua laterais, os legados do conselho aguardavam por eles. Eram todos jovens (para os padrões de vampiros) assim como ela, todos na faixa dos cem a duzentos anos, exibindo jaquetas de couro, calças rasgadas, tatuagens extravagantes e cabelos em estilos punks ou militares que se mesclavam às aparências vistas em humanos rebeldes. Obviamente, a dupla ficou um tanto destoada do resto do grupo.

— Pessoal — Duque os cumprimentou suavemente com um acenar, puxando uma das cadeiras fluorescentes para Delta, que se sentou após agradecer.

— Aí, Elisabeth, acho que vocês não sacaram bem a ideia de se misturar, viu? — comentou Ardroxux, filho de Vladimir, conselheiro do lado direito da mesa. Era um rapaz que tentou cortejá-la um tempo no passado, mas foi repelido brutalmente por Lenna, e jamais tentou novamente, embora estivesse sempre ali, no derredor.

— Se quer saber, eu achei uma ótima roupa, combina com o seu rosto fofo — Alinna disse, depois de sugar uma fileira de pó branco sobre a mesa para dentro das narinas. Ela era neta do conselheiro Thurner, lado esquerdo. Provavelmente a mais velha dali, e mais próxima de assumir um lugar na mesa, mas não parecia ser mais responsável que os demais, o cabelo em estilo punk, via-se metade raspado, metade descolorido, e o batom negro era fosforescente, reagindo às luzes neon, como se houvesse um pisca pisca em seus lábios.

O último dos três, era Benington, filho adotivo de Sinatra, o segundo no comando do conselho, atrás apenas de Alphonse. Os cabelos loiros viam-se bem aparados, exceto por uma franja que lhe cobria a testa, o rosto dele tinha traços delicados, com as maçãs do rosto sobressalentes, e as vestimentas, eram bem semelhantes às de Ardroxux. Benington, ou Beny, como chamavam, não disse nada, apenas acenou para Delta com um sorriso um tanto dissimulado, colocando um copo à frente dela e outro à frente de Duque, e lhes servindo da vodca que vinha bebendo. Como era filho de um membro importante do conselho, Delta o via com bastante frequência, o suficiente para saber que Beny, definitivamente, não era alguém confiável.

— Na alfaiataria, me disseram que era a última moda entre os humanos — Duque se queixou com um tom de voz afetado, como normalmente fazia, enquanto puxava levemente seus suspensórios.

— É, se você estiver nos anos oitenta — Ardroxux comentou em um dar de ombros.

— E aí, Elizab... Delta — murmurou Beny, todo esparramado em sua cadeira, como se estivesse em um sofá — Sua irmã sabe que você está em um lugar como esse? — ele perguntou em um tom provocativo, como normalmente fazia. Às vezes, ela tinha a sensação que Beny estava tentando flertar com ela, e não podia negar a coragem dele, uma vez que fazia o mesmo com Lenna, mesmo sabendo que ela poderia vira-lo do avesso.

— Minha irmã não precisa saber de cada passo que eu dou — ela respondeu em uma mistura de raiva e resignação, vendo um prazer surgir no olhar semicerrado de Beny, que parecia se divertir em deixá-la desconfortável.

— Claro, mas eu não acho que ela partilha dessa ideia — ele comentou.

— Lenna precisa curtir um pouco mais — Duque disse casualmente, tentando salva-la da indiscrição de Beny — ela anda muito estressada.

— Eu me cago de medo dela — Ardroxux murmurou, suspirando após beber um grande gole de vodca.

— Eu acho ela sexy — Alinna disse em um sibilar, como uma cascavel excitada.

— Será que... Podemos falar de alguma outra coisa que não seja minha família? — Delta murmurou, já tendo se arrependido de ir ali.

— É claro... Que tal aquilo ali? — Beny disse, apontando, ainda com o copo na mão, para a direção do ponto oposto do camarote. Especificamente, para uma mesa onde haviam quatro pessoas, das quatro, três eram mulheres, e usavam ainda mais couro que a mesa dos vampiros, até mesmo os vestidos curtos que elas usavam, eram feitos de um material que brilhava como jaquetas de motoqueiros. 

— Quem são? — Delta perguntou.

— Thierrys — Ardroxux emendou.

— Thierrys? 

— São Ghouls — Beny disse, a expressão dele se tornando séria e até um pouco irritada ao citar esse nome, surgindo uma espécie de seriedade em seu aspecto, nem sinal da expressão dissimulada de antes — Parece que estão ficando mais ousados e cercando um território que não pertence a eles... O que acha, princesa? 

— Isso não é nada bom — foi tudo que Delta conseguiu dizer, diante da pressão que se fez sobre ela, enquanto todos a encaravam, aguardando uma resposta.

— Não, isso é péssimo — Beny pontuou impaciente — Mas e aí, como vai ser?

— O que quer que eu faça?

— Você sabe, princesa, se você der a ordem, nenhum de nós vai ser punido por trucidar com eles — Beny disse, sorrindo de canto — E com você, é claro que o papai iria pegar leve.

— Gente, nós viemos aqui pra curtir a noite, não foi? Por que não deixamos isso pra lá? — Duque disse, tentando apaziguar os ânimos.

— Fica na sua, mordomo gigante, eu perguntei a ela — Beny disse ríspido, fazendo um gesto desdenhoso para Duque.

— Aí, cara, esse não é um jeito apropriado de se falar! — Duque disse, rígido, mas ainda longe de realmente estar irritado; ele tinha uma paciência de Jó. 

— Mais respeito com ele — Delta disse, finalmente se impondo — Duque é mais valioso pra esse conselho do que você.

— Eu discordo, mas isso não vem ao caso — Beny disse, mais uma vez, apontando para o grupo de Ghouls, o qual calmamente, assim como eles, estavam mesclados aos humanos — O que você vai fazer em relação àquilo? Quero ver se você é boa na liderança.

— Eu não tenho e nem posso fazer nada sem receber ordens do meu pai, você deveria saber disso.

— Sem essa! 

— Aí, Beny, é melhor deixar isso pra lá — Ardroxux murmumrou, um pouco resignado, ao notar as vozes de ambos ficando mais altas.

Beny ficou de pé, apoiando as mãos sobre a mesa e se inclinando na direção de Delta, seu aspecto físico, esguio e alto, era ameaçador; 

— Se a princesinha não fizer nada, se não der a ordem, eu vou fazer mesmo assim... Talvez, tudo que precisemos seja um líder de verdade, e aí? 

— Você ouviu ela, cara, não precisa bancar o macho alfa, até porque, você não passa de um mauricinho — Duque disse, também se levantando e olhando para Beny de cima pra baixo, mais alto, mais largo, e bem, beem mais forte. Apesar disso, Beny confiava em seu sangue puro, e suas habilidades de telecinese. Ele ergueu o olhar para encontrar os olhos calmos e resolutos de Duque, e sorriu ... Ele até chegou a puxar o fôlego, afim de dizer algum desaforo, mas foi cortado pelas palavras de Alinna:

— Parece que chegou um bonitão na área.

Todos direcionaram as atenções para onde ela olhava. Entrando ali, através das escadas do camarote, Delta avistou o homem. Tudo que consegui ver naquela iluminação psicodélica, foi a sua forma corpórea, usava roupas casuais, calça e camisa pretos, os cabelos (provavelmente) eram claros, e o rosto tinha traços firmes, era forte, não como Duque, mas para os padrões humanos, aparentava ser um fisiculturista ou um militar. O que a deixou surpresa, foi que, assim que entrou ali, o homem caminhou diretamente para a mesa da família Thierry... Delta ficou na dúvida se poderia ser mais um deles, ainda que sua aparência não lembrasse em nada a de um Ghoul. 

 

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Comments

elenice ferreira

elenice ferreira

uma vampira abatida 😱🤭😀 por um humaninho🤣🤣🤣

2024-08-10

1

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