Discoteca

Delta adentrou no quarto de Picle logo após o desjejum; os cânticos oniricos de pássaros da floresta, como uma melodia fantasmagórica, adentravam por entre as grades da janela de seu quarto, as quais haviam sido chumbadas ali após as constantes fugas que a pequena havia feito, afim de explorar os jardins da propriedade, sozinha. Picle era uma garota ousada apesar de seu eterno silêncio. Em noites quentes de verão, quando as estrelas eram brilhantes e vistosas nos céus, sua irmãzinha tinha a façanha de abrir a janela e pular dali para o precipício; seu quarto se via no terceiro piso da mansão. Ela se machucava na queda, óbvio, mas seu corpo se regenerava, uma vez que Picle tinha um poder de autocura superior a qualquer outro membro da família Karstein, e então, ela saía por aí, correndo com os bracinhos abertos como de costume. Na última vez, Duque a havia encontrado na saída do jardim, onde teria acesso aos pomares de maçãs e poderia facilmente se perder e ir parar entre os humanos. Duque a levou de volta para o quarto, e então, chumbou as grades de aço dobrado na janela. 

— Bom dia, Picle — Delta disse calmamente, entrando no quarto, sua voz, como sempre, carecia de emoções. A pequena garota olhou na direção dela, fitando-a com seus grandes e expressivos olhos dourados. Picle era uma versão minúscula dela, a caçula da família e seu maior tesouro, apesar de ser mais uma das vítimas da terrível paternidade de Alphonse. 

Picle se levantou da cama, atravessando o quarto em um galgar rápido e se agarrando a Delta, dando-lhe um abraço terno e apertado, como sempre fazia.

— Você dormiu bem? — Delta perguntou, e ela assentiu em resposta, desviando o olhar por um instante. A garota segurou em seu pulso e puxou-a pelo quarto, caminhando um pouco inclinada pela força que fazia para arrastar Delta até a cama e fazê-la se sentar lá com um leve empurrão. Depois, correu até a gaveta de sua cômoda de mogno e tirou de lá, um dos seus livros infantis. Ela colocou o livro sobre o colo de Delta, circulando-a e se jogando na cama ao seu lado.

— O Duque não está lendo pra você? Talvez ele não goste de saber que eu... — ela murmurou, parando e pensando por alguns segundos, e então, dando de ombros — Tudo bem — Delta se deu por vencida, abrindo na página onde havia um marca páginas negro, no formato de uma espada. 

 Ela continuou a leitura do livro do Hobbit, começando um pouco devagar e pegando o embalo com o tempo. Delta não era nem de longe uma leitora tão eficaz quanto Duque, mas foi suficiente para manter a sua irmãzinha entretida, Picle se debruçou sobre seu colo, fitando-a com aqueles olhos grandes e expressivos, vendo além de sua forma corpórea. Às vezes, tinha a sensação de que a alma de Picle conseguia ir longe, para além do mundo material. Sempre que via seus olhos grandes procurando o nada, imaginava para onde, exatamente, eles estavam olhando... 

Quando alguém bateu suavemente na porta, atraindo a sua atenção, Picle já estava dormindo, então, Delta a deitou na cama e se levantou, ajeitando seu vestido de cetim e indo até lá, mas a porta se abriu um pouco antes que ela a alcançasse. Duque colocou apenas a cabeça para dentro do quarto, fitando-a com seus olhos escuros e espertos.

— Ela dormiu?  — ele perguntou em um sussurro.

— Sim — respondeu, enquanto saía do quarto, reparando na figura de Duque, usando o seu clássico terno azul.

Duque foi junto a ela, e ambos caminharam lado a lado pelo corredor do piso superior, passando por entre as estátuas de mármore de corpos masculinos e femininos, esculpidos com a máxima beleza encontrada em ambos.

— O plano do senhor Alphonse já começou a dar os primeiros passos; se os licantropos não estragarem tudo, vamos ficar bem — Duque comentou para quebrar o gelo. 

— E os caçadores... — ela murmurou, mas havia um quê de dúvida na fala.

— Puxa, eu odeio caçadores — Duque respondeu, não omitindo o receio que havia em sua voz. Ele era um vampiro de dois metros de altura, tinha mais músculos no antebraço do que Delta tinha no corpo inteiro, mas conhecendo-o tão bem, ela sabia que Duque, aquele homem corpulento e forte, era um amante, não era um guerreiro, embora, caso precisasse lutar, ele não perderia pra ninguém...

Foi Duque quem lhe apresentou o seu primeiro livro, e foi ele quem ensinou Delta a ler e escrever; ele também foi lhe apresentando, em segredo, alguns itens da cultura humana que eram proibidos a ela pelo seu pai e sua irmã, como músicas, jogos e filmes, por fim, foi ele quem lhe deu o seu apelido, Duque foi, definitivamente, o pai que Delta nunca teve, e expressamente, se mostrava como alguém sensível e emotivo; muitas vezes, sendo uma válvula de escape naquele mundo de frieza e poder.

— Nós vamos ficar bem; não consigo ver a Lenna sendo vencida por um licantropo e muito menos por um humano — Delta disse em um tom apaziguador.

— Sinceramente, às vezes eu tenho medo dela — Duque disse, e mais uma vez, ele falava sério — Quer dizer, cada dia que passa, ela fica mais ousada em relação ao senhor Alphonse, eu tenho um certo receio de onde isso vai parar.

— Não vai acontecer nada... — Delta o repreendeu — Apesar dos confrontos, o coração de Lenna está no lugar certo, somos uma família. 

— Eu sei, eu sei — disse ele em rendição — Não é que eu concorde com todos os ideais do senhor Alphonse também, você sabe, eu tenho opiniões fortes — emendou, dando ênfase nas últimas palavras.

— Como assim? 

— Um mundo onde os vampiros dominam os humanos, não é uma ideia ruim quando a gente olha de cima — Duque disse, procurando as palavras pra tentar encaixar na sua resolução — Mas e quanto aos livros, as músicas, os filmes, as... As discotecas, acha que os vampiros vão mandar tão bem quanto eles? Vão existir currais de humanos ou eles vão continuar vivendo em suas casas? 

— Eu acho que o termo discoteca nem existe mais — Delta murmurou.

— Não?

— Não.

— Droga! Eles mudam tão rápido — Duque se lamuriou com uma voz um tanto manhosa.

— De qualquer forma, nós carecemos de detalhes sobre os planos do conselho... Quer dizer, do meu pai — ela disse, vendo Duque assentir um par de vezes rapidamente.

— Não me entenda errado, você sabe que eu sou fiel a essa família — Duque dizia, enquanto eles desciam as escadas em direção aos pisos inferiores — Mas eu gosto das coisas como são, sabe? Tenho receio do que pode acontecer depois.

— Eu consigo entender... — Delta disse, de fato, assim como ele, ela tinha sérias dúvidas, o que ela disse a respeito de Lenna e seu pai, era mentira, um confronto entre os dois era algo que já vinha premeditando a tempos, a relação de ambos era tão fina quanto a casca de um ovo nesse momento, e qualquer coisa poderia quebra-la.

— Acho que precisamos de uma folga dessa tensão — Duque murmurou — O que me diz de darmos uma passada na discote... Quer dizer, qual é o nome que dão hoje em dia? 

— Acho que chamam de... Clube.

— Clube? Trocaram discoteca por isso, é? — ele pareceu inconformado — Tá, uma passada no clube de Blackvalley, o que me diz? 

— Eu não sei — Delta hesitou por um instante, não que ela não confiasse em Duque, tinha plena confiança nele, ela não confiava era em si mesma; não conviveu com humanos e não sabia controlar seus instintos. Estar em um lugar tão cheio deles...

— Vamos lá, eu te protejo, os humanos são até divertidos quando você os conhece melhor — Duque disse, e de fato, ele havia lhe apresentado diversas provas da genialidade vista nos humanos, parte disso, talvez, porque diferente dela, que já nasceu como o que era, ele nasceu homem, e foi transmutado em algum momento de sua vida. Esse seu protetor, esse pai que ela nunca teve, era o único transmutado com quem Alphonse mantinha contato, e o único em quem seu pai confiava plenamente.

— Tudo bem, mas eu só vou pra ver... Ér... De perto — ela murmurou em resposta.

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Comments

elenice ferreira

elenice ferreira

negão de da água na boca 😋

2024-08-10

1

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