Briga de monstros

— Eu não sei quem vocês são, mas vou pedir pra irem embora, antes que eu perca a paciência — Rufhus Murmurou em um tom de voz que mais parecia um grunhido, enquanto o outro cara continuava o encarando com aquele patético jeito desafiador de valentão de escola particular.

— Vamo embora, Beny, deixa isso pra lá por agora — um outro homem tentou puxar o amigo, que apenas se livrou bruscamente dele, caindo encima de Rufhus como consequência e, em um aspecto enjoado, o empurrou para trás.

Isso foi a gota d'água, o velhote cambaleou um pouco, mas logo se recuperou, acertando um soco no invasor, que grunhiu, recuando de forma brusca, mas não por muito tempo. os dois grupos se moveram ágeis, formando uma espécie de concha, onde cada um protegia o seu lado, estavam prestes a sair no soco bem ali. Monstros brigando em uma boate, isso era outra coisa com a qual Lester não estava acostumado. Ele se levantou em um solavanco. 

— Ou, ou, calminha aí, cês tão chamando uma atenção desnecessária! — ele disse em repreensão, esperando que pelo menos um dos grupos lhe desse ouvidos, mas isso foi em vão, uma briga já havia começado. Sem esperar uma resposta, o velho Rufhus partiu pra cima do seu novo "rival", batendo e se agarrando a ele em uma briga que tinha zero de elegância, enquanto Cinthia e sua irmã se levantavam para entrar na luta, trocando socos com uma outra mulher que se via ali no grupo dos prováveis vampiros e as combateu como uma verdadeira lutadora, Lester tentou se aproximar, mas o rapaz que havia segurado o amigo, já cansado da calmaria, o impediu com um leve empurrão, apenas nesse gesto, ele já pode sentir a força esmagadora que havia no braço do homem, uma força que superava um mero humano.

— É melhor ficar fora disso. 

Lester revirou os olhos, talvez tivessem notado que ele não era do grupo de Ghouls, ao menos, não ainda, já que o veneno ainda não havia tido efeito forte o suficiente para liberar um aroma que fosse sentido por eles. Por enquanto, ele ainda era um humano, com cheiro de humanos e... força de humano.

— Vai por mim, você vai querer que eu me meta nisso — Lester disse resoluto, tentando se aproximar novamente da confusão, mas foi novamente barrado pelo homem. 

— Escuta, eu não vou repet...

Ele foi calado quando Lester o atingiu com uma dura cotovelada na córnea, normalmente, nunca usaria um golpe tão mortal em um humano, mas como já tinha quase certeza que aquela coisa não era um, precisava garantir que ia derruba-lo com um só golpe, caso contrário, seria destroçado por ele. O sujeito cambaleou, e caiu encima de onde ocorria a briga entre os outros, Lester notou que havia uma outra mulher usando um sobretudo, que parecia alheia à confusão, apenas esfregando as próprias córneas com um aspecto irritado e impaciente, foi a mesma que tentou impedir que aquilo começasse. Claro, não conseguia ver praticamente nada do rosto dela em meio ao breu, mas... ela pareceu familiar.

— Eu avisei — ele disse em resposta depois que o seu provável vampiro já havia caído e desligado, mas não foi muito longe, antes que ele pudesse fazer mais alguma coisa, talvez, interpretando como uma ameaça àquela mulher de sobretudo, o seu guarda costas de dois metros tomou a frente de Lester. Ele suspirou, mais um golpe na córnea, era o que precisava, e rápido; mas antes que pudesse realizar qualquer movimento, a enorme mão do grandalhão envolveu o seu pescoço. 

— Já pediram pra você ficar fora — disse o gigante, enquanto, sem nenhum esforço visível, tirava Lester dos chãos pelo pescoço. Ele nunca desejou tanto o seu facão de ósmio como nesse momento, onde tudo que podia fazer era grunhir, balançar as pernas e xingar o grandalhão. 

— Duque... — a voz da mulher atrás dele soou suave, mas ainda, como uma repreensão.

— Tudo bem, está tudo sob controle — disse o homem cujo o nome era Duque. Tudo sob controle é uma ova, pensou Lester, seu rosto já começava a formigar por conta do estrangulamento. 

— Solta ele... — disse a mulher.

— Vai pra lá, tampinha, isso aqui não é com você — após dizer isso, Duque arremessou Lester com uma só mão, ele voou pra trás como se fosse um boneco, caindo sobre uma das mesas que haviam ali, cheia de bebidas e pessoas, que, ao notarem o que ocorria, foram todas se espalhando, uma balbúrdia real havia se formado ali, e a sua consciência, agora, estava por um triz...  

Tudo que Lester podia ver, em meio ao breu e o turvo de sua visão após o baque que sofreu, foi o movimento de silhuetas que divergiam e convergiam no centro da confusão. Os seguranças foram acionados, pessoas iam, viam e gritavam. Alguém tentou ajuda-lo a se colocar de pé, mas ele rejeitou a ajuda, balbuciando algumas palavras que provavelmente não fizeram nenhum sentido para quem as ouviu (já que também não fizeram para ele), e então, caminhou para longe dali, Lester sentia dor, tontura, e enjôo, e sabia, isso não era somente o efeito da pancada, não, era o veneno circulando em seu organismo. Talvez tivesse que recuar por agora, antes que o antídoto (que ele havia misturado na própria bebida quando ninguém olhava) e o veneno Ghoul começassem uma disputa de boxe dentro de suas viceras. 

Ele desceu pelas escadas, junto à alguns dos riquinhos que também fugiam da confusão, não que aquilo fosse algo tão alarmante; algumas semanas atrás, o próprio Lester havia decapitado um lobisomem no barzinho de estrada no Maine. Mas ali, no camarote da White Flag, aquele bando de ingleses riquinhos, que provavelmente nunca presenciaram alguém levando um soco na cara pessoalmente; e que a cocaína pura a qual puxavam em fileiras nas mesas de neon, provavelmente, não sabiam nem de onde ela vinha, ali, bem, as coisas eram diferentes.

— Achei você — disse uma voz (mais doce do que ele se lembrava e mais atrativa no momento do que ele gostaria que fosse). 

— Cinthia? — Lester perguntou, apoiando a mão na parede, próximo da saída da boate, sua visão estava turva agora, e quando a adrenalina passou, ele sentiu a dor e o calor de um filete de sangue que escorria da sua testa, resultado do impacto contra a mesa, quando o armário ambulante o arremessou pra longe.

— Ah, meu Deus, coitadinho — ela disse em uma falsa nota de ternura, se aproximando e, com um lenço que tirou da bolsa, limpou o sangue do rosto dele, segurando suavemente em seu queixo.

— Não se pode ganhar todas, né não? — ele perguntou, mostrando um meio sorriso um pouco sem graça.

— Não precisa se sentir mal por isso, você estava em clara desvantagem — ela disse, um olhar tão maternal que, por um ínfimo instante, quase o convenceu que era uma boa pessoa.

— Cadê os outros? 

— Estão saindo do problema, a confusão já acabou; aqueles... Selvagens ainda vão ter o que merecem, não se preocupe. 

— É, eu tenho certeza que sim... — ele disse, e claro, para Lester, isso tinha um duplo sentido, não eram os Thierrys quem iam ensinar uma lição aos vampiros da cidade, era ele, assim que... Se recuperasse da surra e da humilhação (e que acabasse com os Thierrys também).

— Vem comigo, Chris... — Cinthia o chamou, puxando levemente pelo braço, depois de parecer pensar por alguns segundos — Não posso deixar você voltar pra casa nesse estado.

— Ir contigo? Pra onde exatamente nós vamos? — ele perguntou, olhando diretamente para ela, tentando focar a sua visão, a qual, aos poucos, se tornava um estranho vórtex de cores.

— Um... Lugar seguro... 

E o jogo começa.

 

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elenice ferreira

elenice ferreira

fedeu maluco

2024-08-10

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