— Um orfanato? O ricasso sinistro deu pra filantropo agora, foi? — Lester perguntou com o cenho franzido, diante de Constantine, que apenas deu de ombros com uma expressão contrariada em seu rosto enrugado.
Ambos caminhavam pela catedral, em direção dos alojamentos, uma vez que a missa já havia chegado ao fim, e tudo já tinha sido devidamente organizado. Os passos de ambos ecoavam pelo vazio, bem como suas vozes.
— Na verdade, a nossa paróquia já teve um projeto de orfanato no passado, estávamos indo bem, mas... Ele foi descontinuado por falta de recursos. O que o senhor Karstein ofereceu, foi o patrocínio pra que o projeto seja continuado — disse o reverendo.
— E o que ele ganha com isso? — perguntou Lester, já impaciente.
— Ele não pediu nada em troca, disse que... Era um gesto de boa fé, que tinha um grande patrimônio e queria usar isso pra ajudar pessoas — argumentou Constantine, e sua voz quase parecia ter um tom de defesa a Alphonse.
— E você caiu nesse papinho?!
— Não, eu... Eu não, mas o que ele poderia querer com isso? Digo, o que ele ganha? Eu não entendo — perguntou o reverendo, depois de algum tempo em um silêncio de ponderação.
— Sei lá, crianças?... Não, não só isso...— Lester disse em um ar pensativo, então, como se um interruptor ligasse dentro do seu crânio, ele finalmente entendeu a coisa, e o padre pareceu sentir o mesmo, já que o olhou com os olhos levemente arregalados.
— Virgens! — eles disseram quase em um uníssono. Não era novidade que uma boa parte das freiras tinham tido suas próprias vidas antes de escolherem ou serem forçadas a escolher esse terrível caminho de castidade... Mas quanto maior o nível de castidade de alguém, mais poderosos eram os feitiços que podiam ser feitos com o seu sangue, vampiros sabiam bem disso.
— Então é isso? Eu não posso concordar com algo assim, jamais! — Constantine disparou, horrorizado com a descoberta — Santa mãe de Deus! Se você tiver razão, o que eles pretendem fazer? O que eles...
— Calma aí, velhote, se concentra! — Lester grunhiu, parando e sacodindo o reverendo pelos ombros enquanto o fitava com seus olhos cinzas vibrantes.
— Mas...
— Escuta, se você ficar se cagando de medo e recusar, não acha que ele vai achar isso esquisito pra cacete, hein?! — ele perguntou bruscamente — Você precisa entrar na dele, concordar com o patrocínio, e com isso, você pode dar um jeito de me colocar dentro daquela mansão.
— S-se eu fizer isso, e depois? — perguntou o reverendo, com sua voz, agora, pra lá de trêmula.
— Depois? Ué, eu testo ele, e se confirmar que ele é mesmo um vampiro, eu degolo cabeça do infeliz e trago pra você em uma bandeja de prata, tá legal? Igual aquele cara lá da... Bíblia — Lester disse, tentando manter a calma, apesar da sua voz já soar naturalmente mordaz — E aí, nós salvamos a porra do mundo e tomamos um whisky bem vagabundo pra comemorar, que tal?
— Acho bom, a-acho muito bom... — disse o reverendo, não podendo esconder o tremor em sua voz — Mas não traga a cabeça pra mim, por favor.
— Falou, eu enterro em um buraco então.
...
Naquela noite, Lester retornou ao apartamento que vinha alugando no centro, deu uma boa checada em seus pertences e leu as mensagens com informações inúteis sobre o clima e eventos sociais da cidade, que foram enviadas pelos membros da irmandade. Era bom finalmente se desfazer daquela roupa e pinta de padre, só pra variar um pouco. Ele tomou um banho quente, assistiu a um filme de pancadaria do Jet Lee, e ouviu algumas músicas de rock dos anos noventa em sua playlist mista. Quando se deitou pra dormir, ele leu algumas notícias locais em seu celular, através de um blog que parecia ter sido escrito por um estagiário em jornalismo. Algo lhe chamou atenção, fazendo com que, em um sopapo, Lester ficasse sentado na cama:
"Dois corpos são encontrados em meio à floresta"
Na pequena matéria, constava que um casal que estava acampando próximos às montanhas, havia desaparecido a um tempo, e sido encontrados uma semana depois, os órgãos internos foram arrancados, e seus corpos rasgados por garras e presas. As autoridades desconfiavam de um ataque de animal selvagem, embora não houvessem grandes mamíferos, naquela região, que pudessem causar um dano como esse em uma pessoa, o que dava brecha para a teoria incompetente de sempre: imigração de animais. Aquilo não era obra de vampiros, mas poderia ser de alguma outra coisa que comia vísceras, como um lobisomem ou um ghol. Não era seu trabalho, e se meter nisso, poderia comprometer o seu disfarçe e sua investigação principal, por isso, Lester desligou o celular e o deixou de lado, ignorando aquela coceira que se fazia dentro do seu coração, como um impulso instintivo de agir, uma força que o puxava em direção das lutas e uma voz horrenda que sussurrava em sua mente: "mais pessoas vão morrer" sempre que ele tentava deixar um caso desses pra lá... Charles, o seu parceiro, nunca deixava um caso em aberto, mesmo que tivesse que investigar três assuntos diferentes ao mesmo tempo, mesmo que fosse contra as ordens da irmandade ou que se colocasse em constante risco; e claro, ele sempre arrastava Lester consigo para as suas malditas cruzadas. Talvez por isso, ele havia desenvolvido esse mesmo instinto de caça.
Obviamente, a sua recusa não durou muito, e em menos de vinte minutos, ele já havia aberto o seu laptop sobre a bancada de trabalho e já estava acessando abas e abas de informações e blogs locais, afim de adquirir informações. Aparentemente, em um raio de cem quilômetros, no derredor do rio Dean, os desaparecimentos de pessoas e cadáveres surgindo sem os órgãos internos, mas com o resto dos corpos intactos, eram algo corriqueiro e havia até uma espécie de padrão. No entanto, Blackvalley era uma região à parte, uma área que nunca havia sido alvejada pelo que quer que fosse que estava causando aquilo. Lester precisava de mais informações, mas não poderia fazer isso da paróquia, ou iria comprometer o disfarce de reverendo Jacob; ele precisava, agora, ir a algum outro lugar onde poderia se misturar sem ser reconhecido, um lugar onde todas as pessoas da cidade frequentavam...
Rapidamente, ele voltou a acessar as informações locais enviadas pela irmandade, enquanto algumas ideias se desenvolviam em sua cabeça;
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Atualizado até capítulo 69
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